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Resumen de ponencia
Comunicação e contra-hegemonia no Brasil: decolonialidade e edupolítica dos movimentos sociais contemporâneos

*Filipe Augusto Couto Barbosa



Este trabalho resume parte do meu estudo de doutorado em Sociologia, no qual busco explicar as novas práticas comunicativas dos movimentos sociais em contextos políticos multiculturais, especialmente, em sociedades resultantes de processos coloniais, como é o caso da sociedade brasileira e de várias outras nas Américas.
Em parte, este trabalho é uma revisão e uma crítica cultural das teorias dos movimentos sociais e da modernidade. Seja em se entendendo os movimentos sociais em seus aspectos de classe, seja em seus aspectos individuais, aqueles como próprios do capitalismo industrial e os últimos como próprios do capitalismo pós-industrial, sobrepuja-se um movimento que no mundo social é muito mais estrutural que o dos modos de produção ou da psicologia dos indivíduos, que é a composição e dinâmica da cultura.
A compreensão dos movimentos sociais do início do século XX em termos de classes sociais faz mais sentido que hoje, mas ainda assim invisibilizou a questão racial que ainda marcava todas as sociedades coloniais e pós-coloniais, com políticas de apartheid e branqueamento amparadas por teorias evolucionistas e modernistas. Da mesma maneira, as teorias individualistas liberais e universalistas sobre os chamados ‘novos movimentos sociais’ nos ajudaram a compreender as práticas de mobilização política em termos de ‘identidades sociais’ – ‘o pessoal é o político’ –, mas estas não bastam para compreender o pano de fundo cultural que diferencia o ‘maio de 68’ dos levantes indígenas de Chiapas em 1994, quando o Ejército Zapatista de Liberación Nacional derrubou o governo mexicano na parte sul do território nacional, concretizando uma resistência de praticamente 500 anos. Ou seja, tanto a compreensão dos movimentos sociais em termos de classes sociais quanto em termos de engajamento individual a alguma modalidade genérica de contracultura oculta a continuidade dos processos de colonização que subjazem as estruturas sociais das sociedades coloniais e pós-coloniais, e, com isso, oculta também as resistências que tem reconquistado espaço; e não só fisicamente, mas nas disputas simbólicas do imaginário, em busca de uma descolonização da comunicação intercultural.
Com as mudanças políticas avindas com a democratização e com as mudanças comunicacionais advindas com as novas tecnologias digitais, as relações entre indivíduos e movimentos sociais adquirem uma nova dimensão. Com tais mudanças, inicia-se um processo de descriminalização dos movimentos sociais e a nova distribuição do poder comunicacional transforma radicalmente a indústria cultural, tornando pequenos focos de resistência cultural e social verdadeiras fontes de contra-hegemonia. Em especial, com o advento da internet 2.0 (ou web social), gerações de povos antes desarticulados por deslocamentos geográficos forçados, escravização e etnocídio reencontram referências culturais perdidas em passados de dominação e começam a aderir às novas redes de ativismo. Assim sendo, na contemporaneidade, as relações dos sujeitos com os movimentos sociais se desloca e espraia sobre a espacialidade do Real, com interações que de certa forma independem da distância e que se dão quase à velocidade da luz por meio de redes digitais e plataformas virtuais, sujeitos estes que começam a se identificar e reconhecer as suas matrizes étnicas. Ou seja, o que mobiliza os indivíduos, fundidos à própria rede, que é translocal e transcultural, transcende os elementos que caracterizariam as classes sociais como produto das relações econômicas ou da escolha individual como fator principal no engajamento político, fazendo reascender as potências culturais subalternizadas no processo de colonização, que creio serem a base dos novos movimentos sociais em sociedades multiculturais como a brasileira.
O que coordena esses movimentos de enredamento dos sujeitos são sim processos coletivos de produção de significados, como em qualquer agrupamento ou comunidade humana, contudo, estas novas formas de estabelecimento de redes de interação e significação estão ligadas a um tipo de base que não é familiar ou de classe, ou sequer produto estrito da liberdade individual, mas a um movimento quase irresistível de identificação cultural à medida que se reconhecem e se identificam com seus semelhantes, o que parece ir bastante de contra aos efeitos corrosivos da globalização hegemônica.
Neste contexto, os novos movimentos sociais não operam simplesmente por meio de greves, atos de contestação ou pela ação de confronto direto, mas operam no âmbito sutil do simbólico na comunicação. Os movimentos sociais se relacionam com todo tipo de instituições do terceiro setor e também com grupos autônomos, articulando-se sobre bandeiras e referências valorosas, cativando e chamando a atenção dos sujeitos inquietos mediante as injustiças, mas não param por aí, os movimentos sociais se sofisticaram, criando oficinas e programas de formação em arte e cultura, mídias, política, criaram seus próprios canais de etno-mídia e atuam no âmbito de uma ‘edupolítica’ voltada aos militantes e aos cidadãos em geral. Este conceito de ‘edupolítica’ foi forjado por mim, no contexto desta minha tese de doutorado em Sociologia, a fim de dar conta das novas estratégias comunicativas dos movimentos sociais de descolonização, que agem no núcleo duro do combate ideológico, donde emanam as referências dos grupos hegemônicos ou das culturas dominantes, exigindo não conflito armado, greves, passeatas ou qualquer tipo de mobilização efêmera, mas programas duradouros e sistemáticos de educação intercultural dos novos militantes e de conscientização da sociedade em geral, visando o seu empoderamento.
Para testar a força desta tese, analiso alguns dos principais movimentos socioculturais e reações de mobilização que marcaram a memória coletiva no cenário político brasileiro contemporâneo, com foco no ativismo digital ou ciberativismo dos movimentos indígenas e negros, e também em suas intersecções com outras referências para especialização dos movimentos, como facetas dos movimentos de mulheres negras ou feminismos indígenas, apropriações étnicas do hip hop ou de heavy metal, ou ainda movimentos ambientalistas e territoriais por parte de populações tradicionais, entre outras possibilidades.
Os dados aqui analisados foram produzidos com base em publicações espontâneas dos próprios sujeitos engajados nos movimentos sociais on-line, ou seja, com base em informações extraídas de mídias e de arquivos disponíveis na internet, como e-books, vídeos, plataformas virtuais, posts e comentários em blogs e páginas e perfis em mídias sociais digitais. Os dados apontam para a criação de novas formas comunicacionais interculturais (linguagens híbridas nas formas de se fazer arte, cinema, jornalismo, literatura, música, teatro, rituais de cura e xamanismo, etc.) e também para novas estratégias de contra-hegemonia e de descolonização, em especial, no sentido de uma ‘edupolítica’ sofisticada dos novos movimentos sociais no ciberespaço.
Este contexto ocasiona desdobramentos que ligam as inciativas pontuais de certos movimentos pioneiros a políticas públicas culturais que reconfiguraram todo o cenário nacional de atuação dos novos movimentos sociais no Brasil – como, por exemplo, grupos de Capoeiras e grupos de Povos Indígenas que tinham seus movimentos autônomos e resolveram se inscrever na política dos Pontos de Cultura do Governo Federal, e também o reconhecimento do quilombismo e seus Mestres Griôs, ambas as políticas parte do Programa Cultura Viva e da Ação Cultura Digital, que visaram preparar as iniciativas culturais do sociedade civil (e assim também os seus movimentos sociais) à atualidade da revolução informacional e articular estes grupos de artistas, ativistas e mestres educadores em torno de redes virtuais de trocas de experiências.




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* Couto Barbosa
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Faculdade de Ciências Sociais. Universidade Federal de Goiás - PPGS/UFG. Goiânia, Brasil