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Resumen de ponencia
PROTAGONISMO JUVENIL NO ENSINO MÉDIO POLITÉCNICO: PERSPECTIVA INTERCULTURAL DESCOLONIZADORA?

*João Alberto Steffen Munsberg



PROTAGONISMO JUVENIL NO ENSINO MÉDIO POLITÉCNICO: PERSPECTIVA INTERCULTURAL DESCOLONIZADORA?
Prolegômenos
Este trabalho se constitui num recorte de uma investigação que dá continuidade ao estudo realizado em nível de mestrado no PPGEdu UNILASALLE – Canoas – RS, cuja pesquisa analisou a implantação da proposta pedagógica do Ensino Médio Politécnico no Rio Grande do Sul, de 2011 a 2014, sob a perspectiva dos discentes (MUNSBERG, 2015). A pesquisa em curso tem como objetivo analisar a forma de contribuição do Ensino Médio Politécnico para o protagonismo juvenil na perspectiva da educação intercultural descolonizadora.
A escola é pensada como instituição formadora de sentido equívoco, pois tanto pode atuar de maneira conservadora e limitadora quanto libertadora, dependendo da práxis. De qualquer forma, a escola é um espaço de devir – vir a ser, tornar-se, converter-se, transformar-se em –, um espaço de estar sendo, em função do caráter dinâmico que encerra o processo educativo. É nesse espaço que atua o jovem como ator principal, assumindo centralidade, agindo decisivamente num processo e lutando por ideais.
Percurso metodológico
Os procedimentos para análise dos dados da pesquisa, em toda sua amplitude, são: a) análise documental, utilizando-se o documento-base Proposta Pedagógica para o Ensino Médio Politécnico e Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio (SEDUC-RS, 2011), o Regimento Padrão (REGIMENTO, 2012) e a obra Reestruturação do Ensino Médio: pressupostos teóricos e desafios da prática (AZEVEDO; REIS, 2013); b) análise do material coletado por meio do questionário, com utilização da Técnica de Análise de Temática proposta por Gibbs (2009); c) análise dos relatos (respostas à questão aberta) e dos documentos, com base na Análise Discursiva de Bakhtin (2003; 2014); e d) tratamento estatístico dos dados quantitativos, utilizando-se a estatística descritiva.
Para preservar a identidade dos respondentes na análise de resultados, adotou-se o processo de anonimização com utilização de localizador. Os sujeitos da pesquisa citados são designados por Estudante (E), com índices superior (CRE) e inferior (respondente) – ex.: E601, e Professor (P) e número (CRE) – ex.: P10.
Na Análise Discursiva Bakhtiniana (ADB), considera-se enunciado “[...] todo material linguístico proferido por um falante e emoldurado pelo material linguístico de outros falantes [...].” (VENEU, 2012, p. 111). Um enunciado compreende uma dimensão concreta, expressa em palavras, e uma dimensão presumida. Quatro instâncias foram definidas para a análise: instância regulatória, instância discente, instância docente e instância teórica. Neste texto, analisa-se a categoria temática protagonismo juvenil como código analítico, perpassando as quatro instâncias de dialogia dos enunciados.
Ancoragem teórica
Esse processo analítico assentado no dialogismo articula-se com os conceitos basilares relacionados às pedagogias decoloniais – práticas insurgentes de resistir, (re)existir e (re)viver – de Walsh (2013; 2017), especialmente no que diz respeito às interações humanas (experiências interculturais) observáveis na perspectiva da educação intercultural descolonizadora. Walsh fala em interculturalizar estruturas, instituições, relações e modos de pensar impregnados pela lógica racial, moderno-colonial-eurocentrada. Nesse sentido, a pesquisadora propõe trabalhar para a descolonização das mentes e a transformação das estruturas da colonialidade, isto é, trabalhar para a decolonialidade – movimento contínuo na busca da descolonização. Descolonizar é desapegar-se da lógica da colonialidade e abrir-se a teorias e metodologias outras. É o que se busca com esta investigação.
Análise e discussão preliminar dos resultados
Passa-se, agora, à análise do código protagonismo juvenil a partir de enunciados de cada uma das instâncias definidas: regulatória, discente, docente e teórica.
A instância regulatória corresponde à Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul – SEDUC-RS, utilizando-se a Proposta Pedagógica para o Ensino Médio Politécnico e Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio – 2011-2014 como fonte de enunciado(s). Essa proposta pedagógica constitui-se numa tentativa de sistematização da formação dos jovens, preparando-os para a intervenção transformadora na/da realidade. Trata-se, na visão dos idealizadores da proposta, de um outro fazer educativo.
A instância discente abarca enunciados extraídos de relatos de estudantes, os quais integram a resposta à questão aberta do questionário, acerca de uma situação de aprendizagem considerada significativa ou que fora considerada inaproveitável. O protagonismo juvenil, objeto em questão, é percebido especialmente no conjunto de práticas político-cidadãs. Sobre a temática, estudante E228 é enfática ao descrever um projeto bem-sucedido realizado em sua escola, destacando a participação efetiva dos estudantes.
