1. Introdução
Jovens sendo reanimados nas calçadas, pessoas em busca de sobreviventes, o vaivém de ambulâncias e, por fim, a aglomeração de corpos cobertos por lonas. Essas foram as cenas presenciadas pelos primeiros jornalistas que chegaram à boate Kiss, na cidade de Santa Maria (RS), no sul do Brasil, que incendiou em 27 de janeiro de 2013, matando 242 pessoas e deixando mais de 630 feridas.
O caso, considerado o segundo maior incêndio do Brasil e a terceira tragédia mais letal em casas noturnas do mundo trouxe a lembrança de outra tragédia. Em dezembro de 2004, a discoteca República Cromañón, de Buenos Aires (Argentina), pegou fogo e causou a morte de 194 pessoas e ferimentos em outros 1.432 frequentadores. Os casos guardam muitas semelhanças entre si. Tanto na Kiss como na Cromañón, o fogo foi provocado pela faísca de um sinalizador aceso dentro do prédio e que atingiu uma espuma de poliuretano no teto. A asfixia provocada pelo gás cianídrico, liberado na queima do material, foi apontado como a causa da morte da maioria das vítimas.
Casos como esses, de grande “comoção pública”, rompem a normalidade (PEDEMONTE, 2010) e afetam não só os familiares das vítimas e a sociedade como um todo – visto que problemas públicos são revelados – mas também o jornalismo que tem uma série de rotinas e valores desestabilizados. Considerando este contexto, o trabalho reflete sobre as possibilidades do jornalismo na cobertura ao vivo de tragédias, descreve as condições de produção do discurso jornalístico, e reflete sobre desafio de organizar e realizar a cobertura ao vivo em caráter de urgência. Posteriormente, analisamos como o jornalismo da Rede brasileira de televisão Globo e de sua afiliada no sul do Brasil – a RBS TV – atuou no caso a partir de um mapeamento das entradas ao vivo e da convocação de fontes jornalísticas.
2. A organização da cobertura ao vivo em caráter de urgência e as condições de produção
“O negócio aqui é sério, tem 40 mortos! Tem corpos empilhados na calçada! Vem pra cá!” (ENTREVISTA..., 2018). Foi desta forma que o cinegrafista encaminhado à boate para verificar o que se seria um princípio de incêndio informou a gravidade do caso à coordenação da RBS TV Santa Maria, ainda de madrugada. Assim, começava a organização da cobertura em caráter de urgência e em meio ao desenrolar do acontecimento, o que representava enfrentar uma série de dificuldades.
Uma delas era a equipe reduzida: por se tratar de um final de semana e período de férias, apenas cinco profissionais (de uma equipe de 15) deram início à cobertura, sendo preciso pedir ajuda à sede da emissora que destinou para a cidade profissionais e equipamentos. No dia seguinte, 84 pessoas trabalhavam em Santa Maria.
Outro desafio era a apuração em tempo real e em um ambiente de caos. Inicialmente, os repórteres tiveram acesso à frente da boate, depois a área foi bloqueada. Além disso, a imediaticidade da transmissão ao vivo, propicia a veiculação de informações fragmentadas, as quais vão sendo complementadas e até mesmo corrigidas ao longo da cobertura. No primeiro dia do caso Kiss, a capacidade da boate e o número de mortos divulgados por fontes oficiais foram, posteriormente, retificados. Os dois exemplos mostram o quanto a apuração é complexa, visto que as autoridades também estão inseridas no mesmo ambiente desestruturado pela tragédia.
3. As fontes jornalísticas no caso Kiss: mapeamentos das participações
Analisamos 44 entradas ao vivo que tiveram a presença de fontes, veiculadas nos primeiros três dias de cobertura (de 27 a 29/01/2013) da Rede Globo. No total, 61 fontes foram entrevistadas. Utilizando a classificação de fontes de Amaral (2013, p.183), chegamos aos números de 20 autorizadas/oficiais, 25 especialistas e 16 testemunhais.
No domingo (27/01/2013), verificamos um equilíbrio nas convocações de 33,3% para cada tipo de fonte, porém com uma oscilação relevante ao longo do dia. A maior delas ocorreu durante a manhã, quando 75% das fontes ouvidas foram testemunhais (e 25% especialistas), pois havia a necessidade de se compreender, ainda que parcialmente, a tragédia. À tarde, o índice das testemunhas cai para 26,6%, e das oficiais/autorizadas – que ainda não tinham sido ouvidas – sobe para 46,6%. As especialistas mantêm-se próximas da frequência anterior, com 26,6%. Na noite de domingo, observa-se uma queda dos três tipos de fontes, sendo entrevistadas ao vivo apenas duas especialistas.
