A ênfase deste trabalho recai sobre o método de organização social e política de grupos religiosos camponeses, que se deu em grande intensidade entre as décadas de 1970 até 1990, e a reprodução desse método em espaços não apenas religiosos, mas também políticos pelas gerações posteriores. Trata-se de um longo processo de formação que teve início com o Movimento Apostólico dos Pioneiros do Evangelho (Mape), tendo continuidade a partir do final da década de 1950 com a experiência do Movimento da Boa Nova (Mobon), embora com ênfases distintas, a partir da atuação de dois missionários sacramentinos, Alípio Jacinto e João Resende. Os missionários passaram por experiências construtivas enquanto auxiliavam o padre responsável pelo Mape, como a de deixar o leigo falar e reclamar o quanto fosse necessário, ao final ele mesmo percebia que havia se excedido e que ele mesmo tinha estratégias de solução dos problemas apontados. Essa metodologia se conjugava ao modo característico de João Resende se comunicar, sempre brincando e trazendo comparações para a realidade local. Estavam cientes da importância da compreensão da mensagem bíblica pelo leigo católico, antes para provar que o catolicismo era legitimo frente a palavra de Deus, e depois para que o leigo refletisse as passagens na realidade atual e identificasse modos de agir coerentemente em relação a fé e à vida, a oração e a ação. Os ensinamentos seriam passados, então, mediante um método, o método de Jesus Cristo, ou seja, o testemunho de vida, a união de fé e ação na vida. Para levar a cabo esse projeto seguia-se formando lideranças, não mais para lutar, mas agora a fim de formar comunidades e se aproximar do “reino dos céus” aqui na terra. As lideranças eram estimuladas a saírem em duplas, sempre um mais experiente e um que estava iniciando para que o iniciando se sentisse confiante, caso fosse questionado sobre algo que ainda não tinha conhecimento. Em geral, as lideranças entrevistadas, atualmente já acostumadas ao mundo público, contam como era desafiante o momento em que foram escalados a ministrar cursos sem se sentirem preparados. Essa era uma das estratégias utilizadas, que o leigo se tornasse líder na prática, mostrando que ele era capaz de ministrar um curso e com isso seria importante para sua vida em geral. Diante disso, me proponho a analisar o método de organização religiosa e política de grupos sociais camponeses da Zona da Mata e Leste Mineiro, onde instituições políticas, como Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR’s) e o Partido dos Trabalhadores (PT), tiveram origem a partir de cursos do Movimento da Boa Nova (Mobon) e a criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). Neste trabalho me baseei em relatos orais, observação participante, e análise documental. Os relatos orais são referentes à narrativas de lideranças religiosas e/ou políticas leigas residentes de sete municípios da Zona da Mata Mineira; a observação participante foi realizada em diversas reuniões de movimentos sociais e conversas durante o curso da Campanha da Fraternidade 2018 na Casa de Cursos do Mobon, no município de Dom Cavati no Leste de Minas; no que tange à análise documental me foquei em livros históricos sobre o Movimento da Boa Nova, em documentos analisados na Sede do Mobon, como os cadernos que registram as listras de presença, livros redigidos a mão sobre a história do Movimento e fotos, e nos cadernos da Dona Cora Furtado Melo que contêm anotações manuscritas, livretos e folhetos referente às atividades do Mobon as quais participava, desde a década de 1970. Sendo assim, pôde-se perceber que ao longo das vivências os missionários responsáveis pelo Movimento foram desenvolvendo habilidades, aprendendo com os leigos e a partir disso, estabeleceram um método de formação de lideranças, que constituía num processo pedagógico e organizacional. Isto se deu porque a liderança recém-formada seria responsável pela formação de novas lideranças, o que gerou um efeito multiplicador de um método de educação popular que segue com um núcleo forte, embora ressignificado a cada grupo em que é utilizado. O fato de que foram formando seu método a partir de situações concretas corrobora com Freire (1996) para quem ensinar não é transferir conhecimentos e conteúdos, mas sim um processo dialógico baseado na reciprocidade, por isso a importância de conhecer o universo simbólico do sujeito a quem se ensina. Também é importante entender que o sujeito que forma está formando outro sujeito, ou seja, ele forma e ao mesmo tempo é formado. Freire (1996) acredita que não existe docência sem discência. “Quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (p. 