Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A Marginalização dos Sujeitos Não-Civilizados

*Hellen Cristina Silva De Oliveira
*Natalia Carvalho Médici




A Marginalização dos Sujeitos Não-Civilizados

Hellen Cristina Silva de Oliveira
Natalia Carvalho Médici



Objeto e Objetivo
A razão e a loucura – bem como os desvios de conduta­ – são conceitos dotados de abstração, porém localizados na realidade material segundo diferentes perspectivas, neste trabalho apresenta-se a primazia de que tais conceitos permeiam a vida social, bem como a maneira como o indivíduo vê a sociedade, e como este se vê inserido na mesma.
A leitura social – do todo, de si e de outrem –, enfim, se apresenta como um mecanismo imprescindível para o desenvolvimento das ações humanas. “Para Peters, a loucura seria, como crise, recurso analítico para examinar a normalização do “social”; contudo, vai mais além, reconhecendo que seria também forma de vida”1. (PETERS, 2017 apud PERRUSI, 2017, p.17). Por conseguinte, há que se pensar como a loucura é localizada dentro das leituras sociais e os interesses da mobilização do conceito.
Archer (2003) desenvolve um quadro analítico orientado por quatro formas diferentes de experienciar a reflexividade, três dessas considerando indivíduos “reflexivamente plenos” e uma considerando a suspensão da capacidade de reflexão. Existem os reflexivos autônomos, os comunicativos e os metareflexivos – categorias as quais serão trabalhadas mais adiante no trabalho em questão – cuja formação do pensamento se dá nas múltiplas posturas sociais ao encarar os objetos da vida material.
No que tange a última categoria, os “fragmentados”, reside uma incompatibilidade entre o indivíduo e a conversa interna. A autora os aponta como um grupo de pessoas onde a formação do pensamento e as conversas internas levam à perturbação, considerando casos de delinquentes que não possuem projetos pessoais, objetivos estabelecidos. Propõe-se então uma leitura crítica desta categorização, uma vez que a estrutura condiciona e castra as capacidades reflexivas.
Reivindica-se, no presente trabalho, o papel reflexivo do indivíduo em espaços que não se pretendem propriamente condicionantes, é preciso ter cuidado ao distribuir tais categorias por uma análise socialmente orientada, afinal o estabelecimento dos projetos futuros também caminha de forma conjunta às condições de produção e reprodução da vida material, sensações e imagens.” (OLIVEIRA, 2018, p. 10).
Procura-se pensar no local social do indivíduo fragmentado, a capacidade deste se reivindicar como um eu dotado de identidade e a leitura social que se constrói a partir de tal categorização. O conceito de identidade e como ela se relaciona com o eu e o sujeito é um tema central na obra de freudiana.
A marginalização e a fragmentação do processo de formulação do pensamento caminham de maneira conjunta pela capacidade de exclusão que se constrói sobre aqueles cujo processo reflexivo se distancia da normalização, como supracitado.
O cenário que circunscreve o local deixado aos fragmentados são as ruas, argumenta-se que diferente do que se narra pelos que “não conhecem a rua, ali não há apenas ausência (de dignidade, de limpeza, de direitos, de cidadania, de moral, de valores, de família, de trabalho, de autoestima).” (FELTRAN, MARTINEZ e RUI, 2016, p. 17).
Neste trabalho, debateremos a questão dos sujeitos fragmentados situados no ambiente urbano na figura dos marginalizados, estes sendo os moradores em situação de rua, afim de compreender o uso desta categorização a partir da análise empírica do enquadramento da questão social da lacuna de habitação e da formação da identidade destes sujeitos.

Metodologia
Fazer análise bibliográfica dos textos propostos na bibliografia, analisar a problemática social a partir do debate teórico pŕeexistente e realização de entrevistas qualitativas com moradores em situação de rua.

