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Resumen de ponencia
IGREJA DECOLONIAL

*Danilo Macruz Inácio



HINO DA PRELAZIA DE SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA

Do Araguaia até o Xingu
Do Pará ao Travessão
Prelazia de São Félix
Povo de Deus no Sertão!

Nas águas, na terra, na ilha, na Serra
Na mata, na aldeia, na rua, na estrada
Um só povo em caminhada
Que lutando, unidi, vai
Buscando a casa do Pai!

O Senhor Ressucitado
Nos tirou da escravidão,
Pra vivermos libertados
Do pecado e da opressão.

Batizados no seu Filho,
O Pai nos faz filhos de Deus
E nos irmana o Espírito
Na Igreja, Povo de Deus.

A luta do dia-a-dia
Nos faz irmãos dos irmãos
E a Páscoa da Eucaristia
Confirma nossa união.

Se acreditamos no homem
É porque cremos em Deus
Queremos nova esta terra,
Porque esperamos os Céus.

IGREJA DECOLONIAL
Este artigo se propõe a apresentar pontos de convergências da Teologia da Libertação com a decolonialidade. Mostrando como a ação da igreja católica a partir da década de 60, juntamente com os povos oprimidos no contexto do conflito agrário e da ditadura militar no Brasil, apresentou sujeitos e estratégias de lutas na busca por justiça.

Um protagonista dessa luta pela igualdade social no campo e também um expoente da Teologia da Libertação na América Latina é Dom Pedro Casaldáliga. De origem catalã escolhe a região conflituosa do nordeste do estado do Mato Grosso para iniciar seu processo de luta ao lado do povo. Esta região que é cortada pelo Rio Araguaia é pertencente ao território da Amazônia Legal, mas mesmo assim é devastada até os dias atuais pelos latifúndios pertencentes a empresários principalmente provenientes do sul e sudeste brasileiro. Esse território tem pouca inserção e atuação do poder público, além da expulsão dos indígenas das suas terras sagradas.

Casaldáliga escolhe São Félix do Araguaia-MT para fincar seu pé descalço sobre a terra vermelha, esse município foi a primeira sede da Prelazia de São Félix do Araguaia, onde Pedro foi consagrado como Bispo. A nova prelazia abrange uma grande região com muitos municípios e distritos mas com muita dificuldade de acesso.

O Bispo Dom Pedro ao iniciar seus projetos e trabalhos com a opção pela luta ao lado dos oprimidos, percebe que os opressores possuem recursos econômicos e interferências no poder público local e regional, decidindo ir em busca de pessoas ligadas ou não às igrejas, para construírem juntos os processos de emancipação. Durante a ditadura organiza reuniões clandestinas nas universidades (principalmente do sudeste), contando da realidade local e de que precisavam de mais pessoas de mãos dadas para conseguir continuar os projetos. A prelazia começa uma organização em conjunto dos agentes pastorais com alguns principais eixos: educação, saúde, política, pastoral, indígena, terra.

Os agentes pastorais eram tanto pessoas da região quanto pessoas provenientes de outros estados brasileiros e de outras classes sociais, como universitários, militantes, artistas, seminaristas, educadores sociais, profissionais de saúde, que acreditavam em novas possibilidades de justiça social no campo.

Esses sujeitos, Dom Pedro e agentes sociais, nesse momento de conflito político mobilizaram estratégias de lutas como criação das entidades: CPT (Comissão Pastoral da Terra) e Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Além dessas entidades, foram importantes para ampliar o processo, as CEB’s (Comunidades eclesiais de base).

A CPT é uma importante entidade no processo de luta pela reforma agrária. Que mesmo nesse momento de censura e perseguição política conseguiu reconfigurar o contexto de repressão da população do Araguaia, indígenas, posseiros, peões. A CPT tem como um dos seus objetivos ser uma ferramenta de denúncia, proteção, apoio, às minorias oprimidas que passam pelo processo de conflito da terra.
Assim como a CPT o Cimi também foi criado com intuito de fortalecer a causa indígena pela demarcação territorial. “O Cimi é um organismo vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que, em sua atuação missionária, conferiu um novo sentido ao trabalho da igreja católica junto aos povos indígenas.” Tal conselho, criado em 1972, trabalha em consonância com os povos indígenas em prol da integração destes com a sociedade brasileira. As dinâmicas promovidas pelo Cimi articulavam assembleias indígenas para assegurar os seus direitos à diversidade cultural.
Nesta mesma perspectiva da luta pela terra, a prelazia utilizava das CEB’s como ferramenta de ramificação dos processos de conscientização da opressão, por meio do trabalho de base.
As CEB’s se ramificaram nos municípios e distritos que a prelazia abrangia, isso trazia um trabalho de base mais forte, onde se discutiam os problemas da comunidade, política, educação, saúde, latifúndios, opressão, além da parte litúrgica.
A conscientização da opressão por parte das trabalhadoras do campo levava a uma provocação perante aos opressores, que contratavam essas pessoas em sistemas semi-escravocratas, mal pagos, explorados, locais insalubres. Mas a emancipação destas pessoas juntamente com a igreja, conseguiam realizar tensionamentos.

