Buscando articular programas, projetos e serviços voltados à atenção a crianças e adolescentes em Chapecó-SC, criou-se em 2006 a Rede de Atendimento à Infância e Adolescência – RAIA. Ela configura-se como uma iniciativa do Ministério Público de Santa Catarina – Comarca de Chapecó em articulação com a Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó e do Executivo Municipal por meio das políticas de Assistência Social, Educação e Saúde, e visa a promoção de ações que facilitem o desenvolvimento saudável, potencializando capacidades afetivas, cognitivas e sociais.A Unochapecóintegra a RAIA através de projeto de extensão dirigido à educação permanente junto aos serviços, equipes, e ao público infantojuvenil e familiares.
O trabalho em rede pressupõe mobilização coletiva e atenção ao território, visando a horizontalidade entre os serviços e as práticas de atenção à infância e adolescência. O objetivo do projeto está em caracterizar a experiência da equipe integrante da Rede, compreendendo a configuração atual e contribuindo com seus avanços e desafios na consolidação de práticas intersetoriais. O projeto de extensão é orientado pela interdisciplinaridade e pelo movimento dialógico entre acadêmicos bolsistas, profissionais da Rede e comunidade envolvida. A proposta é amparada na epistemologia da complexidade, visando constituir um plano comum capaz de criar, entre distintos atores, zonas de pertinência e transversalidades, promovendo olhares e práticas que põem em cheque fundamentos da formação especialista. Investe-se na consolidação de espaços e experiências pautadas pelo diálogo intersetorial, formação continuada,matriciamento, estudos de caso e visitas ao território.
Ainda desenvolvem-se articuladamente projetos de iniciação científica que permitem a aproximação entre o espaço acadêmico e os serviços, mobilizando olhares que instigam reflexões sobre ações e estratégias para a ampliação do acesso aos direitos. Em 2017 foram desenvolvidos três projetos de pesquisa, sendo eles: Incidência de violência doméstica e familiar nos territórios assistidos pela Rede de Atendimento à Infância e Adolescência (RAIA) de Chapecó-SC – análise de suas correlações às problemáticas atendidas e estratégias de atuação das políticas públicas; Contribuições das Políticas Públicas para a Superação de Situações Estressoras Vivenciadas por Adolescentes em Cumprimento de Medida Socioeducativas; e Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Interdisciplinar em Saúde Coletiva – desenvolvimento metodológico evalidação de terapêutica mediada pela atividade criadora. Estes projetos objetivam compreender demandas, estratégias dos serviços de saúde, assistência social e educação e correlações entre problemáticas ligadas à infância/adolescência e violência familiar.
A articulação entre a prática de pesquisa e extensão universitáriano suporte ao trabalho em rede das políticas públicas proporciona a dissolução de temáticas emaranhadas dentro da complexidade dos serviços de acolhimento e atendimento, e torna possível um olhar de atenção e maior cuidado àquilo que ainda encontra-se fragilizado. Isso possibilitaum repensar constantedo trabalho desenvolvido pelos integrantes da Rede e também a ruptura de fronteiras entre os diversos serviços, buscando o auxílio mútuo às problemáticas vigentes. Desta forma,a experiência cria espaços de auto-observação, auto-avaliação e análise das implicações, potencial para (re)construir fluxos de trabalho a partir de vínculos significativos, da corresponsabilidade tanto entre equipes de cada serviço quanto entre os serviços, e destes, com o território e usuários. A presença de olhares ancorados em diferentes profissões explicita a complexidade dos problemas, a necessidade da complementaridade das ações e incentiva planejamento e atendimento em função das necessidades. Os espaços de discussões inseridos no cotidiano do trabalho fizeram-se eixo central desta experiência, provocando a percepção de concepções reducionistas e a necessidade da compreensão da complexidade dos fenômenos e das intervenções.
Destaca-se o movimento híbrido que perpassa o contexto da RAIA, capaz de tensionarencontros heterogêneos, mas não hierárquicos, entre campos e processos políticos construídos pela própria Rede em articulação com a comunidade. Os avanços tornam-se possíveis através do rompimento de fronteiras estigmatizantes e da atuação dos serviços articulados com a criação de estratégias de intervenção alternativas, inusitadas e criativas.Assim, os profissionais realizam movimentos de singularização, aproximação interprofissional,reconhecimento dos trabalhadores e dos papéis na rede, além de ampliar e fazer circular olhares e formas de cuidado dirigidos aos sujeitos em vulnerabilidade.A atuação das políticas públicas, nesse contexto, torna-se potência para (re)significação dos modos deser e existir.No entanto, há também pontos de estrangulamentos e ineficiência de protocolos e fluxos. Com a identificação destas dificuldades, a perspectiva dialógica de trabalho permite ainda a reformulação constante de práticas, sendo a própria Rede, dispositivo de qualificação das ações e de invenção das estratégias de trabalho interdisciplinar. Nessa perspectiva, a Rede problematiza a fragmentação e o reducionismo, demanda a sustentação permanente de dispositivos de diálogo e estudo, exigindo mudanças na rotina dos serviços e compreensão por parte dos gestores. O investimento na avaliação das ações da RAIA e a construção de indicadores que justifiquem a adoção da perspectiva interdisciplinar, também torna-se um imperativo.
No ano de 2017foi possível identificar comoavanços o fortalecimento da Rede na identificação de situações problemáticas; maior articulaçãoe aproximação dos atores envolvidos para refletir, discutir e construir ações condutoras de mudanças para melhoramento dos serviços; promoção de encontros de trocas com os sujeitos da comunidade visando possibilitar a ampliação do olhar para a realidade social; além doreconhecimento por parte dos trabalhadores acerca da importância de seu trabalho na efetivação da rede. A aprovação do projeto de extensão universitária RAIA da Unochapecó pode ter contribuído para estes avanços, especialmente na Região do bairro Efapi. Este projeto possibilita a participação ativa de professores e acadêmicos bolsistas e voluntários na dinâmica do trabalho das políticas públicas, oferecendo suporte e promovendo discussões que contribuem com o amadurecimento e fortalecimento da Rede.
A organização da Rede possibilita diálogo qualificado entre profissionais e tem problematizado a fragmentação, a duplicação de esforços das especialidades, instigando a promoção de novas leituras da realidade e de processos de autogestão nas regionais onde a Rede tem se organizado. Portanto, a atenção em rede é uma construção constante, que necessita avançar na efetivação das políticas públicas como espaços de ampliação à cidadania, à igualdade e à inclusão, capazes de criar e construir estratégias potencializadoras de enfrentamento das situações de violação de direitos e sofrimentos de crianças, adolescentes e suas famílias.