Conclusões preliminares
“Identidade” pode querer dizer: identidade governada por interesses particulares, identidade como fenômeno coletivo que identifica membros de um grupo, identidade como nuclear do self, identidade como múltipla e fluida. Por isso, eles propõem uso de termos menos comprometidos politicamente: identificação, autocompreensão e comunidade.
A análise de indivíduo feita na teoria psicanalítica complementa a análise coletiva da sociologia, já que a sociedade é composta de indivíduos mas ela também é um organismo suis generis, além da mera soma de indivíduos. E algumas vezes se interligam, como é o caso da teoria do processo de controle e autocontrole de Elias e a teoria da atitude de reserva de Simmel.
Para Simmel, a sociedade toma forma enquanto os indivíduos – atores sociais – criam relações de interdependência e compartilhamento das subjetividades, compreendidas como interações de reciprocidade. Deste modo, o objeto de estudo da sociologia segundo o autor são as formas de interação social[1], e sua manutenção durante o processo de desenvolvimento da sociedade; esta vista como um fluxo, em constante mudança.
No que tange à questão das cidades, o autor constrói uma análise sobre o efeito da modernização e urbanização nas relações humanas em sua obra Metrópole e Vida Mental, de 1973. Para tal, visa a compreender as características fundamentais da vida no ambiente urbano – a metrópole –, mais uma vez se debruçando sobre o estudo das formas de interação e atuação do indivíduo diante das condições de vida no ambiente supracitada.
De forma distinta à condição do indivíduo primitivo, onde suas tensões entre externo e interno, subjetivo e objetivo, se dão num cenário de sobrevivência na natureza e estímulos externos mais simples, o indivíduo na modernidade apresenta uma tensão entre seus aspectos subjetivos e a própria sociedade. Existe, consoante Simmel, uma tendência à individualização - argumentação que será apresentada no decorrer deste trabalho – e que, portanto, vai além da compreensão das dinâmicas próprias da cidade moderna, buscando assim postular como a metrópole produz individualidade.
Partindo do ponto da interação, como supracitado, estas dinâmicas requerem reciprocidade, não necessariamente concordância, desta forma as relações ainda que superficiais pode-se dizer que se baseiam em algum tipo de reconhecimento do outro durante a interlocução, seja ela pela consonância, seja ela pelo conflito. O ponto que interessa a este trabalho é justamente o momento em que o reconhecimento do outro se esvai, quando um indivíduo ignora a existência de outrem.
A aceleração inerente ao cotidiano urbano extingue certos toques ao íntimo, racionalizando e enxugando os ambientes passíveis de formulação de diálogo. Um exemplo prático seria o toque físico, como um esbarrão entre duas pessoas ao transitar pela mesma calçada. Este momento poderia significar um estímulo para a interação dos envolvidos, pela troca de palavras, seja para pedir desculpas ou para culpar o outro pela situação.
Observando esta simples situação possivelmente social, coloca-se que “se assumirmos que um elemento vocal é um estímulo para uma certa resposta, então o animal que faz uso desse gesto vocal como o som resultante, ele despertou em si mesmo, pelo menos, uma tendência a responder do mesmo modo que o outro animal”. (MEAD, 1922, p. 63). Se a situação do toque é completamente naturalizada dentro do contexto das cidades e não desperta qualquer tipo de interação, ela está na esfera do ato de ignorar.
Ao pensar a questão do local social e da formação da identidade dos moradores em situação de rua, o processo de naturalização destes personagens urbanos também se dá numa forma de descaracterizar sua existência como indivíduos, uma vez que se estes são colocados à margem no extremo de incapazes de interpelar o íntimo, o subjetivo, de outros para estabelecerem relações, são marginalizados ao ponto de não constituírem a sociedade em si.
Entretanto, a questão dos moradores em situação de rua ultrapassou as vias do debate moral sendo considerado um problema político e social, cujas soluções demandam elaborações de diversas ordens, no campo das políticas públicas, da sociologia urbana, da formação da identidade e da dignidade humana. Através das pesquisas até então realizadas, pode-se perceber que apesar deste enquadramento a questão destes indivíduos ainda está no campo da marginalização.
Tentando compreender a questão dos marginalizados, pode-se mobilizar o texto desenvolvido por Elias e Scotson (1965). Múltiplos conceitos de identidade são fundamentais para compreender o texto “Os estabelecidos e os outsiders”. Nesse texto, os autores buscam compreender lógica da configuração social de uma pequena cidade, usando a metodologia de sociologia configuracional de Elias.
Moradores de uma área da cidade discriminam outros por questão apenas de tempo de permanência no local, sem distinção de raça, etnia ou classe social aparente. A identidade quanto identificação de membros de um grupo gerava maior coesão entre estabelecidos pelo tempo na região, o que ajudava na exclusão de outsiders. Os estabelecidos possuíam um senso de dividir valores éticos e morais iguais e superiores aos outsiders, dessa forma fortalecendo seu conceito de identidade como pertencimento a uma comunidade.
E com isso eram atribuídas características a membros de dois grupos baseados apenas no tempo de estabelecimento no local. A chamada estigmatização social, os estabelecidos se viam como mais “civilizados” (utilizando o conceito de “civilização” de Elias ligada a criação de mecanismos de controle social e autocontrole) que os outsiders, enquanto os outsiders eram percebidos como sujos, sem higiene, pouco civilizados.
Esse o estigma limita tanto o grupo que sofre quanto o que propaga, ela cria mecanismos de autocontrole e controle social. Como por exemplo, estabelecidos não se relacionam amorosamente com outsiders. A estigmatização gerada pela identificação do grupo de outsiders afetava, principalmente, os jovens recém chegados, que interiorizaram as características projetadas neles, se viam como inferiores e eram mais propensos a abandonar estudos e cometer delitos.







......................

* Silva De Oliveira
IESP. Rio de Janeiro, Brasil

* Carvalho Médici
IESP. Rio de Janeiro, Brasil