Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Violação à cidadania das mulheres em situação de violência e respostas críticas de líderes e grupos religiosos

*Tânia Mara Campos De Almeida



Ao recorrerem às instituições estatais para denunciarem a violência e tratarem suas feridas físico-emocionais por meio de políticas públicas hoje disponíveis na sociedade brasileira, mulheres encontram fortes entraves, são consideradas culpadas pela dor que carregam e desqualificadas moralmente por agentes públicos/as. Estes/as, motivados/as por crenças e valores religiosos misóginos, autoritários e fundamentalistas, emitem opiniões, julgam seus comportamentos e apontam para encaminhamentos conciliadores das denúncias com seus próprios agressores e que apagam as mulheres de suas histórias como sujeitos autônomos e emancipados. Chegam a dificultar ou impedir-lhes o acesso a direitos conquistados pelos movimentos feministas ao longo de décadas via convenções internacionais, leis e políticas públicas voltadas à cidadania e ao enfrentamento, em especial, da violência doméstica e familiar no país.
A presente exposição parte da identificação e análise desse percurso doloroso de mulheres de pequena renda e baixo nível de escolaridade em serviços públicos brasileiros (serviços de segurança, do judiciário e da saúde) capturados por mentalidades religiosas, que visam impedir intencionalmente o entendimento das relações sócio históricas de gênero e acabam por devolvê-las às usuárias enquanto uma excepcionalidade temática a ser superada e dentro do arcabouço do essencialismo biológico e da heteronormatividade. Trata-se de um conjunto de pensamentos e ações elaborado por grupos conservadores para a manutenção do status quo, para a garantia do patriarcado, para a revitimização das mulheres e para a garantia de um modelo único de família centrada no homem, que coloca as mulheres em posição secundária, submissa e servil. Com base em antigos discursos e metáforas de fundo dogmático religioso e de superioridade moral, em sua significativa maioria, são oriundos de alas do catolicismo e das crescentes igrejas evangélicas (pentecostais e neopentecostais).
Estabelecidos em confronto com o vasto e produtivo campo dos estudos de gênero e do feminismo, em especial daqueles sobre violência contra as mulheres na América Latina, tais pensamentos e ações denominam acusativamente este campo por “ideologia de gênero”, tentando retirar o cunho científico e acadêmico de suas afirmações e discussões sobre o poder existente e imbricado nessas relações de violência e discriminação. Além disso, procuram se expandir para fora das fronteiras religiosas de sua origem e se instalarem de modo sistemático nos meios de comunicação, nas instituições do Estado, nas redes de internet e, mais intensa e explicitamente, nos diversos níveis de ensino do país, articulando-se muitas vezes com interesses neoliberais atuais que objetivam minimizar o Estado, tratar a lei afastada de seu horizonte ético, apenas em sua mera formalidade jurídica, e retirar garantias individuais e coletivas da sociedade civil.
Por fim, a presente exposição se volta para a identificação e apresentação de posicionamentos e reflexões críticas diante desse contexto enunciadas por parte de lideranças e adeptos/as de ideias e valores religiosos. Não apenas, portanto, feministas e intelectuais têm expressado reiteradamente suas oposições e descontentamentos a esse movimento conservador que se pretende de massa e, com isto, auto proclamar-se democrático por uma visão simplista de maioria política numérica. Tanto expoentes religiosos como simples fiéis ligados ao cristianismo católico e evangélico têm despontado como reelaboradores/as de suas crenças e avaliadores/as contrários/as a manifestações e atos retrógrados e mantenedores da dominação masculina em diversas camadas discursivas e práticas sociais. De modo curioso e interessante, mostram assim significativos avanços na arena política e nos fundamentos teológicos, basilares para o surgimento de novas mentalidades e simbólicas de fundo transcendente mais inclusivas, reconhecedoras das desigualdades e opressões de gênero, bem como dirigidas aos direitos humanos e à justiça social.




......................

* Campos De Almeida
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil