Resumo
O trabalho analisa como a articulação da crítica feminista à ciência e aos estudos críticos da colonialidade influenciaram a constituição do Núcleo de Investigações e Intervenções em Tecnologias Sociais/NINETS, organizado no âmbito do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual da Paraíba/UEPB, Nordeste do Brasil. Enfatiza ainda como as provocações foram acionadas para pensar o lugar destinado a categorias como tecnologia, raça, espécie, sexualidade e gênero na conformação das práticas científicas colonialistas e como as reflexões embasaram o delineamento das estratégias do Núcleo.
Introdução
Em larga medida, a narrativa histórica sobre o feminismo brasileiro desconsidera dinâmicas geopolíticas e a particularidade de regiões e locais nas quais persistem firmes alianças entre grupos tidos como “acadêmicos” e ativismos articulados em torno de agendas feministas, anti-racistas e das dissidências de gênero e sexuais, formando coalizões para salvaguardar e fortalecer agendas. Como diretórios de pesquisa, costumam negociar com coletivos locais temas articuladores de atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Nesse contexto se constitui o NINETS, da experiência acumulada por suas/seus integrantes em desenvolver, de maneira simultânea e articulada, ações de investigação, intervenções sociais e produção textual em parceria com grupos afetados por discriminações associadas à raça, gênero, sexualidade e outros marcadores, enfatizando como incidem na organização de dinâmicas sociais do território em que se encontra a UEPB.
A interlocução aí estabelecida respalda a negociação de linhas de pesquisa e componentes curriculares na graduação e pós-graduação em diversas áreas e, por sua vez, associam-se a ações de intervenção mediante projetos de extensão dos quais advêm temas e problemas para novas pesquisas. As atividades são sistematizadas na produção de artigos que analisam e problematizam a experiência acumulada.
A formatação adquirida acolhe as provocações aportadas pelo encontro da crítica feminista - especialmente aquela formulada por lésbicas, negras e “de cor” - com a crítica à colonialidade, notadamente aquela gestada nas interações com o Grupo Sul Asiático e, no âmbito da America Latina, pelo Grupo Modernidade/Colinialidade, articulado desde 1998.
As inflexões provocadas por esses encontros são profundas, posicionando em definitivo raça, sexo, gênero e espécie como categorias organizadoras da desigualdade social em escala global e local. De campos e áreas distintas, autores como Walter Mignolo (2007), associam sua insurgência à emergência de paradigmas marcados pela participação e colaboração entre pesquisadore/as e, destes/as, com interlocutore/as. Também observam que advêm de todos os campos, provocando alianças em torno de projetos epistemológicos, linhas e campos teóricos que surgem da recusa em se tornar fonte adicional ou complementar para matrizes teóricas institucionalizadas. Resguardando diferenças associadas aos seus contextos de enunciação, caracterizam-se pela centralidade conferida à dimensão epistemológica nas análises que enfatizam as imbricações entre saber e poder, como produtora de nós que enredam o controle, por meio da produção reiterada de técnicas de captura associadas à produção de discursos sobre a diferença. Por considerar que o exercício de marcar os corpos como “diferentes” está atrelado a relações com a ciência e tecnologia, também enfatizam a prioridade estratégica do conhecimento científico-tecnológico na rearticulação política das forças político-sociais.
Do campo feminista, Donna Haraway (2009) ressalta a urgência de uma política dirigida para a ciência e a tecnologia, chamando atenção para a função estratégica de noções como “humano”, “natureza” e “técnica”. Para ela, deter a tecnologia que permite transformar e dominar a natureza constitui a base de um processo de “humanização” que se efetiva por meio de categorizações especistas, racializantes e sexualizantes presentes nos processos de subjetivação que controlam desde a relação que estabelecemos com nossos sentidos corporais até a localização, fluxo e movência dos corpos em escala local e global.
Do diálogo com as provocações aportadas resultou a opção pelas Tecnologias Sociais como mote articulador do NINETS. Por tecnologia entendemos as práticas racionalizadoras das relações de poder colocadas em funcionamento por meio de procedimentos técnicos. Através de uma regularidade de estratégias e táticas agem sobre os indivíduos constituindo rocessos de subjetivação por meio dos quais se efetuam a captura dos sentidos. Referem-se tanto aos processos por meio dos quais se efetivam como aos “produtos” e artefatos que lhes são associados.
