As cerimônias de abertura ou encerramento de programas de alfabetização de adultos constituem rituais profanos da escolarização com a função de ponto de ancoragem do governo sobre os sujeitos escolarizados ou em processo de escolarização, pois podem assegurar um estatuto no qual a alfabetização é investida como ação de cidadania, mudança, emancipação, possibilidade de evolução dos indivíduos e desenvolvimento social nas sociedades contemporâneas.Tal função pode ser entendida quando analisada como uma ação performática no sentido dado por Stanley Tambiah (1995), com seus enunciados conotativos em sua força de citacionalidade, ou seja, com a força dos enunciados. No contexto da educação, fazem parte de uma cosmologia que confere a esses atos, em âmbito singular da alfabetização de adultos, os valores da educação como processo de humanização e de cidadania, tal como estão proclamados nas sociedades modernas.
O objeto central desse tipo de cerimônia é a ação alfabetizadora e é ela que é engrandecida em consequência de sua função enunciativa no projeto de produção da cultura nacional e do cidadão humanizado no mundo moderno. A ação alfabetizadora no contexto dessa cerimônia traduz-se no ritual de passagem do oral para o escrito. Mesmo que se entenda que não existe mais uma cultura tradicionalmente oral tal como foi tratada no domínio religioso e dos clérigos, quando do acesso à leitura da Sagrada Escritura, tendo em vista que vivemos em um mundo da cultura, no qual praticamente todos os espaços culturais são de convivência com artefatos culturais.
O objetivo deste trabalho é sugerir que, em sua dimensão ritualística, tais cerimônias estariam relacionadas com um contexto maior de normas, de convenções e práticas culturais e tradições de eventos públicos em sua ação performática. Nesse sentido, interessa verificar os modos como as coisas são ditas pelos adultos alfabetizandos ou alfabetizados; o conjunto de signos que acompanha o ritual da palavra dessas pessoas, a exemplo de gestos, comportamentos, circunstâncias; e o contexto dessas cerimônias.
O nosso estudo não remete a uma etnografia com uma descrição de atos presenciados, nem mesmo à dimensão do vivido no contexto da situação. O nosso objeto de análise advém de registros de cerimônias na história da Alfabetização de Adultos, como a Sessão de encerramento do curso de alfabetização, realizada em Angicos no dia 2 de abril de 1963.
Sessão de encerramento do curso de alfabetização, Angicos no dia 2 de abril de 1963
A cidade de Angicos no Rio Grande do Norte ficou conhecida pela extraordinária experiência de Alfabetização de Adultos sob a orientação do professor Paulo Freire. O programa foi iniciado em janeiro de 1963, sendo que a cerimônia de formatura ocorreu em 2 de abril daquele mesmo ano, contando com a presença da mais alta autoridade do país, sdo ministro da Educação, do governador, entre outras autoridades, assim como de jornalistas, de próprio Paulo Freire, de educandos, de familiares e de amigos.
O espaço da sala de cerimônia, onde as autoridades sentaram juntas para receberem os alunos, transforma-se em território cultural, que reflete os espaços vistos historicamente como lugares sagrados (as autoridades máximas) e lugares profanos (dos alfabetizandos). O reconhecimento da autoridade e dos papéis é dado pelos lugares que os sujeitos ocupam. A estrutura e a ordem da cerimônia estão de acordo também com a disposição do reconhecimento do saber dos participantes. Trata-se do saber operando como poder, agregado ao poder político daquelas autoridades que ali estavam.
