A produção e reprodução da vida social nos países da América Latina, talvez mais do que em qualquer outro lugar do planeta, padece por causa dos vivos tal como por conta dos mortos. Desenvolvimento e subdesenvolvimento no capitalismo latino-americano parecem obedecer uma lei de bronze: estão imbricados de modo vital, seja em âmbito local ou internacional. Internamente, desenvolvimento e subdesenvolvimento alimentam-se um ao outro constantemente. O interno, contudo, não se explica sem o externo, sem a inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, e nesse campo, mais uma vez, está posto o enredo do subdesenvolvido e do desenvolvido, dado aqui em uma relação de interdependência desigual. Daí a trama constante que varia entre a modernização do arcaico e a arcaização do moderno. A dupla articulação, do interno e do externo, confirma a tendência do capitalismo dependente: o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Por quanto o capitalismo dependente se caracteriza pela reprodução em função dos países imperialistas, poder-se-ia dizer que existe, em realidade, um lumpendesenvolvimento (FRANK, 1970). Nesse sentido, a explicação mais abrangente que se encontrou para a configuração desse modo de vida particular está presente na Teoria da Dependência.
Com efeito, a necessidade de se aproximar, tanto quanto possível, das condições e consequências históricas da estrutura do capitalismo dependente nos países latino-americanos, exige uma reflexão mais aprofundada sobre a dependência mesma. Para isso, propomos estudar de forma mais demorada um aspecto desse debate, a saber o conceito de dependência, buscando responder qual é o caráter da dependência, isto é, o que é a dependência.
Nesse sentido, introduzindo uma reflexão mais geral, o caráter da dependência, em sua totalidade, deve ser apreendido em seu duplo aspecto ou, conforme Florestan Fernandes colocou, em sua dupla articulação . Isto é, a dependência como uma situação de condicionamento externo e como uma estrutura nacional que internaliza e reproduz a dependência de acordo com sua própria dinâmica interna, ainda que dentro daqueles limites impostos externamente. Com efeito, de acordo com Vânia Bambirra:
"Uma vez resolvidas as questões teóricas gerais, nas quais o conceito de dependência se apresenta com um novo rigor analítico, ainda que em um nível muito alto de abstração, é necessário tratar de definir a relação existente entre a situação de dependência e estrutura dependente" (BAMBIRRA, 2012, p. 39).
É no primeiro sentido, da situação de dependência, que Marini entende que as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas em função das necessidades dos países centrais. Nessa mesma linha, de acordo com Theotonio dos Santos, a dependência, enquanto condicionamento externo, é “uma situação na qual a economia de certos países é condicionada pelo desenvolvimento e pela expansão de outra economia à qual está subordinada” (2011, p. 5). Deste modo, o autor entende que uma “situação condicionante determina os limites e possibilidades de ação e comportamento dos homens”, isto é, “estabelece os limites possíveis de desenvolvimento destes países e de suas formas” (1978, p. 306, tradução nossa).
A contradição entre o âmbito externo e o âmbito interno, entre a situação de dependência e a estrutura que se define e redefine internamente, e toda sorte de consequências que se desencadeiam a partir daí, foi devidamente apreendida, em seu aspecto dialético, por Ruy Mauro Marini. Assim, a situação condicionante da dependência foi explicada partindo da transferência de valor dos países dependentes em direção aos centros hegemônicos do sistema capitalista (expropriação/apropriação), cuja a categoria de intercâmbio desigual é o principal mecanismo, mas não o único, determinando a inserção subordinada dos primeiros no comércio mundial e em função dos segundos. Em um segundo momento, aparece a superexploração da força de trabalho, categoria que expressa uma sobre-exploração sistematizada da força de trabalho no momento da produção. A superexploração da força de trabalho, por seu turno, é o resultado desse condicionamento externo (como se verá) ao mesmo tempo em que repõem, em seus próprios termos, a estrutura interna em sua dinâmica particular.
Em suma, diante dos problemas e perspectivas do capitalismo latino-americano na atual quadra histórica do século XXI, nos parece fundamental retomar a categoria da dependência, apresentando pontos não resolvidos e buscando iluminar os elementos que possibilitam a apreensão da realidade da região.