O debate acerca do aumento da produtividade como um mecanismo central para o desenvolvimento dos países periféricos se verifica em larga escala entre os autores clássicos vinculados à CEPAL. Dentre vários autores dessa escola que apontam o aumento da produtividade como ponto central para o desenvolvimento, dar-se-á destaque na análise da obra de dois desses autores: Raúl Prebisch e Celso Furtado. A evolução do pensamento cepalino no que tange ao debate sobre a importância do crescimento da produtividade para o desenvolvimento econômico passa também pela evolução do pensamento desses dois autores, ambos ao longo do tempo aprofundam esse debate, inclusive alterando em determinada forma a abordagem sobre o tema.
Em relação à obra de Prebisch, se verifica que um dos seus principais textos datado de 1949,” Dessarrollo económico de la América Latina y algunos de sus principales problemas”, o autor apresenta em grande medida que o aumento da produtividade é a chave para o progresso técnico e a manutenção na América Latina dos frutos oriundos desse aumento na produtividade irão contribuir para o desenvolvimento da região. Posteriormente em seu livro de 1981, “Capitalismo periférico”, o autor mantém a produtividade como uma chave essencial para o desenvolvimento da América Latina, todavia, ele já aponta para a necessidade de controlar o destino dos frutos originados pelo aumento da produtividade, no qual não apenas é necessário manter esses lucros na América Latina, como deve-se atentar para que esses frutos não sejam basicamente destinados para a acumulação das classes mais altas da sociedade.
Na obra de Furtado há uma trajetória semelhante à percorrida por Prebisch, na qual Furtado aponta em suas obras como “Formação econômica da América Latina” e “Desarrollo y estancamiento en America Latina” o aumento da produtividade, a qual estaria atrelada ao crescimento do setor industrial dos países latino-americanos, como ponto chave para o desenvolvimento. Contudo, Furtado apesar de manter esse enfoque já aponta para o caráter concentrador de renda do avanço da indústria e consequente incremento da produtividade nesses países. Dessa forma, Furtado também aponta para os problemas decorrentes do avanço da industrialização nesses países.
A crença de ambos os autores no aumento da produtividade como ponto central para o desenvolvimento, é suplantada por dois fatores que permeiam suas obras. Sendo o primeiro, o modelo dualista da Cepal, no qual há um setor atrasado, baseado na agricultura e um setor moderno, sobretudo industrial. Dessa forma, na lógica adotada pelos autores, para alcançar o desenvolvimento é necessário alcançar uma economia baseada no setor moderno, o qual possui maior produtividade e consequentemente gerará maiores rendimentos para a economia desses países, possibilitando o desenvolvimento econômico. Argumenta-se nesse trabalho, junto com Francisco de Oliveira, que Furtado e Prebisch possuem uma visão etapista de desenvolvimento, na qual caso os países periféricos cumpram as etapas pré-estabelecidas alcançarão o status de país desenvolvido.
O segundo ponto que baseia a teoria dos dois autores e justifica a argumentação de ambos para a defesa do crescimento da produtividade como chave para o desenvolvimento, é a afirmação de que é necessário acumular poupança para realizar investimentos. Ambos os autores se aproximam da teoria econômica neoclássica, no ponto em que defendem o acumulo de poupança pelos países latino-americanos para que esses possam realizar os investimentos necessários. Dessa forma, o caminho mais eficaz para acumular poupança seria aumentar a produtividade do trabalho na economia, fator que geraria um aumento dos rendimentos na economia local e possibilitaria um amplo acumulo de poupança e assim os países poderiam alcançar o caminho virtuoso para o desenvolvimento.
Justifica-se a análise das obras de ambos os autores supracitados no que tange à questão do aumento da produtividade como mecanismo chave, dada sua importância para a compreensão da economia atual, no ponto em ambos exercem influência no debate acerca da desindustrialização das economias latino-americanas desde as décadas de 1980 e 1990, bem como seu aprofundamento após a crise de 2008. Além desse fator, ambos também exercem influência sobre a política econômica difundida pela Cepal nos anos atuais, na qual os autores são conhecidos como neo-estruturalistas.
Como contraponto à visão de Prebisch e Furtado com relação à centralidade do aumento da produtividade para o desenvolvimento, será utilizado Ruy Mauro Marini, um dos precursores da Teoria Marxista da Dependência. Marini compreende em seu ensaio intitulado “Dialética da Dependência” que com o aumento da produtividade o trabalhador cria mais produtos no mesmo tempo trabalhado, contudo não cria mais valor, dessa forma esse movimento permite ao capitalista rebaixar o valor individual das suas mercadorias em relação às condições atribuídas pela produção, dessa forma o aumento da produtividade cumpre o papel de gerar mais-valia extraordinária para o capitalista.