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Resumen de ponencia
O islamismo no governo Bush: As identidades Internacionais e a outracização do Irã

*Pedro Henrique Silva De Oliveira



As Relações Internacionais (RIs), desde sua origem como disciplina, demonstrou pouco interesse pela historicidade crítica, optando por uma visão mais sistêmica e positivista de seu campo. As transformações históricas parecem tornar-se dispensável perante a característica principal atribuída às RIs. A ideia de “anarquia” acaba conferindo ao Sistema Internacional (SI) uma espécie de atemporalidade, pois ela seria inerente ao mesmo (SETH, 2013). A pretensão e a necessidade de universalização são os principais argumentos do eurocentrismo, elemento basilar para as teorias canônicas das RIs. Em contraste com as demais organizações e instituições sociais, “bárbaras”, o Sistema Internacional moderno seria horizontalizado, baseado em éticas plurais e sem uma hierarquia única; um sistema civilizado a se espalhar pelo mundo. (SETH, 2013).
Desta forma, pretende-se compreender de que forma uma outracização serviu de instrumento discursivo/político para o processo de securitização do Irã durante o governo de George W. Bush? Como objetivo, parte-se da ideia de que as identidades internacionais, criadas pelo colonialismo, ainda permeiam a política internacional e que servem como instrumentos discursivos que agentes securitizadores se utilizam durante o seu ato de fala (BALZACQ, 2005). Tais identidades foram construídas a partir de um reducionismo a traços básicos de povos e populações, transformando-as em arquétipos (SAID, 1978).
Ao denunciar o Irã, George W. Bush utiliza-se da identidade islâmica do país como uma fonte de dicotomia, valendo-se dela como diferença fundamental e irreconciliável à identidade ocidental, um estranho, um “Outro”. Como para o ato de securitização o conhecimento factual não é necessário, emprega-se um conjunto de ferramentas discursivas, que demonstram continuidade com as empregadas durante o período colonial, principalmente, o uso de identidades baseadas nesse esquema classificatório.
Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram um marco para a inserção do tema na Agenda Internacional. Percebe-se que, a partir desta data, o discurso norte-americano sobre o Islamismo mudou caricaturando as populações islâmicas. Ao realizar esse movimento, o discurso transformou os povos islâmicos em um “adversário” a ser combatido. Ao classificar e hierarquizar o “Islã” se utilizou de uma complexa rede de representações previamente existentes sobre o assunto (DOTY, 1996) para removê-lo da esfera normal e o elevar como um tema de “segurança” (BUZAN, 1998).
Os discursos ocidentais sobre o Islã demonstram continuidade com os discursos coloniais, ao buscar empregar significantes que remontam àqueles usados pelos colonizadores. Por exemplo, em seu famoso “Discurso sobre o Estado da União, de 29 de Janeiro de 2002”, o Presidente Bush afirmou que: “O Irã busca agressivamente essas armas (de destruição em massa) e exporta terror, enquanto uma minoria não eleita reprime a esperança do povo iraniano pela liberdade”, Nota-se que o então Presidente categorizou a população Iraniana em dois grupos: uma minoria que busca conflito e uma maioria amante da “liberdade”, que não possui agência para atingi-la.
O emprego desses significantes é ainda mais relevante ao se analisar como a os EUA lidaram com o programa nuclear do Irã durante a gestão Bush. Apesar do país ser um signatário original do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o presidente norte-americano atacou veementemente o programa nuclear iraniano, alegando que ele buscava a produção de armas atômicas. Em sua fala para a 89ª Convenção Nacional Anual da Legião Americana, em 28 de agosto de 2007, o então presidente, defendeu que “a busca ativa do Irã por tecnologias, que poderiam levar a armas nucleares, ameaça colocar uma região, já conhecida por instabilidade e violência, sob a sombra de um holocausto nuclear”. Em seus discursos sobre o Oriente Médio, observa-se a ênfase na identidade islâmica dos seus adversários: “nos encontramos, hoje, em um momento crítico para o nosso país. A América está envolvida em uma grande luta ideológica  lutando contra extremistas islâmicos em todo o mundo”. Nessa fala, pode-se analisar a maneira como o Presidente dividiu o mundo: “extremistas islâmicos” e o “resto”; essa divisão foi baseada num imaginário sobre o islamismo, criando uma dicotomia de us vs them.
Como contraste, cabe observar o discurso realizado por outro Presidente norte-americano, Bill Clinton, após o primeiro teste oficial indiano de armamentos nucleares, em 1998: “[...] a Índia tem sido, sem dúvida, a democracia mais bem sucedida da história nos últimos 50 anos, porque eles preservaram a democracia diante de uma diversidade e dificuldade absolutamente absurdas e pressões internas e externas” (OFFICE OF THE PRIME MINISTER, 1998). Ressalta-se a importância dada por Clinton na construção de uma identidade baseada em um dos principais valores ocidentais compartilhados entre os dois países: a Democracia. O presidente (HAYES, 2009), ressaltou o quão semelhantes são os valores entre os Estados Unidos – o Ocidentais – e a Índia. Os contrastes das reações com a Índia e o Irã mostram a relação dúbia/relativa entre os valores do Ocidente e seu suposto universalismo. A Índia é um ator responsável, pois demonstra valores ocidentais, já o Irã, um ator irresponsável pela ausência desses valores.
