Resumen de ponencia
A Comunicação, as desigualdades e as Epistemologias do Sul: uma articulação possível, necessária e urgente.
*Inesita Soares De Araujo
Por razões de formação histórica, mas também por se constituir em objeto de disputas epistemológicas, a Comunicação apresenta uma forte dimensão instrumental, que a invisibiliza como processo social, como relação de poder, como lugar de produção dos sentidos sociais, portanto de constituição de realidades e como direito. Esta característica, bastante naturalizada, torna-se mais visível e mais atuante como organizadora de discursos e práticas em campos de interface vinculados às políticas públicas, como é o caso da Comunicação e Saúde. Como decorrência, a comunicação não é levada em consideração como vetor de desigualdades em saúde: nenhuma das instâncias que observam, estudam e agem sobre essas desigualdades inclui a comunicação (nem mesmo a informação) no seu escopo de fatores determinantes, indicadores ou qualquer outro aparato analítico. No entanto, o acesso à comunicação e mais, o reconhecimento ao direito à comunicação, assim como a natureza da comunicação praticada são elementos fundamentais na produção das desigualdades sociais e políticas, no caso as muitas desigualdades/iniquidades em saúde ou, no contraponto, mediação para uma situação de mais equidade.
Com estas questões como ponto de partida, fiz um movimento no sentido de desenvolver indicadores que relacionassem comunicação à desigualdade, considerando que os sistemas de saúde só trabalham com indicadores, portanto seria a melhor forma de buscar reconhecimento para a comunicação. Como parte movimento, cumpri um estágio doutoral no Centro de Estudos Sociais em Coimbra, sob a supervisão do prof. Boaventura de Souza Santos, com a intenção de aprofundar a compreensão das desigualdades pelas lentes das Epistemologias do Sul. O resultado foi bem mais além do esperado e possibilitou desnaturalizar ideias e práticas, além de promover uma conversa frutífera com os autores com que eu já trabalhava, que estavam na base de um modelo de comunicação para políticas públicas proposto em meu doutorado, que considera a comunicação um processo de disputa pelos sentidos do mundo, mas um mundo desigual, inclusive na possibilidade de participar dessa disputa. No pós-doutoramento, foi possível elaborar um método de reconhecimento de cenários e evidências no trabalho com populações negligenciadas que leva em conta o conceito de tradução intercultural de Santos, associada à ideia de escuta profunda, ideias que perpassam boa parte de sua obra. A tradução intercultural veio em socorro da pergunta metodológica básica que surge quando consideramos uma sociologia das ausências e das emergências: como lidar com a pluralidade de experiências que a sociologia das emergências faz perceber e com a diversidade de saberes que a sociologia das ausências visibiliza, quando se busca denominadores comuns? Esse método está sendo posto em prática através de teses de doutoramento que oriento, com diferentes temas e sujeitos, além de estar consolidado em um projeto de pesquisa que aguarda financiamento. São seus principais elementos articulados, além de sua fundamentação epistemológica e teórica que desejo apresentar ao debate na 8ª Conferência Latino-americana e Caribenha das Ciências Sociais.
Uma das teses, a ser defendida em junho, usa o método fílmico como tradução intercultural entre ciganos do Brasil e de Portugal, possibilitando um processo de intercâmbio de percepções e pontos de vista sobre as políticas de saúde para minorias. A outra, buscando compreender a produção dos sentidos sobre a miséria / extrema pobreza, usa a fotografia como forma de intercâmbio de percepções sobre a pobreza entre pessoas em situação de rua e moradores de periferias pobres urbanas, em diferentes cidades, como possibilita o debate entre as pessoas do mesmo grupo participante. Uma terceira, já defendida, parte da escuta profunda com pessoas com diagnóstico de esquizofrenia, para compreender as linhas abissais que produzem sua inexistência social e sua invisibilização como seres comunicacionais.
Essas experiências de aplicação metodológica fazem uma avaliação da viabilidade do método, ao mesmo tempo em que o enriquecem. O que gostaria de trazer à conferência da Clacso, para debate, é um pouco desse movimento e dessas questões.