O presente trabalho partiu da disciplina optativa do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial Sustentável da Universidade Federal do Paraná (UFPR) - Setor Litoral, da linha Socioeconomia e Saberes Locais, ministrada pela professora Drª Marcia Regina Ferreira. Em sala de aula, após debates aprofundados sobre outras racionalidades (além da instrumental) e formas de desenvolvimento (para além do modelo eurocêntrico), trabalhou-se com a verificação de exemplos de organizações na América Latina e ações que demonstrassem casos de envolvimento comunitário e desenvolvimento endógeno, formulada pelos sujeitos do lugar.
Tem como objetivo geral, a compreensão da abordagem decolonial como alternativa de conhecimento epistemológico, ontológico e prático no contexto da sociedade global, para isso apresenta-se o caso de desenvolvimento comunitário da localidade de Campo Limpo/SP a partir da União Popular de Mulheres (UPM). Procurou-se utilizar como arcabouço teórico Madonado-Torres (2003), Ballestrin (2003, 2013), Bragato (2003), Lisboa (2004), Dussel (2005), Gutierrez (2005) Fals-Borda (2008). A metodologia está delineada a partir de uma análise qualitativa exploratória, a partir de estudo de caso de Yin (2001). Como procedimento metodológico utilizou-se de bibliografia e relatos da experiência a partir de dados secundários. O trabalho está organizado em três partes. Inicialmente, se expõe a trajetória do conceito de decolonialidade, envolvimento e desenvolvimento comunitário como abordagem epistemológica que rompe com o discurso da colonialidade do poder, do saber e do ser. Trabalha-se com os conceitos colonialidade, economia social e economia solidária, envolvimento e desenvolvimento comunitário, pluriverso e resistência. Em sequência, apresenta-se o estudo de caso da União Popular de Mulheres do Campo Limpo e Adjacências, com o histórico da ocupação do território e ações comunitárias. Por fim, entre as ações propostas por este coletivo, está o Banco União Sampaio e a Agência Popular Solano Trindade, enquanto iniciativas de economia solidária, que suscitam a relevância de reconhecer e valorizar outras racionalidades econômicas sociais.
As formas de resistência que os seres humanos, motivados por interesses comuns, de ser e existir no mundo com dignidade, o que inclui moradia, saneamento, educação, saúde, alimentação, cultura, dentre tantos outros direitos fundamentais para uma vida com qualidade, se envolvem para pensar alternativas de desenvolvimento a partir de seus saberes, de seus territórios. As racionalidades que sobressaíram na História Mundial entenderam a Europa como centro do mundo e as outras culturas como sua periferia (Dussel, 2005), julgando alguns países como subalternos e inferiores, desprovidos de conhecimento. Em contrapartida a isto, negando este subjulgamento colonial, com intuito de enxergar o mundo por meio da “lupa” decolonial, traremos um exemplo, dentre os vários possíveis dos povos do sul, da União Popular de Mulheres do bairro de Campo Limpo, Estado de São Paulo, como potencial organizativo a partir de quem vive no lugar e que percebe o território como pluriversos, ou seja, mundos conectados e atuando e se desenvolvendo dinamicamente (ESCOBAR, 2014, p. 107), espaços de união, de envolvimentos, considerando a ausência estatal como agente externo que fomentou a iniciativa da comunidade e os atores locais como propositores de ações voltadas para uma melhor qualidade de vida.
O grupo União Popular de Mulheres do Campo Limpo e Adjacências (UPM) é um caso desse reinventar comunitário. O grupo se autodenomina enquanto uma iniciativa de economia solidária e a economia solidária envolve primordialmente as instâncias política, social e econômica. Nesse caso, a ocupação do distrito do Campo Limpo, localizado na zona sul do município de São Paulo – SP, se intensifica a partir do século XX e foi marcada pela presença de imigrantes e de pessoas provenientes do interior de São Paulo e migrantes nordestinos e do sul do país. Através do Censo de 2010, foram diagnosticados mais de 490 mil habitantes entre Campo Limpo e Capão Redondo, a área de atuação da UPM. A organização comunitária, se inicia com a reivindicação de mães por creche para seus filhos, seguida de um clube de mães, a partir de 1971, com objetivos que iam além do cuidado com as crianças. As atividades vão tomando forma e a Associação Popular de Mulheres do Campo Limpo e Adjacências, é fundada em 1987. Ela tem como missão “lutar pela completa emancipação da mulher e pela igualdade nas relações sociais, mobilizar, unir e organizar seus associados(as) para a luta e consequentemente conquista a plenitude de seus direitos sociais, econômicos, políticos, ambientais, e culturais e etc” (UPM, 2016, p. 2). O leque de atividades desenvolvidas pela organização “a UPM agrupa atividades para os idosos, mulheres, jovens e crianças, a partir de parcerias com outras entidades, como Unidades Básicas de Saúde (UBS), escolas e a própria comunidade” (RAIMUNDO, 2014, p.128), através de convênios com o governo do Estado e do município e que existe contrariedade em relação a parcerias com a iniciativa privada.