No presente projeto utilizar-se-á pesquisa documental, principalmente. A metodologia empregada será primariamente a documentação indireta, técnica essa que consiste no levantamento de dados sobre o assunto a ser pesquisado, utilizando-se da pesquisa documental, uma vez que se fará uso de fontes primárias – no caso os discursos do Presidente George W. Bush , assim como a pesquisa bibliográfica, pois serão buscadas fontes secundárias. O método histórico e investigativo também será empregado, quando se realizar uma analise dos discursos do Presidente Bush e como foi problematizada a questão da identidade islâmica neles. Os dados levantados serão de periódicos, artigos, discursos e livros relevantes sobre o tema. A abordagem implicada é a da pesquisa qualitativa, uma vez que terá um caráter basicamente exploratório, buscando caminhos mais adequados para analisar e solucionar o problema de pesquisa.
Como resultados preliminares, observou-se que as teorias pós-positivistas do Sistema Internacional questionam a abordagem estrutural das Relações Internacionais. Fez-se uso, principalmente, da Escola de Copenhagen e da teoria pós-colonial.
Dentro da teoria pós colonial, foi trabalhado o seu cânone teórico original, utilizando, principalmente, autores como Edward Said, em sua obra de 1978 “Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente”. Utilizou-se, também, a vertente teórica especializada em Relações Internacionais.
Outra escola teórica fundamental para o trabalho foi a Escola de Copenhagen, originária em 1983, que buscou demonstrar os aspectos sociais da Segurança, principalmente, o seu conceito de Securitização. Este, nas Relações Internacionais, é o processo que os atores estatais realizam para remover assuntos da esfera comum e transformá-los em questões de “Segurança”, feito através de um “ato de fala”. Um assunto securitizado não necessariamente significa que é uma questão essencial para a sobrevivência objetiva de um Estado, mas, apenas, que é percebido como tal. Balzacq (2005, p.179) argumenta que uma ação securitizada “depende da capacidade discursiva de, efetivamente, transformar uma situação com tal natureza”. Por sua origem, a securitização é um processo intersubjetivo, sendo o resultado da interação entre o agente securitizador, o ato de fala que permite a securitização e a audiência que aceita (ou rejeita), a inclusão do tema na agenda de segurança (BUZAN, WEAVER e WILDE, 1998). Tomando como base essas Escolas de pensamento, analisou-se, os discursos do presidente Bush durante o seu mandato (20/01/2001  20/01/2009) e uma observação do processo de securitização do Irã, sempre comparando seu discurso com falas orientalistas, mostrando o quão inspirado na identidade internacional criada sobre o Islã ele se mostrou e as continuidades dessa fala com recursos discursivos usados durante o colonialismo. Além disso, foi feito uma breve síntese comparativa com outros processos de securitização com atores não Islâmicos, como o caso da Índia em 1998. O motivo pela qual essas teorias foram escolhidas deve-se à importância do conhecimento e do contexto para a criação de uma “ameaça”. Ainda que as teorias possam divergir, ambas enfatizam a importância de estruturas existentes na tomada de decisão e fornecem uma lente de analise adequada para a situação em foco.
Referências bibliográficas
BALZACQ, Thierry. The Three Faces of Securitization: Political Agency, Audience and Context. European Journal of International Relations. 2005.
BUSH, George W. President Delivers State of the Union Address. 2002. Disponível em: . Acesso em: 19 set. 2017.
BUSH, George W. President Bush Addresses the 89th Annual National Convention of the American Legion. 2007. Disponível em: . Acesso em: 19 set 2017.
BUZAN, B.; WEAVER, O.; de WILDE, J. Security – A New Framework for Analysis. Colorado: Lynne Rinner Publishers, Inc., Boulder. 1998.
CLINTON, Bill. Remarks by the President on U.S.-China Relations in the 21st Century. 1998. Disponível em: . Acesso em: 23 set. 2017.
JONES, Branwen Gruffyd. Decolonizing International Relations. CIDADE: Rowman & Littlefield Publishers, 2006.
PASHA, Mustapha Kamal. Fractured Worlds: Islam, Identity, and International Relations. Global Society. 2005.
SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SETH, Sanjay. Post-colonial Theory and International Relations: a Critical Introduction. New York: Routled




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* Silva De Oliveira
Universidade Federal de Pelotas UFPel. Pelotas, Brasil