O capitalismo é o espaço de correlação de forças cujos protagonistas são os grandes empresários, donos de fortunas e de impérios, que concentram expressivas porcentagens da riqueza do mundo. O jogo de interesses, de forças e de decisões disputado em nome do dinheiro pelos denominados proprietários do capital promove patologias sociais especialmente nocivas à classe trabalhadora que, em situação de vulnerabilidade social, padece com o desemprego, a pobreza, a miséria e a fome, etc.
O surgimento de tais mazelas e de suas consequências sociais de toda ordem é uma das principais razões pelas quais o capitalismo está em absoluta decadência. Podemos dizer que esses desdobramentos obrigam o Estado, em todas as esferas, a atuar na criação/implementação de medidas compensatórias que promovam ou que tentem promover equidade social e que se materializam em políticas públicas e/ou políticas sociais. No entanto, tudo isto se constitui numa arena de disputas políticas, ideológicas e filosóficas que se externalizam e se explicitam por meio de movimentos e manifestações organizados por grupos sociais que se mobilizam pelos seus direitos.
De modo que possamos melhor compreender todas essas questões, no primeiro capítulo deste artigo desenvolvemos um referencial teórico-conceitual sobre políticas públicas e suas relações com o capitalismo, a sociedade e o Estado. Assim, a posteriori, realizamos uma análise histórico-conjuntural sobre o nosso sistema de proteção social no Brasil que, atualmente, dispõe de políticas sociais cujas quais poderíamos citar o “Fome Zero”, “Bolsa Família”, o “Minha Casa, Minha Vida”, a “Lei de Cotas”, entre outras na luta pela igualdade étnico-racial e de gênero bem como pelos direitos LGBT’s.
No entanto, é fato que geralmente tais políticas são alvos de discursos moralistas e meritocráticos. Essas narrativas de parte conservadora da sociedade são contra políticas públicas de “compensação”, o que, semanticamente, denota que política de proteção social é uma esmola do Estado aos pobres. Os mais abastados são críticos ferrenhos dos “programas assistencialistas” que os governos costumam criar não por iniciativa própria, mas por pressões da sociedade, das entidades e dos movimentos. Mesmo assim, o investimento no setor é deveras baixo como se fosse uma filantropia do Estado àqueles sujeitos que, geralmente, são taxados de pessoas de menos sorte.
De verdade e pelo contrário são vítimas do capitalismo selvagem que usurpa seus direitos de cidadão e quaisquer vestígios de dignidade humana. O capitalismo sucumbe, em absoluto, os direitos humanos dos sujeitos que parecem amordaçados pelo autoritarismo e pela exploração do capital. Eles não tem possibilidades e tampouco oportunidades para unir vozes, por quaisquer meios, que reúnam suas narrativas de luta e de resistência e que bradam pela dignidade humana, pela ampliação da justiça e equidade social, pelos direitos humanos e pelas políticas públicas de proteção social.
Nesse sentido, alternativas de articulação de vozes e disseminação de narrativas sobre a coisa social parecem se ensaiar nas escolas públicas de Joinville/SC, por meio da educomunicação e da internet a partir de projetos sobre os quais dissertamos no segundo capítulo deste artigo. Nossa hipótese é de que, estimuladas pelas práticas educomunicativas de produção e de disseminação de narrativas no ciberespaço, as discussões sobre as questões sociais extrapolam limites do espaço educativo e não apenas são veiculadas na internet por meio de narrativas sociais em distintos formatos educomunicativos como também se tornam, entre os alunos, objeto de ativismo social.
Metodologicamente, o questionário pareceu o melhor instrumento de pesquisa. Foram dez alunos de distintas escolas desta cidade que responderam cinco perguntas sobre suas percepções/representações acerca da questão social, da educomunicação e da internet. No terceiro capítulo ponderamos sobre as respostas ao questionário pelo qual podemos mapear a opinião dos alunos sobre direitos humanos e políticas sociais e, sobretudo, observar quais são seus comportamentos nas mídias sociais acerca das temáticas em questão. Por fim, pelo questionário, vamos analisar projetos/oficinas de educomunicação: como oferecem melhores condições de apropriação das discussões e como contribuem na construção de pensamento consciente e crítico sobre o tema. Os capítulos dialogam sobre a questão social e a educomunicação, relacionando-as a partir de projetos/oficinas das escolas públicas de Joinville/SC, nosso objeto de estudo.
