Esta pesquisa aborda questões referentes à formação sociocultural e das identidades dos jovens pichadores moradores da Baixada Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro/BR. O escopo desta pesquisa é compreender como os processos econômicos, sociais e territoriais influenciam na formação da identidade e subjetividade desses jovens que habitam esta região periférica, para a partir de então, compreendermos como estes jovens se organizam e criam seus próprios processos identitários, sociais e culturais. De abordagem qualitativa, esta pesquisa contou com analise bibliográfica e cinco entrevistas realizadas com sujeitos que circulam por entre os três objetos aqui trabalhados – jovens, pichadores e moradores dos municípios da Baixada Fluminense – buscando compreender como estes jovens percebem o uso do espaço urbano, sua função social, o pertencimento às cidades, suas especificidades e procuramos compreender a pichação por uma perspectiva de organização sociocultural da juventude periférica.
Para refletirmos sobre como é estabelecida a construção das identidades e como a juventude que reside na Baixada Fluminense se organiza, precisamos compreender que este território é uma região bastante específica, composta por treze municípios e aproximadamente quatro milhões de habitantes, e que a partir da colonização, passa a existir enquanto um espaço de exploração à serviços de outras regiões. A Baixada Fluminense se constitui em um processo nítido de exclusão e distanciamento tanto físico, quanto subjetivo, dos mecanismos necessários para a formação dos indivíduos. Dentro da sua ampla diversidade sócio cultural, os habitantes dessa parte periférica do Rio de Janeiro compartilham de processos sociais comuns, desde sucateamento dos bens públicos, construção de uma representação social subalterna, a falta de infraestrutura, pobreza urbana e violência social.
A juventude, recorte desta pesquisa, é, muitas vezes, compreendida como etapa transitória e de crise e, por isso, deslegitimada. Porém, esse período é importante e precisa ser compreendido como um processo real e legítimo. Dupret (2008) apresenta que os processos de constituição da juventude não se dão da mesma forma nos diferentes contextos sociais. Esta pesquisa se dedica a pensar esse jovem enquanto individuo que é forjado por um contexto histórico, social e econômico dentro dos limites desta sociedade excluída e excludente e abordar conceitos que orientam a perspectiva da relação entre a exclusão e pobreza social e as formas de organização da juventude.
A sociabilização é fator fundamental na dinâmica da juventude. Os espaços coletivos possibilitam a criação de práticas, relações e símbolos, por exemplo, na escola, na rua, no trabalho, nos grupos de amigos e na prática de esporte. “Podemos afirmar que a sociabilidade, para os jovens, parece responder às suas necessidades de comunicação, de solidariedade, de democracia, de autonomia, de trocas afetivas e, principalmente, de identidade” (DAYRELL, 2007, p. 1111). Entendemos então que através desta organização coletiva esses jovens criam suas próprias linguagens, seus signos, valores e significados. DaMatta (1986) pondera que é exatamente por partilharem estes códigos sociais que os indivíduos desenvolvem relações e convivem em grupo. Isto posto, consideramos a pichação, oriunda dos grupos e organizações da juventude, parte de um processo sociocultural legitimo. A pichação está na vida dos jovens para além da tinta no muro, é a linguagem de grupos sociais, são marcas que representam pessoas, regiões e épocas. É um mecanismo de afirmação social, é a maneira que estes sujeitos usam para se divertir, para se organizar, onde encontram um lugar dentro de uma sociedade excludente e é a partir de onde constroem sua maneira de perceber e ocupar a cidade.
Diante disso, ao compreendermos a sociedade e os processos de formação dos indivíduos, podemos refletir a respeito da inserção da juventude neste grupo que vai na contramão da hegemonia social. A cultura da pichação nada mais é do que um reflexo da sociedade. São indivíduos que buscam inserção em grupos, que compartilham experiências, a realidade, onde constroem símbolos e significados. A transgressão dessa ação, as marcas deixadas, a ocupação das cidades por grafias inelegíveis aos olhos externos, obriga a sociedade a enxergá-los. A pichação é feita pra incomodar, assim como a sociedade de classes se incomoda com a presença do corpo físico. Ela é, além de tantas outras possibilidades, uma linguagem. É a voz daqueles que são forjados pela exclusão e esquecimento. É a maneira que a juventude encontra para demarcar a insatisfação com a invisibilidade social a qual é destinada. Ela é agressiva, propositalmente, porque a sociedade é agressiva. Quem não é visto – porque habita as margens dos limites sociais – não é lembrado. A pichação emerge como um ato de pertencimento, de sentido social e de inclusão. Situados num modelo que os excluem e limitam, encontram na cultura da pichação um espaço social de formação de identidades, de organização coletiva e visibilidade social. Partindo das palavras de um pichador entrevistado – Pichação é algo muito silencioso, precisa ser invisível pra sociedade – podemos então refletir a respeito de qual lugar social, dentro um modelo tão desigual, esses jovens estão se articulando e qual o motivo dessa incansável busca pela visibilidade.