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Resumen de ponencia
Epistemologias do Sul e o debate centro-periferia

*Priscilla R Fonseca Moura



A marginalidade latino-americana, no que tange à construção do mundo moderno como conhecemos, é uma das grandes discussões que o conceito de colonialidade de Aníbal Quijano suscita. Sob esta perspectiva, a influência das culturas presentes neste continente, a configuração das relações sociais mediante a ideia de raça, o vasto conhecimento dos diversos povos sobre o território, entre inúmeros outros aspectos, permitiram a constituição do mundo moderno tal como o conhecemos. Somente a partir da expansão às Américas foi possível a formação de um padrão de poder mundial, com o estabelecimento do controle do trabalho como elemento central para o desenvolvimento de um mercado com global. A narrativa hegemônica ocidental, no entanto, sustenta que a Europa é o resultado mais avançado de sociedade e seu modelo precisa ser reproduzido. Colocando-se no centro da História e do progresso, tal construção teórica pretende-se totalizante e única, referência a partir da qual se civilizam os povos primitivos do outro lado do oceano. Boaventura defende que a moderna sociedade ocidental e seu paradigma legitimado como universal não deixa de ser, em suma, local, diferenciando-se pela capacidade de se globalizar com sucesso, suprimindo, apropriando-se e marginalizando tantos outros paradigmas e tradições. Autores como Wallerstein, Mignolo, Coronil, Lander e Segregra concordam com a violência estrutural com a qual a América Latina foi submetida, fundamentada por esse pensamento hegemônico. Nossa crítica busca a desmistificação da noção de um conhecimento universal, enfatizando a pluralidade da sociedade moderna a partir do reconhecimento de que todas as explicações do mundo serão sempre incompletas e não-excludentes, como salienta Boaventura Sousa Santos. Empreenderemos uma revisão bibliográfica do conceito de periferia aplicado a América Latina, buscando referências para invalidar a ideia de atraso, de desumanidade, de pobreza e de barbárie comumente associada ao termo. A definição de periferia suscita a subalternização, reduz a participação e a contribuição ao mundo capitalista dos países identificados por tal conceito. É preciso, deste modo, encontrar caminhos de defesa de que o processo de construção do pensamento moderno ocidental foi, no mínimo, realizado de modo dialético, interdependente e, principalmente, mediante dominação e violência, pela apropriação de conhecimentos, de culturas, de matérias-primas e de significados. As tradições dos países ditos periféricos foram rechaçadas, os povos submetidos à escravidão e ao racismo, a tecnologia e a inteligência inferiorizadas e remodeladas nos ditames ocidentais, a natureza destruída e roubada para o enriquecimento de metrópoles que hoje são chamadas às falas através de uma determinação epistemológica universalizante e, novamente, salvadora. Tal empreitada é necessária e urgente, porém, deve ser realizada através de marcos não hegemônicos que foram silenciados desde o colonialismo. Pensar a América Latina desde nosso ponto de vista pressupõe dialogar a partir de bases epistemológicas diferentes daquelas que fundaram os modos de interpretação hegemônicos. Uma grande parcela de estudos críticos, ao não superarem este vício de origem, acabam por novamente legitimá-los. Ao longo do trabalho discutiremos, também, as provocações de Eduardo Galeano ao asseverar que as periferias servem e enriquecem os países centrais através de suas reservas naturais, seus produtos e sua mão de obra. Como, então, podem ser a sombra do mundo, a parte mais marginalizada, se as riquezas partem delas? O “atraso” de uns compõe e gera o “desenvolvimento” de outros. A derrota daqueles é sinônimo de vitória em distantes cantos do mundo. Portanto, como não identificarmos nisso um caráter dialético e interdependente de trocas sucessivas, ainda que desiguais? Se a exploração de uma riqueza externa empobrece os de dentro e faz prosperar antigas metrópoles coloniais, isso não significa, contraditoriamente, que as periferias é que são ricas e centrais para a permanência da sociedade moderna?









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* R Fonseca Moura
Universidade Federal do RIo de Janeiro - Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional UFRJ - IPPUR. Rio de Janeiro, Brasil