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Resumen de ponencia
O Governo, a Imprensa e a Narrativa: Um Estudo sobre o Adversarial Journalism nas capas de O Globo e Folha de S. Paulo Durante a Crise do Governo Dilma

*Li Chang Shuen Cristina Silva Sousa



No artigo, analisamos a forma como o jornalismo adversário se manifestou nas manchetes e chamadas de capa dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo durante a crise do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. O estudo contemplou 793 unidades textuais. Defendemos a hipótese de que os jornais contribuíram, com sua narrativa, para a crise do governo eleito ao agirem como atores políticos de oposição. Os resultados mostram que os jornais se comportaram como contendores políticos e foram agentes ativos no processo de desestabilização do governo durante a crise, assumindo que o jornalismo adversário é uma instituição política de relevância no cenário nacional.
Nosso objeto de análise não é a história concreta, mas a versão que o jornalismo construiu dessa história. Nosso objetivo, portanto, não é reconstruir o processo político do impeachment, mas analisar a narrativa midiática que deu sustentação à atuação da imprensa como adversário do governo reeleito. Dito de maneira mais simples, nosso objetivo é analisar a forma como o journalismo adversário se manifestou concretamente nas páginas dos jornais durante a crise do segundo mandato de uma presidente que já sofria, em sua primeira investidura, com a oposição da imprensa.
A pesquisa contemplou manchetes e chamadas de capa de dois jornais: Folha de S. Paulo e O Globo, escolhidos por serem os dois jornais de maior circulação nacional, representativos de dois centros importantes da política e da economia brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. São, portanto, os porta-vozes das elites desses dois estados, elites estas que detêm importante parcela de poder e influência sobre o restante do país, posto que dialogam com os mesmos interesses. O ponto de partida foi o questionamento sobre a forma como o jornalismo adversário se manifesta concretamente nas notícias e nas narrativas que os jornais contam por meio de notícias supostamente isentas, porque contadas segundo a técnica jornalística.
A hipótese de trabalho é que os jornais, como instituição e atores políticos, contribuíram com a sua narrativa para desestabilizar o governo ao amplificarem uma crise que era real, mas que ganhou contornos de evento midiático durante seu desenvolvimento. A imprensa foi um partido de oposição concreto ao governo, somando-se às forças oposicionistas no Congresso Nacional. Importante salientar, porém, que não defendemos a tese da manipulação do resultado da crise pela mídia, afinal, a realidade política é complexa demais e os atores envolvidos, os mais variados, com interesses igualmente variados, mas que justamente porque convergiram, esses interesses e atores encontraram nas páginas dos jornais o local de diálogo entre eles e de enfrentamento ao governo. O jornalismo adversário foi mais um elemento de desestabilização, que se somou a outros não contemplados nesta pesquisa.
Para esta pesquisa foram consideradas apenas as manchetes e chamadas de capa publicadas pelos jornais Folha de S. Paulo e O Globo entre 27 de outubro de 2014 e 13 de maio de 2016. A opção por esses tipos textuais justifica-se pelo fato de acreditarmos que manchetes e chamadas estampadas nas capas dos jornais oferecem uma boa amostra da política editorial de qualquer veículo impresso. Afinal, é a partir da capa que os jornais seduzem seus leitores e, por ser a parte mais visível, a capa pode ser lida por qualquer pessoa: desde a que assina ou a que adquire um exemplar avulso em banca até aquela que apenas passa os olhos na edição enquanto observa a oferta nas bancas, consultórios e outros locais em que os diários ficam expostos. Optamos, assim, por também não incluir o lead que acompanha as manchetes e chamadas. Utilizamos apenas os títulos.
A composição do corpus é esta: jornais Folha de S. Paulo e O Globo, escolhidos pelo critério circulação; apenas manchetes e chamadas; apenas manchetes e chamadas com valência (viés) negativa; apenas manchetes que citam Dilma ou Presidente/a ou Governo/Planalto ou Petista (para se referir à Dilma) no título; apenas os títulos das manchetes e chamadas. Com esse recorte, processamos um total de 793 unidades textuais. Período de composição do corpus: de 27 de outubro de 2014 (dia seguinte à reeleição) a 13 de maio, dia seguinte à abertura do processo de impeachment no Senado. Consideramos, portanto, que o segundo mandato de Dilma começa em 27 de outubro de 2014 e se encerra em 12 de maio de 2016. Ao todo são 359 manchetes e chamadas da Folha e 434 de O Globo.
A análise da narrativa jornalística obedeceu aos seguintes passos: identificação da intriga; identificação dos personagens; identificação do narrador/das vozes que contam a história; reconstrução da intriga; análise. Na narração jornalística, o primeiro narrador é sempre o veículo, que subordina o narrador-jornalista que assina as reportagens (há ainda o terceiro-narrador, o personagem de quem se fala). Nesta pesquisa interessa o narrador de primeira instância ou de maior nível hierárquico: os jornais. O estudo das chamadas e manchetes de capa torna essa escolha obrigatória, afinal, esses textos (assim como os editoriais) falam pelo coletivo que denominamos jornal.




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* Silva Sousa
Brasil