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Resumen de ponencia
AÇÕES COLETIVAS, NEOLIBERALISMO E DECLÍNIO DAS ESQUERDAS: Breve análise da conjuntura latino-americana na emergência das mobilizações sociais recentes nos casos Brasil e Colômbia.

*Dana Milena Chávarro Bermeo



Este trabalho tem por objetivo demonstrar que a emergência das políticas utilitaristas do neodesenvolvimentismo e do neoextrativismo latino-americanas implicou na destituição dos ideais do republicanismo e na queda dos regimes esquerda, provocando, simultaneamente, a emergência de ações coletivas preocupadas em ressignificar o mal-estar moral de tais políticas mercantis. Nesta investigação se faz importante compreender as tramas sociológicas desenvolvidas nas estruturas da sociedade latino-americana que oportunizaram a queda dos regimes de esquerda em plena conjuntura de ressurgimento do neoliberalismo.

A partir da queda dos regimes de esquerda latino-americano observa-se o surgimento de uma nova conjuntura política caracterizada pela disputa de projetos políticos antagônicos. Por um lado, esta conjuntura reflete a proposta (neo)desenvolvimentista repaginada por uma nova classe dirigente política e burocrática que se tornou representante do capital internacional; por outro lado, há o fortalecimento do neoliberalismo como tradição político-econômica fundamentada na ideia de “maximização” da ação estatal na qual a máquina pública trabalha em prol do mercado e do capital internacional. Em termos práticos, isso implica uma tríade composta pela desregulação, privatização e retraimento do estado da ordem econômica. Neste contexto emerge uma nova configuração na qual o estado assume determinadas características do mercado como a minimização das suas ações, “diluindo” o que se conhece por estado de bem-estar social (MARTINS, 2017; CAILLÉ, 2013; CUSSET, 2017).

Essa retomada do “espírito do capitalismo” provoca um mal-estar moral e emocional tanto na sociedade como nos movimentos sociais. Tais mobilizações além de identificarem a contradição na relação capital-trabalho - inserida na ideologia nacional-desenvolvimentista - também observaram a perda de direitos e a expropriação dos indivíduos no processo de fragmentação de bens sociais comuns. Essa perda, por sua vez, é representada pelo declínio da democracia e pelo esfacelamento do modelo republicanista, que apesar de suas contradições constituía uma referência institucional e jurídica relevante para organizar as lutas e assegurar certas conquistas de direitos de cidadania sob proteção do estado.

Tendo em vista esse panorama emergem algumas mobilizações com o objetivo de manter os direitos de cidadania nos ideais republicanos previstos nas cartas constitucionais. Suas ações também são uma tentativa comum de reação à degradação da ação estatal e da proteção social. Em outras palavras, estas mobilizações estão lutando pela manutenção social e, ao mesmo tempo, constituem uma denúncia do estado mínimo que precariza os direitos adquiridos. Neste contexto aludimos à “caixa de pandora” que foi aberta pelas manifestações de junho de 2013 no Brasil e pelas manifestações em defesa do processo de paz negociado na Colômbia.

Nesta conjuntura cada movimento reage segundo as particularidades políticas do país. Expliquemos melhor: no caso colombiano, a luta pela paz no contexto abertamente neoliberal pretende resolver antigos problemas de assolação estatal do conflito armado perpetuado por mais de cinco décadas. Tais manifestações provocaram pressão política para que o governo dialogasse com as guerrilhas das (FARC e ELN). Isso demonstrou o ressurgimento da mobilização cidadã e dos movimentos sociais que reivindicaram a construção de um novo acordo de paz e uma mudança radical no sistema democrático daquele país.

No caso brasileiro, as manifestações de junho de 2013 ocorreram no auge de expansão de políticas neoliberais adaptadas à lógica produtiva do (neo)desenvolvimentismo e do aparelho estatal. Tais manifestações atraíram diversos movimentos sociais, tradicionais e novos, voltados para objetivos difusos e sem bases ideológicas claras, mas em geral voltados para reivindicar políticas públicas mais igualitárias. Isso promoveu espaço para o (re)surgimento de novas lutas populares de vanguarda que têm como uma das suas metas a desmercantilização do transporte coletivo. Isto está expresso na questão da tarifa zero que se refere à luta pela permanência da proteção social do estado e a afirmação cidadã republicana de garantia de direitos para todos (ALVES, 2013, GOHN, 2017, SADER, 2017).




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* Chávarro Bermeo
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Universidade Federal de Pernambuco - PPGS/UFPE. Recife-PE, Brasil