FALA JUVENTUDE. Através deste projeto como o próprio nome diz os alunos tiveram voz e puderam interagir dentro da escola. Foi muito importante para mim, não só como aluna, organizar e participar ativamente um projeto tão enriquecedor de conhecimento. (E228).
O título em caixa alta expressa a percepção da estudante: organização, participação e interação. Fala – voz dos estudantes “dentro da escola”.
A análise dos relatos parece indicar que com maior participação dos estudantes no processo educativo os resultados seriam bem mais significativos, com menores índices de evasão e reprovação e melhor desempenho escolar.
A instância docente compreende enunciados retirados dos relatos de professores orientadores do Seminário Integrado, relatos esses constantes da questão aberta do questionário. O protagonismo dos estudantes também é ressaltado pelos docentes. De maneira geral, destacam ações e/ou atividades em que os estudantes têm a iniciativa, visando a transformação da realidade.
A instância teórica, por fim, compreende enunciados relativos ao código analítico educação intercultural descolonizadora. Conceitos e pressupostos teóricos de Catherine Walsh e Vera Maria Candau fundamentam a análise da educação intercultural descolonizadora. Corroborando o pensamento de Walsh, Candau (2016) defende a perspectiva da interculturalidade crítica como concepção de educação intercultural. Nessa perspectiva, a pesquisadora reforça a necessidade de as práticas educativas buscarem o aprofundamento “[...] no processo de interculturalizar a escola, o currículo e a sala de aula.” (CANDAU, 2016, p. 349, grifo da autora). Educação intercultural pressupõe superar o individualismo, os velhos discursos, as estruturas excludentes e as posturas discriminatórias em prol de um trabalho cooperativo, colaborativo, reflexivo e dialógico, possibilitando a convivência de realidades plurais, o questionamento de discursos hegemônicos, padronizações e binarismos, bem como a desconstrução, problematização e relativização de estruturas e práticas sociais. Daí que o currículo escolar precisa ser construído de forma a possibilitar “olhares outros”, notadamente com conteúdo, procedimentos, atitudes e relações que privilegiem o protagonismo do estudante no contexto e/ou espaço escolar.
Considerações preliminares
A análise realizada focou-se no código analítico protagonismo juvenil, buscando articulações entre enunciados das quatro instâncias definidas.
O estudo permite concluir, provisoriamente, que: a) o protagonismo juvenil é percebido em enunciados das quatro instâncias; b) há inter-relação entre protagonismo juvenil e educação intercultural descolonizadora via atuação para transformação da realidade; e c) a proposta pedagógica do Ensino Médio Politécnico se enquadra na perspectiva da educação intercultural descolonizadora.
Em que pese tais constatações, alguns questionamentos persistem e requerem o aprofundamento da/na investigação: como, na prática, descolonizar? Como interculturalizar?
Esses questionamentos integram o rol de desafios presentes na investigação em curso, cujas respostas estão muito além desta incipiente e preliminar análise.
Referências
AZEVEDO, Jose Clovis; REIS, Jonas Tarcísio (Orgs.). Reestruturação do ensino médio: pressupostos teóricos e desafios da prática. São Paulo: Fundação Santillana, 2013.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
______. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 16. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.
CANDAU, Vera Maria (Org.). Interculturalizar, descolonizar, democratizar: uma educação “outra”? 1. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016.
GIBBS, Graham. Análise de dados qualitativos. Porto Alegre: Artmed, 2009.
MUNSBERG, João Alberto Steffen. O ensino médio politécnico frente às demandas e perspectivas discentes. 2015. 193 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro Universitário La Salle, Canoas, 2015.
REGIMENTO Padrão Ensino Médio Politécnico. Porto Alegre: SEDUC-RS, 2012.
SEDUC-RS. Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul. Departamento Pedagógico – DP. Proposta Pedagógica para o Ensino Médio Politécnico e Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio – 2011-2014. Porto Alegre: Seduc-RS, 2011.
VENEU, Aroaldo Azevedo. Perspectivas de professores de física do ensino médio sobre as relações entre o ensino de física e o mercado de trabalho: uma análise bakhtiniana. 2012. 218 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
WALSH, Catherine. (Ed.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir. Tomo I. Quito: Abya Yala, 2013.
______. (Ed.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir. Tomo II. Quito: Abya Yala, 2017.




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* Steffen Munsberg
UNIVERSIDADE LA SALLE UNILASALLE. CANOAS - RS, Brasil