A UPM, enquanto coletivo fomentou, com a parceria da rede de bancos comunitários, incubadora da USP e outros movimentos, um banco comunitário que a atende a região de Campo Limpo e Adjacências: o Banco União Sampaio. Um banco comunitário nasce para atender demandas de serviços financeiros de uma comunidade ou região, com o diferencial que é organizado, gerido e pensado pela comunidade local, com apoio de parceiros. Além do fomento dos empreendimentos locais, há maior circulação econômica territorializada, acessibilidades de serviços para pessoas que, por vezes, teriam restrições ou não se encaixariam nos critérios auxílio dos bancos comuns.
Para além da racionalidade hegemônica tecno-científica-economicista, outras formas de viver, pensar e agir são construídas pelas pessoas. Dessa diversidade de pensar e agir florescem outras economias possíveis, suleadas por outros fios condutores, como: a reciprocidade nas relações sociais, o uso de recursos locais disponíveis, a manutenção cultural local, a cooperação, a solidariedade, etc. Todavia, por vezes há subjugação do que é subversivo a lógica moderna.
Com base nesses aspectos, o Banco União Sampaio foi criado em 2009 com intenção de atender os moradores do território nas demandas financeiras de comércio, consumo e produção. É um “projeto social sem fins lucrativos, que presta serviços financeiros e bancários em um sistema integrado de crédito, produção, comércio e consumo com a participação da comunidade” (BC UNIÃO SAMPAIO, 2017). Possui moeda própria: o Sampaio (o qual possui lastro). A cada dia aumentam o número de empreendimentos do Campo Limpo que aceitam o Sampaio. O incentivo à moeda se dá por benefícios para os usuários, o que acaba por fazer a economia girar localmente, estimular o envolvimento e engajamento comunitário, bem como o desenvolvimento territorial. O Banco União Sampaio é reconhecido enquanto uma tecnologia social. E tem sido cada vez mais apropriado pelos moradores do Campo Limpo. Com tal envolvimento comunitário, o banco tem ampliado seus serviços, e também, fomentado novas iniciativas.
A Agência Solano Trindade é um exemplo disso, pois, a comunidade percebendo uma nova demanda, resolveu iniciar uma nova frente econômica-cultural. A agência também possui moeda social, o Solano. Com a finalidade de financiar e apoiar iniciativas culturais da comunidade de Campo Limpo e Adjacências. A força cultural e política e os anseios dos jovens da comunidade foi cada vez mais notada, a Agência Solano Trindade foi um retorno a esse anseio coletivo, visto que a “construção de sujeitos políticos é também a construção de uma contra-hegemonia, de uma cultura” (LISBOA, 2004, p. 12).
Como considerações finais, acreditamos que pesquisas na perspectiva decolonial fovorecem o da complexidade/interdisciplinariedade no fazer científico. Conectando dimensões política, social, ambiental, afetiva, espiritual, holística possibilitando o encontro entre o sentir e o pensar com a terra.
Considera-se relevante também, o fomento de bancos comunitários no Brasil. O aumento significativo dos mesmos já tem sido percebido desde o surgimento da Rede Brasileira de Bancos Comunitários. A proposta requer ampliação no que se refere a desenvolvimento local e envolvimento comunitários.
Por fim, é pertinente evidenciar as atitudes e ações advindas da UPM, como o Banco União Sampaio, a moeda social, saraus, espaços democráticos de participação política, busca por direitos, demonstrando ação política e emancipação social, redefinindo a história de comunidades empobrecidas e/ou marginalizadas, pelos próprios atores locais.