O presente trabalho visa contribuir para o desvelamento do embuste ideológico inserido no processo de formação da classe trabalhadora no seio escolar, particularmente no que tange à EJA, na modalidade EaD. Considerando, como põe Mészáros (2008), que a educação institucionalizada tem cumprido desde meados do século XIX o duplo papel de fornecer, predominantemente, o pessoal necessário à maquinaria produtiva e disseminar as ideias dominantes, pretendemos elucidar em nossa pesquisa a função social dos paradigmas pedagógicos contemporâneos postos sobre essa modalidade de ensino, revelando o caráter deformador da formação oferecida para os trabalhadores, sobretudo no atual contexto histórico de crise estrutural. Para darmos conta de nosso objeto, faremos uma pesquisa bibliográfica e documental. No campo documental, utilizaremos a Coleção Cadernos de EJA, elaborado pelo Ministério da Educação (2007), assim como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), particularmente os artigos 37 e 80, que tratam respectivamente da Educação de Jovens e Adultos e da Educação a Distância. Estes documentos serão analisados à luz da ontologia marxiano/lukacsiana com o aporte teórico nas obras de Marx (2009), que trata do trabalho alienado; Lukács (2013), que recupera da obra marxiana sua essência revolucionária, evidenciando o caráter libertador do trabalho; Mészáros (2011), que evidencia a crise hodierna do capital; e Tonet (2005), que denuncia o papel da educação sob a lógica do capital, evidenciando a função ontológica no processo de reprodução social. Destarte, entendemos que tal formação baliza-se em negar o conhecimento sistematizado pela humanidade ao longo do tempo.
Esse artigo tem como objeto de estudo a Educação de Jovens e Adultos (EJA) na modalidade a distância (EaD) buscando desvelar, à luz da crítica marxista, o caráter deformador da formação oferecida para a classe trabalhadora, sobretudo no contexto histórico de crise estrutural do capital.
Demonstraremos que é importante compreender a função social da EJA, na modalidade EaD, que, ao contrário do que evidenciam as lições da história, promete avanços significativos na educação e na vida da classe trabalhadora, propondo que os trabalhadores voltem a estudar, o que seria possível, para seus defensores, sem o compromisso diário de estarem presentes na escola.
A educação passa atualmente por profundo processo de mercantilização, marcada também pela necessidade desse sistema de negar à humanidade e, sobretudo, à classe trabalhadora o conhecimento sistematizado ao longo dos tempos. É evidente que, historicamente, no contexto da sociedade de classes, o acesso a esse patrimônio tem sido privilégio apenas da classe dominante. Para esta classe, a transmissão do conhecimento era dirigida apenas para pessoas que, não precisando trabalhar, podiam dedicar-se integralmente às atividades de cunho espiritual (TONET, 2006, p. 2). No entanto, como aponta ainda Tonet (idem), com o advento do capitalismo, a ideia de formação cultural sofreu profundas mudanças, pois o discurso voltado para o trabalho e para a própria educação postos nos documentos da EJA/EaD formulados pelo estado e outros organismos presentes na esfera educacional, que propaga uma falsa ideia de que a única forma de ascensão social seria por meio da educação e do investimento do indivíduo nesta formação para o mercado, não poderia voltar-se para o atendimento das necessidades genuinamente humanas.
Nesses documentos, como não poderia deixar de ser, o trabalho não é considerado “[...] como uma atividade criativa, explicitadora das potencialidades humanas, mas [...] como simples meio de produzir mercadorias, especialmente a mercadoria das mercadorias, que é o dinheiro” (TONET, 2006, p. 2). E a formação cultural, nesse sistema capitalista, é posta como a “cereja do bolo” na acumulação da riqueza material, onde, “[...] essa parte da preparação ‘integral’ nada mais é do que a transformação do ser humano em mercadoria apta a atender os interesses da reprodução do capital” (TONET, 2006 , p. 4).
Na Introdução são trabalhado os seguintes pontos:
Mercantilização da educação, marcada pela necessidade do sistema de negar à humanidade e o conhecimento sistematizado ao longo dos tempos à classe trabalhadora
Historicamente, no contexto da sociedade de classes, o acesso ao saber tem sido privilégio apenas da classe dominante.
Educação Pré e Pós Capitalismo
Trabalho e Educação na Sociedade Capitalista
Trabalho como complexo fundante do ser social
Educação como complexo fundado pelo trabalho
Educação no sentido lato e no sentido stricto
Nesta sociedade regida pelo Capital, a lógica da educação é a lógica do mercado. Sob essa lógica, os indivíduos devem ser preparados para a flexibilização das relações de trabalho e para a adaptação a tudo o que é imposto, além de garantirem um emprego para si. Nesse tipo de sociabilidade, a educação – que tem a função de mediar a consciência dos homens visando a sua reprodução – é um mecanismo poderoso no processo de reprodução das relações sociais alienadas. [...] Por isso, a educação é posta hoje como um mecanismo que pretende calar a voz e impedir as ações dos indivíduos em direção a uma mudança radical na sociedade.
A educação institucionalizada, em especial, nos últimos 150 anos, serviu de modo geral, ao propósito de não apenas fornecer os conhecimentos e a mão de obra necessária à maquinaria produtiva, mas, sobretudo, gerar, transmitir e legitimar os interesses da classe dominante. Assim, ao passo que esse discurso ganha força, deveria existir simultaneamente adulteração ideológica da história dos homens, para que estes não acreditem em outra alternativa histórica para além do sistema do capital.