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Resumen de ponencia
A difusão de produções audiovisuais como ativismo cultural: estudo de caso sobre o coletivo de jovens TV DOC Capão, na periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo

*Livia Almendary



Nas grandes metrópoles da América Latina, processos políticos, econômicos, urbanísticos, sociais, e culturais marcam o espaço urbano com desigualdades. Esses processos, contudo, também produzem práticas e relações que disputam valores, interpretações e ocupações do território e da vida cotidiana, em um movimento dialético de “ordem” e “contraordem” (SANTOS, 2010).

Nesse processo de disputa, há na América Latina, atualmente, novas tendências de perfis militantes, como sugere a pesquisadora argentina Maristella Svampa (2010). Entre essas tendências, a autora aponta uma matriz político-ideológica que conjugou a noção de território, ação direta, modelos de organização mais horizontais e a reivindicação da autonomia em novas formas de atuação relacionadas ao território e à cultura (militante territorial, de bairro, ativista cultural).

Aproximando o olhar para a cidade de São Paulo, Brasil a partir da sugestão de Svampa, observa-se que, para além de espaço de atuação de movimentos sociais historicamente reconhecidos, os bairros mais afastados do centro de São Paulo vêm se configurando como polos irradiadores de diversas atividades culturais – produção de cinema, teatro, saraus, slams, feiras, festivais, jornais e outras – motorizadas por coletivos locais (formados em sua maioria por jovens) que valorizam o cultural como forma política de rebeldia e resistência (MARTIN BARBERO, 1997).

Os coletivos em questão, ao disputarem o território onde estão baseados (BORELLI; CUBIDES; UNDA; VAZQUEZ, 2015), deslocam, descentralizam, desestabilizam a ideia de uma dicotomia centro-periferia, e suas manifestações evidenciam possibilidades – longe dos locais tradicionalmente hegemônicos – de se criar uma vida sociocultural alternativa às propostas hegemônicas e de acesso restrito comumente relacionadas ao centro, sugerindo a construção de imaginários, visões políticas, sociais e espaciais a partir de suas próprias percepções (BORELLI; ROCHA; OLIVEIRA, 2009).

Em meio a essas práticas culturais, o audiovisual tende a se destacar por vários fatores, entre eles: a democratização do acesso aos meios de produção de imagem e som; o potencial de alcance e impacto devido à familiaridade com que o universo audiovisual atravessa todas as relações sociais hoje; e a capacidade desses materiais circularem por redes e mídias sociais, além de espaços territorialmente localizados junto aos próprios coletivos produtores desses materiais.

O presente trabalho faz parte de uma pesquisa mais ampla (i) que investiga como grupos e coletivos ligados ao audiovisual das periferias da cidade de São Paulo difundem e distribuem suas próprias produções.

Neste recorte, o presente trabalho examina o caso particular do coletivo TV DOC Capão. Sediado no Capão Redondo, Zona Sul da cidade, reúne diversas frentes ligadas ao audiovisual: mídia independente, oficina itinerante de audiovisual para jovens e uma produtora que oferece serviços audiovisuais para a população, como forma de tentar garantir a independência financeira dos projetos. Em 2017, na perspectiva da difusão e distribuição de seus próprios materiais, assim como de formação de público local, criaram um cineclube como espaço de exibição de filmes, que funciona junto a um sarau, também promovido pelo grupo.

O estudo de caso da TV DOC busca elucidar como essas e outras iniciativas ressignificam as ideias de território e cultura, criando mecanismos de resistência e formas contra-hegemônicas de organização, ocupação do espaço, relações cotidianas e atuação no campo da cultura.

(i) Pesquisa de mestrado sobre a circulação de bens culturais, em particular audiovisuais, produzidos por coletivos inter-geracionais sediados nas periferias da cidade de São Paulo, desenvolvida também no âmbito do Grupo de Pesquisa "Imagens, metrópoles e culturas juvenis" [CNPq;
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais/Depto. de Antropologia (PUC-SP)].

BIBLIOGRAFIA CITADA

BORELLI, S.H.S.; CUBIDES, Humberto C., UNDA, René y VAZQUEZ, M. (eds.). Juventudes latinoamericanas prácticas socioculturales, políticas y políticas públicas. Argentina/ Colômbia: CLACSO-Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales/ CINDE-Universidad de Manizales. 2015. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20121207040846/Jovenes_politica_cultura.pdf. Consultado em 16 de outubro de 2017.

BORELLI, S. H. S.; ROCHA, R. M.; OLIVEIRA, R. A. Jovens na cena metropolitana. Percepções, narrativas e modos de comunicação. São Paulo: Paulinas, 2009.

MARTIN BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. Comunicação, cultura, hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 19ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

SVAMPA, Maristella. "Movimientos Sociales, matrices socio-políticos y nuevos escenarios en América Latina" (2010). Disponível no site oficial da autora: http://maristellasvampa.net/archivos/ensayo58.pdf. Consultado em 9 de abril de 2018.




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* Almendary
Programa de Estudo Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia. Universidade Católica de São Paulo - PEPG/PUCSP. São Paulo, Brasil