Considerações
A crítica decolonial nos permite apreender os efeitos da colonialidade sobre a extinção ou apropriação de tecnologias articuladas em outras ordens epistemológicas e também sua importância estratégica para efetuar deslocamentos nos processos de controle. Outra chave oferecida está na percepção de que a apropriação enviesada por abordagens localizadas em epistemes colonialistas empobreceu potencialidades de tecnologias inspiradas em ordens epistemológicas que resistiram à homogeneização colonialista, sendo necessário reexaminá-las quanto as possibilidades táticas para enfrentar contextos de racialização e sexualização. O NINETS se propõe a impulsionar a reflexão sobre a localização dos aparatos tecnológicos nas estratégias delineadas por sistemas de controle e dominação, como, por exemplo, a localização dos corpos subalternizados/as pela história em relação à tecnologia, as imbricações entre o domínio tecnológico e construção do sujeito nas epistemologias colonialistas e na perpetração dos processos de colonialidade.
As criticas são de grande valia para a experiência brasileira. Nossas políticas de produção e acesso a tecnologia se deram no esteio do evolucionismo de base eugenista que orientou a organização do Estado Nacional e do sistema de atendimento de demandas sociais. Assim, o termo “tecnologia” também tem seu lugar na formação das dinâmicas internas da nossa própria colonialidade.
Como nos mostra Renato Dagnino (2009) mesmo com a crítica à base evolucionista, à vinculação aos interesses que emergiram no Pós-Guerra e à própria idéia de “oferta” e “transferência” pela comunidade de pesquisa, as experiências implementadas a partir da década de 1960 sob a denominação de Tecnologias Alternativas/TA acabaram fracassando por falta de envolvimento na gestão.
A ênfase no local marcou a eufórica retórica descentralizatória e participacionista inaugurada com a Constituinte de 1988, atuando como base para o redirecionamento das estratégias em torno de uma nova denominação, de TA para Tecnologia Social/TS. A partir de 2004 enfatizou-se a necessidade de investimento na construção de uma base teórica para as TS no Brasil. Uma frente apostou na aliança com setores produtivos, através de cooperativas e fábricas recuperadas; Estado, através das políticas de Ciência e Tecnologia; universidades, através de institutos de pesquisa, professore/as, aluno/as e técnico/as e incubadoras de cooperativas populares. A segunda frente defendeu o investimento na produção de conhecimento acerca das relações ciência e tecnologia, num marco analítico-conceitual para abordar a TS articulada a políticas de desenvolvimento técnico-científico.
Em linhas gerais, a maneira como se tomou a esfera “econômica” empobreceu a potencialidade e alcance crítico das iniciativas adotadas como inspiração, desconsiderado, por exemplo, o fato de serem mobilizadas como reação a processos intensos de racialização e sexualização. Além disso, a tentativa de criar uma pauta no âmbito das instituições governamentais demonstrou e que a padronização e universalização de modelos não funciona, pois as maneiras como diferentes grupos interpretam e utilizam uma técnica ou artefato não lhes são extrínsecas, devem ser compreendidas face as relações de forças e interesses entre indivíduos e grupos envolvidos na sua produção.
Se tomadas sob análise das provocações feministas e decoloniais, as TS apontam para a possibilidade de serem reapropriadas para enfrentar processos de racialização e sexualização, desde a resolução de demandas imediatas - relacionadas à alimentação, educação, habitação, trabalho, renda, saúde, água potável, dentre outras - até vantagens de caráter duradouro e contínuo, especialmente no que se refere à produção de sujeitos.
Na TS, artefatos são produzidos mediante exercícios sistemáticos que adensam a reflexividade, o desenvolvimento de habilidades para organizar e sistematizar conhecimentos e identificar de maneira estratégica parcerias e alianças. Além disso, sua eficácia está condicionada à condição de que seja replicada e recriada com sucesso. São também vincadas por um profundo comprometimento com o local, com seu processo de funcionamento e a manutenção de seus ciclos de renovação.
A avaliação das experiências também revela a dificuldade de iniciativas populares em dominar os complexos mecanismos de gestão de experiências, bem como a dificuldade de profissionais em interagir com os grupos que apresentam demandas. Com a experiência do NINETS asseguramos que os aportes teóricos que lançamos mão são excelentes para viablizar essa interlocução.
Por último, destacamos a importância das reflexões para a construção de bases autônomas para uma agenda própria da ciência e tecnologia articulada ao ambiente científico latino-americano e a efetivação da articulação entre ensino, pesquisa, extensão e produção tecnológica como locus para a universidade pública brasileira atualizar seu significado perante os cenários contemporâneos.