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Resumen de ponencia
Telenovelas: O recurso midiático que endossa a violência obstétrica

*Talita Melgaço Fernandes



A pesquisa aqui exposta busca situar o papel da mídia no suporte a uma assistência ao parto e ao nascimento tradicional que possibilita a incidência da violência obstétrica. Destarte, analisar-se-á narrativas retiradas de cenas de telenovelas.

Foucault (1984), em “Microfísica do Poder”, diria que as estruturas existentes na sociedade são tanto permeadas como reflexos do poder. A distribuição convencional deste elemento, todavia pode ser corroborada ou não conforme a construção de narrativas. De acordo com Fonseca (2011), em “Mídia, poder, democracia: teoria e práxis dos meios de comunicação”, na esfera pública a postulação desses diversos enredos pode influenciar agendas, preferências e opiniões.

Em 2000, Luís Filipe Miguel, em seu texto “Um ponto cego nas Teorias da Democracia: Os Meios de Comunicação”, chamaria atenção para a negligência com relação a estes meios dentro da compreensão do jogo político democrático. Todavia, desde o momento da crítica até o tempo presente, é possível notar que a influência dos meios de comunicação tem sido cada vez mais objeto de estudo nas ciências sociais.

As instituições midiáticas no Brasil, em especial a TV aberta, frequentemente liderada em termos de audiência pela emissora Rede Globo, têm alcance expressivo na população. Não raramente, as informações e narrativas vinculadas por esses meios são interpretadas como confiáveis, neutras, independentes e elucidativas. Ainda que de maneira poética e ficcional a credibilidade dada às realidades retratadas nas telenovelas é suficiente para que esse recurso paute temas e perpetue certas lógicas, mesmo que de forma sutil e aparentemente inócua. Uma olhada mais crítica com relação ao entretenimento, entretanto, revela que este carrega consigo uma agenda de mudança e permanência de certos tópicos.

Parir e nascer no Brasil tem estado atrelado à eventos exclusivos do ambiente hospitalar. Numa dinâmica de atendimento em que uma vez feita a internação estarão progenitoras e bebês automaticamente sob a tutela dos profissionais de saúde. Nessa lógica, que Davis-Floyd (2001), em “The technocratic, humanistic, and holistic paradigms of childbirth”, classificaria como tecnocrática, a assistência tradicional ao parto e ao nascimento mantém uma hierarquia de poder entre a equipe e as usuárias do serviço, sob a qual a autonomia da mulher é ignorada.

Ao revisarem o conceito de violência obstétrica, que perpassa pelo tratamento violento (psicológico e físico), negligente e coercitivo, Zanardo et al (2017), em “Violência obstétrica no Brasil: uma revisão narrativa”, chegam à conclusão que também a perda do protagonismo da mulher e apoderamento do processo de parto e nascimento pelos profissionais da saúde se configuram como ato violento. Na mesma oportunidade, os referidos autores expõem dados do cenário obstétrico brasileiro, a fim de ilustrar o quanto o parto e nascimento passam por intervenções desnecessárias, conforme diretrizes nacionais e internacionais.

Nesse sentido, as narrativas ficcionais, no contexto desse estudo apresentadas nas telenovelas, revelam uma agenda de permanência com relação ao paradigma do parto e nascimento tecnocráticos na medida em que retratam, sem criticidade, práticas e procedimentos comuns a esse modelo, como se fosse esse o padrão que deve ser seguido ou ainda desejado.

Para a análise das cenas serão usadas as mais recentes diretrizes de atenção ao parto normal da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde, bem como as categorizações de paradigmas do parto e nascimento estabelecidos por Davis-Floyd (2001), a saber, modelo tecnocrático, modelo humanizado e modelo holístico. Adicionalmente, com vista a detectar aspectos mais subjetivos outros componentes da cena também são analisados.

Resultados preliminares sugerem que partos e nascimentos são pouco explorados nas telenovelas e quando são frequentemente não correspondem à realidade ou simplesmente reproduzem a realidade de maneira acrítica. Apontando para uma agenda de permanência a respeito do paradigma tecnocrático e da violência obstétrica.




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* Melgaço Fernandes
Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. Belo Horizonte, Brasil