O termo “voz de travesti” é utilizado corriqueiramente no Brasil para desqualificar a voz de uma pessoa, principalmente de mulheres quando sua voz está soando mais “grossa” do que o esperado de acordo com o padrão construído da voz feminina. Utilizar o termo “travesti” como adjetivo no sentido pejorativo é resultado de um processo histórico de discriminação e violência para com mulheres transgênero, ou seja, pessoas que foram designadas ao nascer como do sexo masculino por conta de seu órgão sexual, mas se identificam com o gênero feminino. No Brasil, em janeiro de 2018, às vésperas do “Dia Nacional da Visibilidade Trans”, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou um relatório informando que foram 179 homicídios de pessoas transgênero em 2017, o maior número em dez anos. Atualmente a expectativa de vida de pessoas transgênero no Brasil é, em média, de apenas 35 anos.
Na contramão das estatísticas, a banda “As Bahias e a Cozinha Mineira”, composta por duas vocalistas mulheres transgênero, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, deram um novo significado ao termo “voz de travesti” ao serem indicadas na categoria “Revelação” do Prêmio Multishow de Música Brasileira. Com seu primeiro álbum “Mulher”, lançado em 2015, as vocalistas conquistaram o público e os profissionais da música com seu trabalho autoral, suas vozes singulares e atitude implacável. Ao ocupar espaço nos palcos e na mídia com a finalidade de divulgar seu trabalho musical, Assucena e Raquel apresentam uma identidade transgênero não estereotipada.
Utilizando como suporte o conceito de identidade como discutido por Stuart Hall e Zygmunt Bauman, entende-se que a identidade não é definida no nascimento. Com base na obra de Lacan, Stuart Hall defende que nossas identidades são formadas por processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, portanto, “em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento [...] 'preenchida' a partir do nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros” (HALL, 2015, p. 24). Como argumenta Bauman, trata-se de uma batalha constante, um objetivo, uma tarefa sem finitude de uma vida toda, em busca de pertencimento. Ter uma identidade ou “portar uma identidade” é um processo de escolha entre alternativas que são apresentadas aos indivíduos desde o seu nascimento até sua morte. Dessa forma, Assucena e Raquel podem ser vistas como matéria prima desse processo de identificação. Elas apresentam uma nova alternativa, um novo referencial para a sociedade em geral.
Além disso, como esclarece Bauman, a identificação é um fator poderoso de estratificação. Enquanto alguns indivíduos podem constituir e articular suas identidades, outros “tiveram negado o acesso à escolha da identidade, [...] se veem oprimidos por identidades aplicadas e impostas [...]. Identidades que estereotipam, humilham, desumanizam, estigmatizam (BAUMAN, 2005, p. 44). A população transgênero é estereotipada, humilhada, desumanizada e estigmatizada até o nível mais violento possível. Muitos indivíduos não veem essa parcela da população como pessoas. Excluída do convívio familiar, da escola e das demais instituições, abandonada pelo Estado e exposta à violência tanto verbal quanto física, a população transgênero tem negado o direito à identidade humana. Dessa forma, acredita-se que a apresentação do trabalho artístico da banda “As Bahias e a Cozinha Mineira” e o consequente papel que as cantoras passam a ocupar no processo de identificação dos indivíduos compõem um ato necessário e urgente.
Bauman apresenta o conceito de identificação como “um grito de guerra usado numa luta defensiva: um indivíduo contra o ataque de um grupo, um grupo menor e mais fraco (e por isso ameaçado) contra uma totalidade maior e dotada de mais recursos (e por isso ameaçadora)” (BAUMAN, 2005, p. 82). A comunidade transgênero luta uma guerra composta por batalhas de vários níveis, incluindo a batalha que é o simples ato de sair de casa e se locomover. Sobreviver é uma vitória diária. Nesse contexto a música “Dama da Night”, do segundo álbum da banda “As Bahias e a Cozinha Mineira”, intitulado “Bixa”, aparece como um grito de luta, de afirmação e de resistência:
No bueiro abaixo correm os ratos
No puleiro acima cruzam as pombas
Entre fios elétricos, pululam veados
Escondendo suas trombas
No chão de pista, apareço de salto
Frenetic, feito tigresa braga
Meto na cara maquiagem brega
Canto de galo à luz da madrugada
Sou diva, sou diva
Deusa urbana,
Sou a dama da night
Sou diva, sou diva
O meu vestido é vermelho neon
Sou diva, sou diva
A Paulicéia desvairada é meu site
Sou diva, sou diva
Artilharia da pesada é rímel, lápis...,
Com batom
As armas que são utilizadas nessa luta são elementos básicos do cotidiano de muitas mulheres, como vestidos e maquiagem, mas que nas mãos de uma mulher transgênero se tornam contestação, agridem o olhar do outro e tomam uma posição de ataque que obriga o inimigo a recuar.
Diante desse cenário, e do entendimento que, como argumenta Bauman, a luta por identificação com uma comunidade, vem do desejo de segurança e de abrigo, o objetivo dessa pesquisa de mestrado em andamento é investigar elementos que possam unir as diferentes vivências da população transgênero em uma narrativa cultural que gere identificação a todos e fortaleça essa comunidade através da exposição de identidades humanas não estereotipadas.
A hipótese da pesquisa é que o fortalecimento da narrativa identitária pode agir paralelamente em dois sentidos: abrigo psicológico (identificação dos indivíduos com uma comunidade, sentimento de pertencimento); e abrigo físico (exposição de identidades não estereotipadas e estigmatizadas que podem agir de forma a humanizá-los). Como hipótese secundária, acredita-se que é possível trabalhar nessa construção tomando como exemplo a construção da identidade nacional, que, como esclarece Stuart Hall, só foi possível com a criação da “narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas [...] simbolizam ou representam as experiências partilhadas [...] que dão sentido à nação" (HALL, 2015, p. 31). Acredita-se também que, da mesma forma que Béthune fala sobre o hip hop e como a apresentação de um artista “também constitui uma ocasião na qual a coletividade inteira possa se manifestar, se encontrar e aparecer precisamente enquanto minoria” (BÉTHUNE, 2015, p. 45), defender os representantes da cultura LGBT pode ser um modo de trilhar o caminho em busca de identificação e fortalecimento dessa comunidade.
Durante os meses de junho, julho e agosto serão realizadas entrevistas, tanto no Brasil quanto na Argentina, com pessoas da comunidade LGBT em geral, que já tenham sofrido ou não violência, em busca de relatos sobre identificação e pertencimento, assim como sobre a importância e o papel dos artistas LGBT na vida dessas pessoas. Serão entrevistados também sujeitos da comunidade LGBT que podem ser considerados formadores de opinião, como jornalistas, professores, pesquisadores e representantes da classe artística. Será realizado um estudo comparado entre o Brasil e a Argentina. No ranking dos países da América Latina com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2017, o Brasil ficou na posição de número 17 e a Argentina na de número 4. Busca-se, portanto, entender se esse índice reflete positivamente nas questões de violência e pertencimento abordadas acima. O resultado dessa pesquisa de campo será apresentado no formato de um documentário e de uma dissertação que irá dialogar com o referencial teórico escolhido. Os resultados prévios da pesquisa podem ser apresentados em primeira mão na 8a. Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
BÉTHUNE, Christian. A propósito da expressão “menor”: o que o rap faz à cultura dominante. In: AMARAL, Mônica do. CARRIL, Lourdes (Org.). O hip hop e as diásporas africanas na modernidade: uma discussão contemporânea sobre cultura e educação. São Paulo: Alameda, 2015.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015.
______. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz T. da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.