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Resumen de ponencia
Reconstruir o tempo, refazer sujeitos: tempo e subjetivação em Comunidades Terapêuticas

*Matheus Caracho Nunes



O presente artigo visa discutir o papel da administração do tempo como técnica disciplinar utilizada pelas CTs, em seu projeto de promover transformações subjetivas naqueles que se submetem a sua metodologia de tratamento contra o uso problemático de drogas. Os elementos empíricos que nos provocaram esta reflexão emergiram dos trabalhos etnográficos realizado pelo autor em algumas CTs brasileiras, assim como do survey da pesquisa Perfil das Comunidades Terapêuticas brasileiras, coordenada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2017).
Por força desta pesquisa, realizei trabalho de campo intensivo em duas Comunidades Terapêuticas localizadas em diferentes regiões do Brasil. Nelas permaneci hospedado por períodos de 15 a 17 dias, participando do cotidiano dos residentes, acompanhando suas rotinas e realizando entrevistas e conversas informais com os diversos atores vinculados às instituições pesquisadas: residentes, terapeutas, monitores e dirigentes .
A partir de vivência intensiva nestes espaços, e a despeito das particularidades encontradas em cada um deles, observou-se que, para além das formas discursivas e reflexivas pelas quais as CTs, de modo geral, procuram convencer e motivar seus internos a “mudarem de vida” – começando por abandonarem o hábito de consumir drogas – elas também adotam algumas estratégias e dinâmicas muito práticas, no decurso da internação, que operam no sentido de estimular o engajamento dos internos neste projeto. Entre elas destacamos a gestão do tempo dos internos, que se dá tanto no plano prático, das atividades cotidianas, quanto no plano simbólico, das representações sobre o tempo.
Pode-se dizer que, de modo geral, a metodologia das CTs, baseada no tripé disciplina-trabalho-espiritualidade, busca promover mudanças de comportamento e de atitudes nos sujeitos que se submetem a seu modelo de tratamento – mudanças que pretensamente iriam mais além do que sua mera relação com as drogas.
Neste projeto, a gestão do tempo se inscreve como estratégia disciplinar implementada por três vias:
1) pela organização do tratamento em fases sucessivas, as quais os internos ultrapassam, não só por força do número de meses, semanas ou dias em que permanecem na CT, mas também pelo cumprimento de metas estabelecidas pela Comunidade; pela observação de regras de convivência; e pela adesão a determinados valores – como a abstinência, a família o trabalho e o temor a deus;
2) pela imposição de uma rotina, em que um conjunto de atividades diárias devem ser cumpridas compulsoriamente, segundo um cronograma pré-estabelecido. Tais atividades podem variar segundo os dias da semana, ou ao longo do período de permanência nas CTs, mas todos os internos são convocados a participar delas, havendo previsão de penalidades para aqueles que, sem autorização da equipe dirigente, se recusarem a fazê-lo;
3) pela ressignificação do passado, processo que consiste em levar os residentes a reinterpretarem suas atitudes da época da ativa , à luz da moralidade promovida pela CT. Isto é feito tanto através de exercícios reflexivos orais em grupo (reuniões de partilha, ou de sentimentos ), quanto por meio da escrita de textos pelos residentes, em que estes revisam sua vida pregressa no intuito de reconhecerem os prejuízos que provocaram a si mesmos e a seus entes queridos, por causa de seu hábito de consumir drogas.
Não é nosso objetivo aqui discutir ou avaliar a eficácia desta estratégia, para a finalidade de forjar sujeitos definitivamente abstinentes. Até porque, de acordo com os dados coletados no survey da pesquisa realizada pelo IPEA (2017), apenas cerca de 30% daqueles que ingressam numa instituição brasileira deste tipo chegam ao final do percurso terapêutico estabelecido. Conforme já havia sido antes apontado por Rui (2010), pudemos constatar em campo que a travessia de um sujeito em tratamento numa Comunidade Terapêutica encerra muitas nuances e tensões cotidianas, em função das quais o engajamento dos residentes no projeto terapêutico – e consequentemente, seu compromisso com a “cura” - acaba por ser bastante inconstante.
O propósito deste texto é, antes, realizar uma análise da tecnologia de gestão do tempo empregada pelas CTs, com o fim de elucidar aspectos de sua metodologia de cuidado, bem como de entender o seu papel enquanto instituições voltadas ao disciplinamento de corpos e mentes daqueles que, por meio do uso intensivo de drogas, parecem resistir obstinadamente à normalização.
Para apresentar esta análise, o presente artigo está divido em 6 (seis) seções, além desta introdução. Na primeira, apresentaremos, em linhas gerais, o objetivo de transformação subjetiva que norteia a metodologia das CTs, além de uma revisão da literatura que nos guia na interpretação do fenômeno abordado. A partir da segunda seção, utilizamos nossos registros etnográficos e dados quantitativos da pesquisa coordenada pelo IPEA (op. cit. 2017) para destacar os elementos que consideramos chaves para a estratégia de gestão do tempo das CTs: a organização do programa terapêutico em fases (seção 3); o estabelecimento de rotinas, com horários definidos para cada atividade (seção 4); e a releitura e ressignificação do passado, a partir dos critérios morais difundidos pelas CTs (seção 5). O texto termina com algumas reflexões finais.




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* Caracho Nunes
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Pós-Graduação de Filosofia e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Campinas-SP, Brasil