Resumen de ponencia
A construção social de farmacoterápicos: um olhar pela sociologia das ausências
*Márcia De Oliveira Teixeira
*Vinicius Pellizzaro Klein
Um farmacoterápico é uma substância, natural ou sintética, destinada a uma finalidade
curativa, paliativa ou preventiva de saúde de um paciente. Mais do que compreender a
definição do que é um fármacoterápico, nos interessa problematizar sobre sua
construção, isto é, sobre como um elemento, qualquer que seja, pode ser nomeado como
tal. Em nossa cultura ocidental, este sentido e valor são atribuídos de forma hegemônica
pela ciência através da produção de evidências cumulativas, que vão desde a descoberta
de uma molécula, até os experimentos com humanos (última fase de investigação).
Embora a aparente objetividade deste percurso metodológico seja difícil de ser
questionada, pois tem o poder de mobilizar inúmeros recursos humanos e tecnológicos,
ainda assim existem muitas subjetividades que constituem este longo processo de
investigação. Cada critério de aferição e interpretação não é uma operação espontânea,
mas algo negociado entre uma comunidade, debatido e interpretado. Podemos ainda
problematizar em uma escala maior ao perguntar: que comunidade científica participa
deste processo de definição de critérios? Ou ainda: quão representativo pode ser um
número reduzido de voluntários que se submetem como “cobaias” a pesquisa de um
fármaco? Questões como estas tensionam uma ciência pretensamente universal frente à
complexidade do mundo. Dada universalidade nada mais é do que uma pretensão, pois a
ciência com sua matriz eurocêntrica está pouco ou nada interessada em dialogar com os
contextos locais e situados. Não busca ler o mundo, mas impor sua visão de mundo.
Neste sentido, sua tendência é de apagar as técnicas e formas de saber alternativas as
desqualificando como equivocadas para imprimir sua cultura de forma homogeneizante.
Neste sentido, interessa-nos saber como o Sul alijado de muitos processos globais
participa na construção de farmacoterápicos, ou seja, na produção de evidências
científicas e nas definições de métodos terapêuticos medicamentosos. Pretendemos,
deste modo, aplicar a abordagem da Sociologia das Ausências para analisar as relações
entre o Sul e o Norte Global nas diferentes etapas que compõe a construção de
farmacoterápicos. A metodologia consiste em três etapas. Um primeiro momento é
destinado à pesquisa bibliográfica sobre a Sociologia das Ausências e o seu vínculo com
as Epistemologias do Sul. Em seguida, o método de uma pesquisa exploratória e
aleatória sobre registros documentais de acesso público e ostensivo que representem
atividades de pesquisa de cooperação Norte-Sul neste segmento tratado. Ao final,
analisaremos as possíveis produções de ausência contidas nestes materiais coletados. O
resultado, ainda em caráter preliminar, revela uma quantidade relevante de registros
documentais que expressam a relação entre o Sul e o Norte Global na construção de
farmacoterápicos. Dentre estes documentos identificados, destacamos principalmente as
atividades de pesquisa clínica relatada através de registros de ensaios clínicos;
protocolos clínicos; acordos de cooperação e artigos científicos. Observamos até o
presente momento profundas e recorrentes assimetrias nas relações Norte-Sul. Um dos
casos acompanhados é o de autorias em artigos científicos em que pesquisadores do Sul
tendem a ser omitidos ou figurarem como coautores. Observamos também ocorrências
de registros de ensaios clínicos que nas situações de cooperação Norte-Sul, o papel de
centros coordenadores dos estudos sempre é direcionado às instituições localizadas no
Norte. Por sua vez, o Sul em raros os casos desenvolve seus protocolos clínicos e tende
a exportá-los de modelos padronizados do Norte. Consideramos assim que, na expertise
de construir farmacoterápicos, tomando como exemplo algumas etapas deste processo,
que o Sul Global é um objeto privilegiado para uma sociologia das ausências. Produzir
alternativas de superação desta condição subalterna parece ser o maior desafio e transcende o espaço da análise cultural e sociológica. É algo que requer um movimento de integração de múltiplos saberes, ou por que não falar em uma Ecologia de Saberes?