Se a desigualdade entre países que se inserem de modo diverso no mercado mundial salta aos olhos de qualquer observador atento, alguns estudiosos da obra de Marx, incluindo marxistas, apontam que pelo menos até meados dos anos 1850 o autor sequer seria capaz de conceber tal desigualdade como resultado necessário do desenvolvimento da sociabilidade burguesa. Ou, para ser mais preciso, no referido período Marx teria pensado à moda liberal a superação das desigualdades no desenvolvimento econômico geral, compreendendo o problema como algo a ser resolvido pela própria disseminação do modo de produção capitalista.
Sem dúvidas, à época citada Marx ainda não dispunha do aparato categorial apropriado para a análise dos determinantes da desigualdade no desenvolvimento econômico geral: a lei do valor. No entanto, é precoce e enfática a rejeição do autor a qualquer esquema histórico de tipo "unilinear", como aparece claramente nas críticas de Marx à filosofia da história em A ideologia alemã e Miséria da filosofia, assim como a formulação de uma concepção ontológica para o ser social que reconhece e oferece meios para se pensar a "multilinearidade" do desenvolvimento, para seguir usando a terminologia dos autores com quem debateremos nesta seção. Ademais, ressalte-se que tal perspectiva comparece como elemento fundamental da teoria marxiana até mesmo em seus momentos mais maduros.
O ponto de partida para as análises contemporâneas mais influentes dos escritos de Marx sobre o colonialismo e o mercado mundial é, em geral, o Manifesto do partido comunista, de 1848. Segundo Nestor Kohan, o texto revelaria "una tensión interna en su [de Marx] pensamiento y en su discurso teórico acerca de la historia". Esta tensão apareceria de maneira "inegable y contundente", por exemplo, no seguinte trecho do Manifesto de Marx e Engels:
“Com o rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e o constante progresso dos meios de comunicação, a burguesia arrasta para a torrente da civilização todas as nações, até mesmo as mais bárbaras. (...) Sob a pena de ruína total, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar a chamada civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem e semelhança”.
As interpretações debatidas neste artigo apontam no trecho em destaque evidências de uma noção de progresso em Marx, com o que, a princípio, não estaríamos dispostos a discordar. De fato, à obra marxiana subjaz uma noção ontológica de progresso. Sinteticamente, sua concepção implica uma perspectiva para o desenvolvimento histórico que intenta captar teoricamente o processo de complexificação do ser social. Este processo, que tem por condição o desenvolvimento das forças produtivas, evidencia-se de maneira tríplice: no recuo das barreiras naturais, isto é, na crescente dominação da natureza; na redução no tempo de trabalho socialmente necessário para a reprodução humana; e na explicitação do gênero humano, como realidade não mais muda, seguindo as indicações do último György Lukács.
O parágrafo supracitado do Manifesto inscreve-se na caracterização inicial oferecida por Marx da "sociedade burguesa moderna", cujo modo de produção "criou o mercado mundial, preparado pelo descobrimento da América". O mercado mundial "acelerou o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação", o que, por sua vez, impulsionou "a expansão da indústria". Nesse processo são dissolvidas as relações de produção legadas pela Idade Média, evidenciando que a sociabilidade burguesa moderna, e suas correspondentes relações de produção, resultam "de um longo processo de desenvolvimento".
Para além do caráter histórico da sociedade burguesa, os objetivos do texto em análise impõem a caracterização da historicidade de seu modo de produção, isto é, de algumas de suas tendências gerais. Em especial, Marx constata que o modo de produção capitalista, por suas próprias leis de movimento, representa um impulso sem precedentes históricos ao progresso, no sentido ontológico supracitado:
“A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. A conservação inalterada do antigo modo de produção era, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. Essa subversão contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes”.
A constatação desse progresso prescinde de julgamento de valor. Isso não significa, claro, que não se possa julgá-lo, nem que o próprio Marx não o tenha feito, mas que, independentemente disso, pode-se dispor de um critério objetivo para afirmar que uma determinada formação social é superior ou inferior a outra. O que interessa a Marx, através da crítica a sociedade burguesa, é apontar o comunismo como uma possibilidade posta pelo modo capitalista de produção e, ao mesmo tempo, uma forma de organização social desejável, na medida em que corresponderia à superação da alienação das capacidades humanas. Essa é a grande questão do Manifesto; essa é a dimensão subjacente à lei do valor posteriormente desenvolvida por Marx. Em suma, a demonstração de como a produção capitalista aponta para além de si mesma.
Assim, é o modo de produção capitalista que põe o comunismo como realmente possível. A própria ideia de humanidade (a explicitação do gênero humano) e, portanto, da emancipação humana, são resultados positivos do mercado mundial, que, contudo, apontam para a sua negação. Isto é, resultam da necessidade de se imprimir "um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países" (Ibid., p. 43). Por outro lado, essa expansão amplia o escopo das necessidades humanas, conferindo maior complexidade às interações sociais. Nas palavras de Marx:
“No lugar do antigo isolamento de regiões e nações autossuficientes, desenvolvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se patrimônio comum. A estreiteza e a unilateralidade nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das numerosas literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal”.
Fica evidente acima que Marx entende possuir uma base concreta para avaliar diferentes formas de manifestação culturais, em contextos sociais gerais diversos. A "unilateralidade" local é contraposta à universalidade posta pelo mercado mundial. Dessa noção de progresso, como já discutimos, não se deve depreender a impossibilidade de retrocessos das mais diversas ordens e nos mais diversos campos, inclusive na cultura e nas artes, assim como a contínua explosão violenta de antagonismos nacionais. Na verdade, estes são igualmente resultados necessários do processo de expansão e aprofundamento da sociabilidade burguesa.
Em suma, o desenvolvimento histórico no arcabouço teórico marxiano é intrinsecamente contraditório. Por esse motivo, deve ser visto com reservas o otimismo exagerado expresso por Marx na passagem acima, isto é, a reprodução dessa ordem social reproduz também a "estreiteza e a unilateralidade". De todo modo, aqui e adiante, importa observar em que medida erros, exageros, e inclusive atitudes que podem ser moralmente condenáveis, são suficientes para desafiar a concepção marxiana para a historicidade no âmbito do ser social. Ademais, na medida em que os textos supostamente eurocêntricos são, em geral, contrastados com os últimos escritos de Marx sobre a Rússia, faremos remissão a estes momentos de sua produção intelectual sempre que julgarmos pertinente.