23). Através de um método do Mobon e CEB’s que se perpetuou nos STR’s e no PT de base, o habitus militante católico (Oliveira, 2012) das lideranças passaram de geração para geração, levando a expansão da reflexão das CEB’s para os jovens através da formação do Grupo de Jovens e a posterior organização da Pastoral da Juventude Rural. O processo de formação de processos pedagógicos de movimentos de bases que tem à frente lideranças do Mobon e CEB’s, do sindicato, do PT de base ou Pastoral da Juventude, seguem um núcleo metodológico das CEB’s e Grupos de Reflexão, embora sempre questionando hierarquias, ressignificandos e adaptando ao grupo em questão. Nesse sentido argumento que apesar do conteúdo dos cursos do Mobon ser fluído, a metodologia utilizada para organizar socialmente os fiéis católicos rurais permanece nos movimentos de base que se desenvolveram a partir da criação das CEB’s e dos Grupos de Reflexão na região, como nos STR’s, a Pastoral da Juventude, cooperativas, associação de mulheres, movimento negro, Escolas Família Agrícola, etc. De acordo com a análise do material manuscrito de Dona Cora, que participou do curso da Boa Nova em setembro de 1970, em Iapu-MG, o item cinco, “O Apostolado de Jesus Cristo” versa sobre elementos necessários à realização do apostolado, como “O apostolado não se faz só com boa vontade, é necessário ter: mensagem – método – conhecimento do sujeito. (...) O método de Cristo – Testemunho de vida.” As anotações de Dona Cora nos ajudam a compreender elementos importantes das atuais e/ou ex lideranças que passaram pelas experiências do MOBON. A partir do testemunho de vida, a Bíblia deveria ser vivenciada e praticada no dia a dia, não sendo suficiente apenas a oração verbal. A mudança da prática cotidiana é fundamental para se dar o exemplo ao outro no processo de formação de discípulos, como pode se visto na instrução “Forma discípulos. É prático. Sabe adaptar-se. Parte do concreto.” A liderança do MOBON era ensinada a adaptar-se ao contexto em que se encontrava, a fim de obter uma comunicação efetiva, para isso buscava-se partir do concreto, da realidade do novo discípulo a fim de chegar a uma compreensão bíblica através do uso de metáforas. Segundo Freire (1996), uma das tarefas mais importantes da prática educativa é propiciar condições para que o educando possa se assumir enquanto ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador e criador em suas relações uns com os outros e com seus professores. “Exige decisão. Vai atrás dos desanimados. Caminha junto, participa das preocupações. Não força. É oportuno. Sabe ouvir. Fala no momento oportuno.” Essa comunicação efetiva e a compreensão da palavra de Deus contribuía na busca pelos discípulos mais desanimados, que muitas vezes não se sentiam tímidos e deslocados. As lideranças eram treinadas para saber ouvir, participar das preocupações do outro, dialogar e caminhar junto com ele, se tornando uma verdadeira militância religiosa. Em setembro de 1972, foi oferecido no mesmo município o Curso de Aprofundamento e Revisão, em que se enfatizou a importância do uso de um método, pelos missionários, para se comunicar a mensagem. Assim, salientam a importância de estratégias como o trato com as pessoas, o condicionar do assunto e o entendimento dos ouvintes enquanto um grupo que precisa se organizar. Nesse sentido, enfatizava-se que o comunicador deveria ser paciente e atencioso com todos, inclusive os mais quietos e tímidos. Deveria também ser cuidadoso ao tratar as respostas dos grupos, enfatizando que o mais importante é a reflexão que se fez e não se a resposta estava certa ou não. Importante também seria tratar as pessoas pelo nome ou apelido que foi dito; demonstrar interesse pelas atividades e tradições locais, mostrando interesse também pelos problemas das pessoas, tentando não ser indiscreto. “Fazer falar é mais positivo do que ficar contando nossas histórias” (p.8). Sobre o condicionar do assunto, a instrução diz respeito a falar de acordo com os ouvintes, procurar conhecer gírias do local e buscar exemplo do lugar. Buscar, então, dominar o conteúdo sem, entretanto, querer ser o dono da verdade, “a simplicidade cabe em qualquer lugar” (p.9), devendo-se estabelecer a confiança não tendo medo de dizer que não está por dentro de determinado assunto. Dentre as instruções também havia estavam regras sobre um horário certo para as reuniões, estimulando a reflexão do grupo para escolher um horário que seja bom para todos ou, pelo menos, para a maioria. Ou seja, o grupo precisa aprender a refletir e assumir decisões, se auto organizar sem depender da liderança inicial.