Todas essas estratégias de luta supracitadas, utilizadas pela prelazia, foram baseadas na Teologia da Libertação que tem sua fundação após o Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado pelo Papa João XXIII. Este Concílio foi um marco dentro da Igreja Católica, pois inicia-se uma movimentação dentro desta instituição que tentou uma aproximação do evangelho, da teoria e da ação.
Uma das críticas desse Concílio era direcionada à distância da igreja e da realidade da população pobre, explorada, oprimida. E ao fato da igreja ainda possuir uma quantidade relevante de bens materiais, entrando em contradição com a luta contra o capitalismo e no acúmulo de dinheiro. O que provocou uma reação de vários bispos do mundo, principalmente na América Latina, além de teóricos afins. Tais como: Dom Hélder Câmara, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Tomás Balduíno, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Leônidas Proaño, Dom Oscar Romero, Leonardo Boff, Clodovis Boff, Frei Betto, Enrique Dussel, Gustavo Gutiérrez, Marcelo Barros, Pablo Richard, Juan Luis Segundo, Segundo Galilea, Jon Sobrino, José Comblin, Hugo Assmann. Esses são alguns dos nomes fortes da Teologia da Libertação, alguns deles de origem européia, mas com expressão do seu trabalho de base realizado no continente latino.

A Teologia da Libertação gera grandes inquietações dentro da igreja católica o que leva ao afastamento de alguns destes nomes fortes dentro da corrente. Mas mesmo expulsos da igreja e sem a batina seguem na luta, escrevendo e disseminando os fortes votos da igreja dos pobres.

Com reflexões socialistas e trabalhos de base, contra o latifúndio e o acúmulo de capital, segue a prelazia nas mãos de Dom Pedro, em movimentos conjuntos com a população local e migrantes, além de jovens provenientes de outros estados brasileiros.
As convergências da Teologia da Libertação com a decolonialidade podem ser percebidas na construção de novas possibilidades que se configuram nas estratégias de luta adotadas pelos sujeitos no contexto dos conflitos agrários na região do Araguaia. O empoderamento destes sujeitos pela conscientização, organização coletiva, processos de educação popular, podem ser considerados um enfrentamento da colonialidade do ser, do saber e do poder.
O fato de se saberem explorados e se vêem enquanto protagonistas da luta pode ser considerado um processo de emancipação da opressão que resultou em terras reconhecidas, em demarcação territorial, agricultura de subsistência, formação popular.
Processos esses que se configuram contra a opressão, contra a nossa história da escravidão e do patriarcado, que ainda perduram nos dias e hoje. A luta indígena na tentativa de resgate de suas terras das mãos dos colonizadores. O fortalecimento das bases e movimentos sociais que tencionam os latifundiários e o poder público.
DE DONDE VENGO YO
Minha mãe e meu pai são paulistas e estudavam na USP durante a ditadura militar, participando dos movimentos estudantis, e foram a uma das reuniões com Pedro. Se encantaram com a ideia de resolveram escrever uma carta para a prelazia. Eles demoraram um ano para aceitarem os dois, pois como estavam em período de ditadura, desconfiavam de tudo. Eles viveram em Porto Alegre do Norte durante 13 anos, onde nascemos Jana (82), Giba (84) e eu em 87. Escrevo esta parte para dizer que muitas das informações aqui contidas são estórias e histórias que escuto desde pequeno, por muita gente que participou destes processos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Portais visitados em 3 de julho de 2017:
www.cimi.org.br
www.cptnacional.org.br
www.prelaziasaofelixdoaraguaia.org.br


CAMILO, Rodrigo Augusto Leão. A AÇÃO POLÍTICA DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO HOJE: ESTUDO DE CASO DA PRELAZIA DE SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA (MT). UFG, 2013;

CASALDÁLIGA, Pedro. Questão agrária, uma questão política. Depoimento perante a CPI da terra. Brasília, 1977;
_____________________. Uma Igreja da amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. Carta episcopal, 1971;

ESCRIBANO, Francesc. Descalço sobre a Terra Vermelha – a vida do bispo Casaldáliga, Campinas, Editora Unicamp, 2014;

ESTERCI, N. Conflito no Araguaia: Peões e posseiros contra a grande empresa. Petrópolis: Vozes, 1987;

NASCIMENTO, Claudiomiro. IGREJA CATÓLICA E A LUTA PELA REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.14, n.1, p.175-196, 2010;

SANTOS, Paulo Cesar Moreira. ARAGUAIA: ENTRE PALAVRAS, ROÇAS E FUZIS. A PEDAGOGIA DOS AGENTES PASTORAIS N0 NORDESTE MATOGROSSENSE, NOS ANOS 1960/1970. UFMT, 2014;

SILVA, Sandro Ramon Ferreira da. O tempo das utopias. Religião e romantismos revolucionários no imaginário da Teologia da Libertação dos anos 1960 aos 1990. UFF, 2013;




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* Macruz Inácio
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil