No campo do marxismo há uma polêmica quanto à definição do conceito de classes sociais em Marx. Em parte o debate está associado à ausência nas obras do autor de uma elaboração mais concisa e explicita a respeito do conceito de classes, e mesmo quando o autor parecia pretender apresentar mais indicações teóricas a respeito do problema em sua principal obra, acabou por deixar o capítulo voltado para As Classes com a redação inconclusa entre os rascunhos do Livro III de O Capital, publicados postumamente por Engels.
No plano dessas elaborações a respeito das classes foi que, aqueles que tentam seguir os passos teóricos e políticos de Marx, viram-se obrigados a analisar as classes sociais no século XX. Fizeram-no, contudo, sem um esforço anterior com vistas a definir as classes sociais, o que resultou em elaborações muito distintas a respeito do conceito de classes no interior da literatura marxista. Não obstante, tentando apresentar elementos definidores do que seriam as classes sociais para o marxismo como parte de um esforço intelectual e militante de fazer avançar a teoria marxista.
Nesse marco prolifera um rico debate no interior da literatura marxista que se pauta por visões distintas quanto às relações entre estrutura social e os sujeitos sociais. Para citar dois exemplos emblemáticos demarcamos posições que acabam por definir classes a partir de categorias elaboradas em O Capital que ofertam à ideia de classe uma primazia dos fatores econômicos, como no caso dos esforços teóricos concebidos por Althusser e Poulantzas (1997). Tais autores defendem que o proletariado deve ser definindo a partir do critério de trabalho produtivo entendido como indissociável da ideia de trabalho material. Essa forma de entender o proletariado nega tanto o trabalho assalariado como um conceito chave de interpretação das classes, como acaba por negar os trabalhadores intelectuais como parte do proletariado.
Uma posição oposta a essa forma de entender as classes está, por exemplo, em elaborações como as de Thompson, Wood (2011), Bensaíd (1999), que entendem as classes como um processo, como uma formação histórica e social na qual se imbricam fatores econômicos, sociais e históricos, gestando-as como uma síntese de diversos complexos sociais. Nesse plano, mesmo as categorias econômicas em Marx devem ser entendidas como categorias sociológicas e históricas. Portanto, negam a premissa de que as classes possam ser definidas diretamente por categorias que, supostamente, seriam puramente econômicas.
Nossa elaboração a respeito das classes, exposta nesse artigo, filia-se ao segundo campo, interpretando as classes sociais como uma síntese de múltiplas determinações, na qual os fatores econômicos se combinam com outros fatores. No marco desse campo, as questões giram em torno do modo como se ordenam os diversos fatores definidores dos sujeitos sociais, coerente, capaz de explicar o movimento pelo qual a base material da sociedade capitalista acaba por gerar um conjunto de relações sociais especificas que se desdobram em um processo histórico de formação das classes sociais. As questões, no que se referem às análises das classes elaboradas no interior desse segundo campo, estão nas diferentes compreensões a respeito do lugar e do papel dos diversos complexos sociais e os fatores subjetivos no processo de formação das classes, em particular, do proletariado. Deste modo, conforma ao debate um novo aspecto, demarca diferenciações a respeito da ordem e da prioridade ofertada aos fatores materiais, políticos, subjetivos e identitários no processo de formação das classes sociais.
A classe não é uma coisa, é uma relação social, assim como não é uma condição puramente econômica. De fato, sua base material e sua origem estão nas relações sociais de produção estruturantes da sociedade capitalista, contudo, não existe uma relação de determinação direta entre as posições ocupadas no processo produtivo e a existência das classes sociais. Entre os determinantes econômicos, ou relações sociais econômicas, existe um conjunto de outras relações sociais que mediam o processo de formação das classes. Em síntese, a classe é uma relação social gestada em um processo histórico no qual as relações sociais de produção se combinam com relações políticas, ou seja, a classe é sempre um fenômeno social, histórico e político.
Nesse plano, entendemos que critério material para definição do proletariado em Marx está nas relações sociais de produção, as quais são históricas, associadas ao modo particular de organização da vida. O modo capitalista se estrutura ante a contínua reprodução ampliada do capital, através do trabalho assalariado, como uma relação social de produção, forma particular pela qual se efetiva a exploração capitalista quando autoriza a extração do mais-valor.
Nesse marco, o trabalho assalariado, ao mesmo tempo em que determina as relações sociais de produção, demarca a forma de reprodução das condições sociais dos produtores diretos à medida que determina a forma de apropriação de parte da riqueza social por parte dos produtores diretos. Essa premissa material determina a vida dos trabalhadores para além da esfera produtiva, define as condições de sua reprodução geral, ou seja, suas condições de consumo, individual e coletiva, as quais entram em contradição com as condições de reprodução das classes dominantes.
No marco desses antagonismos econômicos e sociais encontramos as bases para a constituição de classe do proletariado, a qual é sempre um processo político à medida que demarca que as contradições das condições materiais de existência, que são produtos das relações sociais de produção, gestam e aprofundam os diversos conflitos sociais. Ao passo em que esses conflitos assumem formas coletivas, em diferentes estágios de organização e consciência, consuma-se a possibilidade de confronto e da luta de classes. Entender os diferentes processos pelo qual são efetivadas as relações de propriedade e exploração, e como estas conformam as condições de existência do proletariado, seus desdobramentos nas alternativas de organização e mobilização política sinaliza que o proletariado não é uma classe que surge pronta, mas, é uma relação social que comporta sempre um processo de formação, que é social e histórico.
Portanto, o objetivo desse artigo é apresentar o proletariado como uma relação social superando as posições que tendem a entendê-lo como uma abstração, com uma coisa finda, pronta e acabada. Expomos aqui as diversas mediações que são partes constituintes do proletariado como classe.