POLÍTICA SOCIAL, GÊNERO E FAMÍLIA: CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
Pensar as políticas sociais de gênero é condição sine qua non na contemporaneidade, sobretudo quando se leva em consideração os papeis femininos e masculinos e o que eles representam na sociedade. Neste sentido, compreender a formação das identidades é fator social e cultural importante na proposição de políticas de igualdade de gênero. As identidades tanto masculinas quanto femininas são constituídas sob valores, comportamentos e símbolos e estão estruturadas sob a égide do gênero, influenciando no desempenho de papéis sociais que não são determinados biologicamente, mas decorrem de uma produção sociocultural de homens e mulheres que se corporificam e naturalizam comportamentos. A importância na abordagem do tema se reveste na compreensão dos sistemas simbólicos de construções e desconstruções das subjetividades, as quais se expressam na vida social, familiar e amorosa e que possuem relação estreita com políticas de gênero, sobretudo no combate a violência e ao preconceito contra a mulher nas relações familiares e sociais. Nessa linha, a complexidade da vida moderna tem produzidos mudanças, que estão repercutindo nas identidades, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos afetivos e familiares, em que muitas vezes ainda prevalece a ideia do amor romântico. Neste sentido, buscamos refletir até que ponto a ideia do amor romântico estabelecido na família nuclear se transforma ou se mantem na família contemporânea, ao mesmo tempo que a própria instituição familiar se modifica. Para isso dialogamos com os debates desenvolvidos por Giddens (1993) no que diz respeito ao amor romântico e as transformações da família. Partimos do entendimento que o termo gênero está muitas vezes atrelado a ideia de desigualdade entre homens e mulheres, e, também, se relaciona ao desempenho de papéis construídos socialmente. O termo sugere uma hierarquia na qual a mulher tem o papel inferiorizado. Assim, gênero não é natural, mas está relacionado a estruturas de poder dos agentes envolvidos nas relações sociais, e que “na relação entre homens e mulheres, a desigualdade de gênero não é dada, mas pode ser construída, e o é, com frequência”. (SAFFIOTI, 2001, p.75). No que se refere ao debate sobre políticas públicas de gênero e a instituição familiar, compreendemos que o sistema binário masculino-feminino é pilar central na família e define funções para todos os membros da família considerando o sexo a que pertence. O pai possui uma responsabilidade geralmente vinculada ao emprego e manutenção da ordem e a mãe se responsabiliza pelo cuidado com a casa e com os filhos/filhas. Quando isto não ocorre, abre-se um caminho para violência e desigualdade de gênero dentro das famílias e fora dela. Em um sistema patriarcal, como o nome indica, o homem é o chefe da família. É aquele que possui a responsabilidade de mantê-la, deixando a esposa e os filhos/filhas sob seu comando. Nesse aspecto, recebe autorização ou, pelo menos, tolerância da sociedade para punir aqueles que se desviam das regras da família. Ao homem está intrinsecamente associada a capacidade de mando (SAFFIOTI, 2001). Com o processo de industrialização, o modelo patriarcal dá espaço ao modelo nuclear e a função da família passa das características de procriação e hereditariedade para, além desses elementos, produção, propriedade, proteção e segurança. Para assegurar a propriedade e a herança dos/das filhos/filhas legítimos/legítimas, foi necessária a consolidação de uma formação familiar menos numerosa. Junto com o aburguesamento da família, aparece a construção do amor romântico, que segundo Giddens (1993) se caracterizou como forma de pensamento que surgiu durante o século XIX, no qual o destaque foi o amor como ingrediente, no qual os maridos e as esposas eram vistos como empreendedores emocionais, que tinham projetos em comum para a vida no casamento e estavam ligados pela mais sublime intimidade de amor idealizado como um encontro de almas, sentimentos sagrados e divinos que predominavam sobre o desejo e ardor sexual. Porém, na prática concreta do dia a dia familiar estas relações ou o não cumprimento delas levam a violência doméstica e familiar. Isto posto, como se pensar políticas sociais que levem em consideração estas relações? Ter o gênero e a família como matriz na proposição de direitos é um fato de extrema importância para se vender a desigualdade social entre os gêneros.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor & erotismo nas sociedades modernas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero. Cadernos Pagu. n. 16. 2001. p. 115-136. Disponível em: . Acesso em: 15 de agosto de 2016.