Já na segunda-feira (28/01/2013), verificamos o aumento das fontes especialistas (de 33,3% para 53,5%), a redução das oficiais/autorizadas (de 33,3% para 28,5%) e das testemunhais (de 33,3% para 17,8%). Na terça-feira (29/01/2013), observamos a queda acentuada na convocação das fontes especialistas (de 53,5% para 25%), e o crescimento das oficiais/autorizadas (de 28,5% para 41%) e testemunhais (de 17,8% para 33,3%). Nos próximos dois dias de cobertura, constatamos que a convocação das fontes por dia e por turno segue a mesma direção. Por isso, detalhamos apenas a análise diária.
A análise da duração das entrevistas também confirma o privilégio das fontes testemunhais nas primeiras horas após o acontecimento. O tempo concedido a elas foi significativamente maior (34”47’), na comparação com as autorizadas/oficiais (20”41’) e as especialistas (26”). Nos próximos dois dias de cobertura, observamos por um lado, a preponderância das fontes autorizadas/oficiais na convocação; e por outra, a primazia das especialistas quando o parâmetro é a duração da sonora.
Dessa forma, concluímos que as fontes testemunhais foram priorizadas pelos jornalistas nas primeiras horas após o fato, quando é necessário entender, ainda que de maneira preliminar, o que aconteceu. No início, ocorreu a valorização da experiência de quem sobreviveu à tragédia; depois, o retorno da lógica habitual do jornalismo (AMARAL, MOTTA, 2016) de priorizar fontes cujo capital social está baseado na autoridade ou no conhecimento.
4. Os testemunhos no caso Kiss
Considerando que “os testemunhos têm visibilidade pelo relato da sua experiência, pois presenciaram o fato, participaram diretamente da sua causa ou sofreram as consequências dele (AMARAL, 2013, p.183), observamos a fala de sobreviventes, familiares e amigos das vítimas, voluntários e moradores sensibilizados pela tragédia do ponto de vista discursivo.
Identificamos que os testemunhos cumpriram, prioritariamente, nove funções: a) confirmação da ocorrência do fato, b) apontamento das causas da tragédia, c) explicitação das consequências da tragédia, d) esclarecimento de questões polêmicas, e) dimensionamento da tragédia, f) ilustração do sofrimento, g) manifestação de revolta, h) demonstração de solidariedade e de gratidão por não ter envolvimento com a tragédia e i) ilustração do impacto da tragédia na cidade. Salientamos ainda que as quatro primeiras foram observadas apenas na fala dos sobreviventes, enquanto as outras também foram verificadas na manifestação das outras testemunhas.
Dessa forma, concluímos que a fala das testemunhas, em especial dos sobreviventes, foi a via principal de reconstituição imediata do que aconteceu. Trata-se de uma relevante modificação, visto que o jornalismo diário privilegia as fontes detentoras de autoridade e conhecimento. Porém, no caso Kiss, notamos que as testemunhas foram definidoras, pois não só ajudaram a esclarecer a tragédia ao detalharem a experiência vivida na boate, como também forneceram outros elementos necessários para a configuração e contextualização do relato.
Considerações Finais
Numa cobertura de uma situação catastrófica, evidenciam-se todas as fragilidades de estrutura dos veículos jornalísticos e toda a sorte de constrangimentos dos repórteres que precisam relatar ao vivo algo que desconhecem.
As condições de cobertura de uma tragédia são extremamente limitadas. Como lembram Lozano Ascencio, Sánchez Calero e Morales Corral (2017), há um gotejamento esporádico de dados que não permite muito mais do que a descrição dos aspectos mais superficiais e chamativos do transtorno. Boa parte deste gotejamento vem da reconstituição realizada pelos depoimentos das fontes testemunhais que cumprem importante papel nas primeiras horas, mas precisam ser expandidas e contrastadas nos momentos que se seguem.
Referências
AMARAL, M. (2013). A representação dos testemunhos no discurso das catástrofes ambientais: De sujeitos sociais a sujeitos discursivos. Revista Contracampo, 15 (3), p.182-190.
AMARAL, M. & LOZANO ASCENCIO, C. (2016). Palavras que dão a volta ao mundo: A personalização das catástrofes na mídia. Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación (130), 243-258.
ENTREVISTA CONCEDIDA pelo então coordenador interino da RBS TV Santa Maria ao Canal Brasil e disponível em: . Acesso em: 10 jan. 2018.
MOTTA, J. & AMARAL, M. (2016). Os testemunhos na cobertura jornalística do caso Kiss: Transbordamento emocional e provas de verdade. Estudos em Jornalismo e Mídia, 13 (1), 77-88.
LOZANO ASCENCIO, C., SÁNCHEZ CALERO, M. & MORALES CORRAL, E. (2017) Periodismo de riesgo y catástrofes: En los telediarios de las principales cadenas de televisión em España. Madrid, España: Editorial Fragua
PEDEMONTE, D. (2010). Conmoción pública: Los casos mediáticos y sus públicos. Buenos Aires, Argentina: La Crujía.