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Resumen de ponencia
Estereótipos étnicos e sexuais na obra de Jorge Amado: elementos discursivos na construção da identidade regional do Nordeste brasileiro

*Lucivânia Nascimento Dos Santos



A obra de Jorge Amado (1912-2001) pode ser analisada no contexto da construção literária da identidade nacional brasileira e, em particular, na construção de uma determinada identidade regional do Nordeste brasileiro, nos marcos do modernismo da primeira metade do século XX e de suas derivações posteriores. Esse é um empreendimento intelectual do qual o escritor participou com uma obra pautada por temas ligados ao contexto histórico e geográfico nordestino, com destaque para o sul da Bahia, região onde nasceu e que é tema de muitos dos seus romances.
São abordados aqui elementos dos romances “Terras do Sem Fim” (1943) e “Gabriela, Cravo e Canela” (1958) com base em conceitos das teorias de análise do discurso e em contribuições teóricas de autores pós-estruturalistas como Michel Foucault, Edward Said e Aníbal Quijano. A análise dos referidos livros de Jorge Amado utiliza como alicerce, em um plano mais específico, as reflexões do geógrafo Albuquerque Júnior sobre “a invenção do Nordeste”, em que esse autor, em uma perspectiva desconstrucionista, define o regionalismo do Nordeste como um “regionalismo de inferioridade”, em contraposição ao regionalismo de São Paulo, que se caracterizaria pela ideia da “superioridade”. O autor chega a esse conclusão a partir de jogos discursivos de enunciados a partir do “Sul” e do antigo “Norte”, nos quais os interesses das elites locais de cada “região” ora são conflitantes, ora são convergentes. A inferioridade presente no regionalismo do “Norte”, depois “Nordeste”, é considerado de inferioridade porque uma série de imagens são selecionadas tanto pelos enunciadores sulistas como nortistas de modo a mostrar, por meio de estereótipos, o Nordeste (que antes de sua invenção era chamado de “Norte”) como atrasado, arcaico, medieval, não-civilizado, habitado por “fanáticos”, “loucos” e “violentos”, associando isso à mistura de raças, à presença do negro, à seca e ao clima.
Constata-se, numa reflexão preliminar à análise da obra de Amado, que os discursos da construção da identidade nacional brasileira estavam atravessados por discursos “científicos” da época, como os da eugenia, do darwinismo social, bem como do nacionalismo e do regionalismo. A formação discursiva que dá origem ao Nordeste na década de 1920, mas que tem origem nas últimas décadas do século XIX, é a formação discursiva na qual se inserem romances regionalistas modernistas de autores como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e outros escritores de esquerda, mas que teve como precursores autores elitistas que evocam o passado de glória e de riqueza de suas famílias que constituíam a elite escravocrata açucareira, como Gilberto Freire e Raquel de Queiroz. De um lado, escritores progressistas na busca de uma sociedade igualitária, denunciando a exploração de trabalhadores, e, do outro lado, saudosistas que reivindicam seus privilégios evocando um passado glorioso identificador da “região”. A seca, o coronelismo e o messianismo são selecionados nestes discursos, de modo que o Nordeste emerge como uma construção imagético-discursiva e sua configuração como região nasce do reconhecimento da derrota das elites do Norte.
Na mesma década, em 1922, acontece a Semana da Arte Moderna em São Paulo. Este movimento é caracterizado pelo objetivo comum de construção da identidade nacional. O regionalismo se manifesta como um meio de se chegar à identidade do povo brasileiro, em suas diferentes áreas do território e etnias. O que caracteriza o movimento modernista a partir de São Paulo, para Albuquerque Júnior, é sua pretensão de ser reconhecido como centro cultural do país, uma vez que já ocupava a posição anteriormente do Rio de Janeiro de centro econômico. Neste sentido, os modernistas viam São Paulo como modelo sintetizador da identidade nacional mestiça, símbolo do desenvolvimento nacional e da civilização, de tal modo que a área do Brasil que era chamada “Norte” e o que veio a ser chamado de Nordeste era o passado primitivo da nação, o Outro de São Paulo, mas que precisava ser modernizado e “civilizado” também e, visto como passado da identidade nacional e como elemento de sua formação, deveria também ser evcado pela memória nacional. Em meio a essa sintetização da identidade nacional a partir de São Paulo, emerge o mestiço como símbolo do povo brasileiro.
Coincidentemente, os enunciados dos discursos da construção da identidade nacional, em meio ao qual se constrói a identidade nordestina e da região cacaueira em torno de estereótipos, são feitos por, predominantemente, homens brancos – e poucas mulheres, mas também brancas, da mesma elite intelectual e econômica privilegiada. São discursos atravessados de formações discursivas coloniais, em que a negra e o negro, a índia e o índio, a mestiça e o mestiço são estigmatizadas e estigmatizados por meio de estereótipos, do racismo e do sexismo. A formação discursiva que constrói a identidade nacional na primeira metade do século XX e, paralelamente, inventa o Nordeste e a identidade nordestina, conforme Albuquerque Júnior, é a nacional-popular e utiliza o dispositivo das nacionalidades para sua sustentação. Mas podemos perceber, com base em Quijano, que os discursos coloniais atravessam o processo de construção da identidade nacional brasileira, nordestina e, neste processo, a construção da identidade da região cacaueira na obra de Jorge Amado.
Gabriela, personagem de Jorge Amado, era mulata, portanto, negra, mas no discurso da democracia racial era mestiça. Há uma intersecção de raça, classe e gênero na construção da “identidade nacional” onde o “Nordeste” é tecido como o Outro de São Paulo, do “Sul”. Há fios discursivos em “Gabriela, Cravo e Canela” que partem de direções opostas formando seu tecido. Se, por um lado, há uma exacerbação da sexualidade – que está relacionada à histórica irracionalização dos não-brancos (e mesmo das mulheres brancas, por serem mulheres, já que o conceito de humano e, portanto, de racional, era um privilégio masculino, de modo que a mulher não era sujeito-razão no racionalismo europeu) desde o discurso colonial, de modo que o sujeito não-racional está em estado de natureza, está mais próximo do animal, do instinto, é o corpo – por outro lado, há uma nítida tentativa do autor narrador de levantar questões que evidenciam sua crítica ao patriarcado, à posse da mulher pelo pai e pelo marido, à falta de liberdade no casamento dentro dos padrões da moral social da época, por meio de personagens femininas com forte protagonismo em sua trama.




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* Nascimento Dos Santos
Universidade Federal do Sul da Bahia UFSB. Porto Seguro, Brasil