Há uma ordem de quem fala, há um movimento pactuado para que nessas falas o conteúdo não destoe: as concepções sobre educação, cidadania, responsabilidades educacionais, projeto de país precisam estar aparentemente em consenso, controladas. Há uma cosmologia que une a todos os presentes, revelando um momento raro, pois somente nas práticas ritualísticas é que vamos encontrar pessoas com modos de existência tão diversos juntos. Por isso, na cerimônia, o ritual da fala em que a ordem do discurso orientado já é vista no primeiro discurso – o discurso do presidente da República e, na sequência, o do governador do Estado, o do Educador Paulo Freire e o do alfabetizando. Nesses discursos, o governador Aloisio Alves ressalta a experiência de alfabetização em massa, “cuja característica principal é a de ser feita no espaço de quarenta horas” e também o fato de que “mais de quatrocentos analfabetos, homens e mulheres de 20 a 70 anos, […] passaram a escrever e ler e a conhecer os problemas atuais, os problemas da nossa época, pelas aulas de politização que eram dadas simultaneamente com as aulas de alfabetização” (EM ABERTO, 2013).
O discurso político do presidente da República confirma, na sequência, a importância da alfabetização na formação do cidadão brasileiro e dá o tom na cerimônia da ação alfabetizadora como uma ação sagrada. Agradece de forma antecipada “as cartas mal traçadas, mas já escritas e escritas por gente que tem apenas 39 horas de preparo […] que aqueles que ainda há poucos dias eram analfabetos, se dirigem, agora, como alfabetizados, ao Presidente da República” (EM ABERTO, 2013, p. 167).
Segundo relatos históricos, o discurso do educando foi improvisado. A quebra do protocolo assegurou a essa cerimônia a consolidação do acontecimento discursivo. Nos anos que se seguiram, as cerimônias alastraram-se pelo país afora e nelas o momento do discurso do alfabetizando/a é o mais esperado. Tal como a entrega das cartas, prática ritualística que também foi incorporada às cerimônias de formatura da alfabetização de adultos. Nessas cartas, os agradecimentos, os pedidos de continuidade da escolarização e até o texto sem o rigor da língua escrita compõem o rito que emociona pelo esforço da escrita, enfim, um rito que autoriza aos alfabetizandos dizerem o que já sabem e onde poderão chegar com a escolarização.
Não há poder apenas nas autoridades: o que há é uma relação de poder assimétrica. O que se observa é o alfabetizando investido do poder por confirmar que agora sabe ler. Ele passa a ser visto como um homem com possibilidades para o saber reflexivo pela educação, tal como defende Paulo Freire. O que dizer diante de uma mesa com as mais altas autoridades do país? O que narrar e como narrar diante dos senhores em suas autoridades reconhecidas? Se o ritual é uma festa, cabe, então, festejar. Se pessoas importantes estão presentes, prestigiando o seu aprendizado, então que se cuide das palavras, que se cuide dos pronomes de tratamento. Com o corpo, precisa-se também ter cuidado, pois há jornalistas gravando, fotografias estão assegurando o registro da ação. Nesse ritual, o modo de ser de cada um, os gestos, a postura, a expressão no discurso reafirmam a identidade dos presentes.
A dimensão formal prepara a cena para a fala, na qual o alfabetizando diz o que se espera que ele diga: ele deve falar dos conhecimentos que tinha antes e dos conhecimentos que tem agora; como era antes e como é agora, depois do programa; o que sabia e não tinha importância, e o que deve saber e como se comportar com esse saber. Ao tratar como majestade o presidente, o alfabetizando coloca-se no lugar de quem reconhece a honra de estar presente ali na cena enunciativa. Ao expressar o seu agradecimento, ao mover o corpo, quase em uma genuflexão, o alfabetizando coloca-se no lugar de quem sente a honra de estar presente ali na cena enunciativa. A dimensão formal já é por si mesma performativa; a seção de encerramento é um discurso: terminou o processo de alfabetização, temos alfabetizados, o ritual da circunstância exige, orienta para o futuro, para prosseguir, já que todos os que pelo programa passam podem agora dizer-se “já sei ler”, mesmo que seja “já assino o meu nome e leio argumas coisas, graças a Deus”. Todos saem em paz, pois esta é a função desse ritual que é realizado em conjunto por pessoas presentes. Os alfabetizandos agora têm modos de ser e de pensar como escolarizados.