A educomunicação é a prática social que se constitui de múltiplas ações na interface entre a Comunicação e a Educação e que pretende, entre outras coisas, criar ecossistemas comunicativos nos espaços educativos formais, não formais e informais com intuito de melhorar/qualificar a ação comunicativa e o processo de ensino-aprendizagem nesses ambientes. Soares (2002, p.115) define educomunicação como:
O conjunto das ações inerentes ao planejamento, implementação e avaliação de processos e produtos destinados a criar e fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos, melhorar o coeficiente comunicativo das ações educativas, desenvolver o espírito crítico dos usuários dos meios massivos, usar adequadamente os recursos da informação nas práticas educativas e ampliar a capacidade de expressão das pessoas.
De um lado da ação, em suas práticas nos diversos ambientes educativos, a educomunicação discute e problematiza os meios analógicos enquanto produtores de sentidos ressignificando seus formatos e suas concepções, a partir de produções educomunicativas como jornal escolar, rádio e TV escola. De outro lado, costuma utilizar a internet em suas práticas veiculando discussões sobre questões sociais neste ciberespaço e propondo subversões narrativas ou contra narrativas ao status quo hegemônico por meio de concepções filosóficas/ideológicas que se materializam em blogs, spots e vídeos. A vocação da educomunicação é, portanto, oferecer uma alternativa/possibilidade pela qual excluídos/marginalizados possam, nos espaços educativos em geral, elaborar suas narrativas e ampliar vozes sobre a questão social.
Fundamentalmente, é assim que a coisa funciona na práxis educomunicativa das escolas públicas de Joinville/SC: num primeiro momento, os alunos participam de grupos coletivos com discussões transdisciplinares sobre a questão social. Nesse espaço todos tem vez e voz em relações horizontalizadas, democráticas e dialogadas. É nesse ambiente de projetos/oficinas educomunicativos mediadas por professores/ educomunicadores que os alunos se apropriam minimamente sobre o tema e são incentivados a iniciar um processo de pesquisa, estudo e investigação. É um exercício “jornalístico” de procura à informação, de formação de opinião e, concretamente, de produção de mídias em formatos/extensões publicáveis na internet: texto, áudios e vídeos para as mais variadas plataformas, posteriormente publicadas no ciberespaço.
O processo de produção de mídia, além de coletivo, colaborativo e democrático, dialoga com o repertório crítico sobre a questão social que os alunos desenvolvem durante as discussões coletivas. É o mesmo repertório que provoca um ativismo social no ciberespaço, especialmente, em suas páginas nas mídias sociais. Podemos dizer que ao participar das discussões nas oficinas e das produções de mídia sobre políticas sociais, direitos humanos, meritocracia, desigualdade social, racismo e homofobia, os alunos se conscientizam sobre processos sociológicos, históricos e contemporâneos.
Esse ativismo pelas causas sociais na internet entre os alunos é consequência dos projetos educomunicativos realizados por algumas que promovem qualificação do processo de ensino-aprendizagem e uma formação para cidadania participativa. Os alunos têm a possibilidade de manifestar, pela internet, suas narrativas sobre a questão social. Essa oportunidade e possibilidade os meios hegemônicos não conseguem oferecer. Os alunos que participam de projetos de educomunicação começam a perceber pelo próprio processo que os meios hegemônicos não falam de questões sociais. Deste modo, eles desenvolvem uma capacidade crítica quanto ao monopólio de mídia e entendem a questão social de modo mais contextualizado/circunstanciado.
Neste sentido, a prática educomunicativa se constitui de processos e resultados que se aproximam dessa temática. Dizemos que pela educomunicação os alunos se relacionam com as narrativas que transitam por aí e constroem seus recortes narrativos sobre a coisa desenvolvendo uma compreensão acerca da complexidade da questão social o que pode contribuir na formação de crianças/jovens tornando-os mais críticos sobre nosso modelo de sociedade. A educomunicação provoca a formação de sujeitos com competências/habilidades para compreender e se posicionar nesse universo de disputas de narrativas sobre a coisa social e seus aspectos social, político e histórico.
O artigo constrói paralelos entre a questão social, a educomunicação e a internet. Os resultados da pesquisa de campo demonstram a comprovação da hipótese de que a prática educomunicativa das escolas de Joinville/SC, em última instância, promove o net-ativismo social. Podemos dizer que ensino-aprendizagem torna-se mais efetivo quando, não raramente, os alunos se apropriam tão significativamente sobre a questão social que passam a se manifestar na internet defendendo causas sociais em formas ciberdemocráticas de participação elaboradoras a partir de uma ação engajada/coletiva nas mídias digitais. A educomunicação parece, portanto, incentivar a disseminação das narrativas de luta, de resistência e de subversão acerca das questões sociais em defesa de pobres, negros e gays, em suma, dos direitos humanos e das políticas sociais.