Esta comunicação apresenta aspectos da pesquisa realizada sobre práticas musicais-midiáticas de jovens migrantes na cidade de São Paulo em suas construções identitárias e estratégias de visibilidade/audibilidade.
Nos estudos sobre grupos juvenis e culturas urbanas deparamo-nos com formas de experimentação da interculturalidade e de sentidos de cosmopolitismos de várias ordens, nas quais as zonas de contato, conflito e negociação de sentidos culturais e identitários se fazem presentes, bem como formas de atuação juvenis colaborativas e em redes de cooperação que os tornam atores sociais emergentes.
Em cidades como São Paulo(Brasil) a presença de jovens migrantes advindos da América Latina hispânica, África e outros locais delineia um contexto diaspórico experimentado por brasileiros e estrangeiros em suas práticas musicais e artísticas e naquilo que estas engendram em termos identitários, políticos, comunicacionais e midiáticos. A música, assim, para além de seus elementos estéticos (que não serão analisados neste artigo), mostra-se como elemento importante nas diásporas da atualidade, coadunando questões de representação cultural, agência, poder, mediação, comoditização e trocas interculturais
Como aponta Arjun Appadurai, poderíamos falar no cultural (adjetivo) mais do que em cultura (substantivo): a dimensão cultural nos é útil para ressaltar o caráter relacional e não isolado das identidades e como recurso heurístico do qual lançamos mão para abordar as diferenças e os encontros culturais e para compreender as vicissitudes dos encontros vividos de forma particular pelos jovens em cidades globais ou ordinárias (no dizer de J. Robinson), em suas interações, confrontações, negociações. Nestes lugares, identidades, pertenças, estranhamentos, formas de engajamento, imaginação e sentidos políticos têm de negociar espaços, mútuas influências e formas de colaboração, colaborando para a edificação de perspectivas de análise de-coloniais na compreensão de experiências vividas na América Latina.
As experiências de deslocamentos, mobilidades e migrações mostram-se na atualidade como fenômenos que tocam de maneira contundente as formas de sentir, pensar e conhecer o mundo e a diferença. Contextos diaspóricos constroem subjetividades que lidam a todo tempo com entrelugares e zonas intersticiais de negociação e conflito, gerando múltiplas identificações e pertencimentos, e desfocando a noção clássica de identidade fixa e homogênea. Analisar as narrativas (discursivas, musicais, midiáticas, políticas) construídas pela experiência migrante mostra-se tarefa a um só tempo difícil e instigante, dada a riqueza e a complexidade de seus conteúdos múltiplos que não se enquadram facilmente em dicotomias como reconhecimento ou recusa.
As atividades de coletivos juvenis ligados à música em suas articulações com grupos de ativismo cultural, ativismo migrante e aqueles ligados aos usos da cidade são o foco aqui. Articulamos uma discussão sobre migrações, cosmopolitismos e cidades em tempos globais e analisamos as práticas e os sentidos políticos destes grupos e o papel da própria cidade como local de fixos e fluxos engendrando espaços de interação, formação de localidades ligadas à música, ativismo e etnicidade. A metodologia contempla etnografia em locais de entretenimento e debates organizados por estes atores e aponta para formas de interações e construções identitárias entre migrantes e brasileiros. Nestas associações, as práticas musicais e artísticas têm papel aglutinador, como nós que fazem parte de uma rede de fluxos e interações comunicacionais diversas, permeadas e não dissociadas de atividades mais diretamente ligadas ao ativismo político ligado à migração (como nas ações do coletivo Visto Permanente), ao acesso à informação (no caso do Coletivo Digital) e aos usos da cidade (com foco nas ações do coletivo Cidade Lúdica).
Neste complexo de associações e fluxos, em que é possível interpretar práticas musicais-midiáticas nas quais entretenimento, lógicas de consumo e socialidades não se separam de atividades de cunho político e de engajamentos diversos, percebemos aspectos presentes nas formas de experimentação de cosmopolitismos e nas diásporas em tempos globais. Em outras palavras, vamos verificando o quanto a música e suas práticas de produção, performance, escuta, divulgação, consumo, entretenimento, identificação (elementos todos que fazem parte do que chamamos de prática musical-midiática) são catalisadoras de sentidos políticos e construções de formas de ser jovem numa cidade global, onde a experiência das migrações transnacionais e da cultura midiática têm importante papel. Mais ainda, ressaltamos o quanto estes fluxos de informações, de capitais, de pessoas, de culturas, de imaginários, de sonoridades e de diversas formas de ativismos políticos são salientados em contextos urbanos contemporâneos cosmopolitas como São Paulo.