Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A interdisciplinaridade nas pesquisas sociais

*Junia Fior Santos



Este ensaio é fruto de algumas reflexões suscitadas em discussões teóricas e metodológicas acerca das pesquisas desenvolvidas nas Ciências Sociais, que atualmente compartilham de estruturas holísticas que requerem novas perspectivas teóricas. Desse modo, as presentes considerações são um chamado à discussão sobre o diálogo entre Ciências Sociais e os demais campos das ciências humanas e sociais. Propõe-se analisar a importância das abordagens interdisciplinares que se apresentam como arcabouço teórico-metodológico fundamentais para as Ciências Sociais, o que possibilita uma compreensão mais ampla sobre os fatos sociais e históricos que se pretende investigar, dentre eles destaco a minha própria experiência de pesquisa com os povos indígenas. O objetivo é refletir sobre a necessidade e os avanços da produção de conhecimento nessa linha interdisciplinar. Neste sentido, procura-se explanar brevemente como as abordagens sociais dialogam com outras ciências e qual a importância dessa colaboração para uma melhor compreensão dos fenômenos histórico-sociais.
Por muito tempo a reivindicação pela legitimidade do campo, impôs limitações, saberes separados, fragmentados, esmigalhados e compartimentados entre disciplinas, que se apresentaram frente a estudos de contextos e problemas em escala multidimensional e global, que só poderiam ser bem analisados por meio de uma visão que considerasse sua multidimensionalidade. Isolar os objetos sem reconhecer suas correlações compromete a interpretação dos fatos sociais. É perceptível que as correntes de pensamento que influenciam as pesquisas sociais têm-se formulado e reformulado no decorrer do tempo. Essas mudanças são suscitadas a partir das necessidades de cada época que por sua vez, elenca novos temas que demonstram as inquietações dos homens no seu tempo.
Entre as rupturas e permanências contemporâneas a se destacar nas pesquisas de Ciências Sociais, cabe destacar a proposta de um estudo interdisciplinar com a História, Filosofia, Geografia, Psicologia, Econômica, dentre outras áreas do conhecimento que fornecem subsídios para o estudo de um complexo social inteiramente subjetivo.
Nesse interim, o indivíduo e suas ações só são passíveis de análise dentro da totalidade que lhes concede sentido. Para se aproximar dessa totalidade exige-se algumas quebras de paradigmas e fronteiras, para então adentrar a esse universo. Sobre isso, vale a pena recordar as considerações de Fernand Braudel, “(...) as ciências sociais se impõem umas às outras, cada uma tende a compreender o social no seu todo, na sua “totalidade, cada uma invade o domínio de suas vizinhas crendo permanecer em casa” (BRAUDEL,1969. p. 42). Esse diálogo possibilitou muitas modificações nos conceitos operacionais que norteiam a pesquisa, ampliando não só possibilidades como também os desafios.
Desse modo, ao estudar um contexto cultural contemporâneo, primeiro há que se compreender o mundo real, a nós apresentado, como um mundo simbólico, constituído pela experiência humana e compartilhado por sujeitos complexos. Apropriar-se do tempo presente como objeto de estudo é debruçar-se sobre relações complexas e interdependentes concebidas por estruturas sociais presentes e passadas.
A oportunidade de se estudar história indígena está diretamente relacionada com um contexto histórico mais recente e não apenas com o desenvolvimento das reflexões no campo da Ciências Sociais. A perspectiva que considera as minorias excluídas através de políticas “inovadoras”, possibilita também a abrangência e emergência de discussões sobre esses grupos. O desenvolvimento das técnicas de pesquisa, o amadurecimento das concepções teóricas, a problematização acerca do ofício do cientista social suscitou novas questões em relação a história contada pelas “minorias”. Com o crescente interesse pela história nacional e regional, uma parte dessas minorias, como por exemplo, os povos indígenas, passaram a ser mais estudados no Brasil, especialmente a partir de 1990, recebendo significativas contribuições de pesquisas acadêmicas. Mesmo assim, ainda há muito a ser pesquisado sobre os aspectos sócio-históricos dessas populações.
Nesse sentido, ao estudar o processo de mobilizações de uma comunidade de povos Guarani e Kaiowa do estado de Mato Grosso do Sul - Brasil, tenho como objetivo entendê-los como sujeitos históricos que desenvolvem dinâmicas de enfrentamento e resistência frente a consolidação do processo de espoliação de seus territórios. Pesquisa que só é possível de ser estruturada se houver uma interdisciplinaridade com as outras áreas do conhecimento. Os pressupostos teóricos das disciplinas como História, Etnologia, Geografia, dentre outras, com quem tem sido estabelecido um diálogo, tem contribuído grandemente para compreensão da dinâmica social e cultural dessa comunidade indígena.
Ao pesquisar o passado e o presente de uma determinada comunidade indígena é necessária a compreensão de sua cultura, suas determinações, estruturas de parentesco, implicações sócio-econômicas, enfim, é inegável a necessidade que um trabalho de cunho sócio-histórico postule uma sustentação teórica e metodológica interdisciplinar.
Assim, a ampliação do horizonte teórico-social, que se afasta de práticas eurocêntricas utiliza-se do intercâmbio com outras ciências, sem deixar que passem de auxílio a instrumento dirigente de seu trabalho, sendo preciso aprimorar as vias de convívio, para o enriquecimento das abordagens sociais. Repito, portanto, a importância em se estabelecer diálogos entre cientistas sociais e pesquisadores de outros campos que articulam dados e interpretações que podem auxiliar na compreensão do fato social e na valorização da própria interpretação que esses indivíduos têm sobre suas trajetórias. Diante das reflexões abordadas neste ensaio fica evidente a possibilidade de um fértil diálogo que pode ser estabelecido entre as Ciências sociais e demais campos do conhecimento. Contudo, sabe-se que esse diálogo não ocorre sem contradições, tampouco, sem certificar-se que as fronteiras disciplinares, outrora rígidas, são fluidas e viabilizam complexos e necessários deslocamentos. Conjuntura essa que reforça a necessidade de mais discussões acerca da importância em preservar e aprimorar os diálogos interdisciplinares.

Bibliografia
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Felipe II (Prefácio). In: Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 1969. p. 13-16








......................

* Fior Santos
Universidade Federal da Grande Dourados UFGD. Dourados, Brasil