Este trabalho analisa a rede sócio institucional que compõe as políticas públicas para as mulheres a partir dos planos governamentais elaborados nos níveis federal, estadual e municipal e da sua aplicação no território. Os dados apresentados são resultados de uma pesquisa de doutorado que mapeou todos os setores, órgãos públicos e de controle social previstos nos planos implementados no Brasil. O estudo foi delimitado, sendo analisadas além da rede federal, uma rede estadual e uma rede municipal situada no mesmo estado. O período estudado foi de 2014 a 2016, período este em que estava em andamento o terceiro plano nacional que, como os demais planos, foi elaborado em parceria com os movimentos sociais. Tendo em vista essa construção participativa, faz-se necessário enfatizar a contribuição do movimento feminista , chamando a atenção para as várias formas de violência infringidas contra as mulheres, possibilitando o surgimento de novos campos de estudo - direcionados às políticas públicas, principalmente à saúde, educação, assistência social, segurança e justiça - propondo intervenções nas práticas e abrindo um campo teórico e metodológico de pesquisa. Entretanto, embora haja um avanço teórico que permite compreender os mecanismos que perpetuam a violência de gênero, o planejamento e a execução das políticas públicas para as mulheres ainda não dão conta da complexidade relacionada ao lugar onde as estas estão inscritas socialmente, haja visto a persistência dos altos índices de violência contra as mulheres e do feminicídio. Ao indagarmos sobre a manutenção dos índices crescentes de violência contra as mulheres - mesmo com o esforço e comprometimento do Governo Federal do Brasil, por meio da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, no período de 2003 a 2016 - é possível encontrar algumas respostas após analisar de forma detalhada, a partir do referencial teórico de Redes Sociais , o modo como está organizada a rede sócio institucional prevista para realizar o enfrentamento à violência contra as mulheres. Obviamente, nem a análise, nem as respostas são simples, dada a complexidade que envolve cada aspecto da rede. Neste estudo foram elaborados grafos da configuração da rede de atores que compõem essa política, tornando possível identificar não só as áreas, mas também os atores centrais e os laços esperados para responder às necessidades das mulheres nos territórios. A análise a partir dessa perspectiva, possíbilitou identificar aspectos da configuração das redes previstas nos planos que podem favorecer ou comprometer o desenvolvimento das políticas. Observou-se que, embora uma política no âmbito federal tenha a pretensão de que suas concepções, diretrizes e valores sejam aplicados largamente em todos os níveis de governo, materializando-se nos serviços, essa é uma meta que implica uma revisão em seu planejamento. Isso porque, além de intervir nas práticas de todos os serviços, essa política deveria trabalhar com uma mudança de mentalidades para alcançar não só os serviços e trabalhadores envolvidos, mas também as mulheres e a sociedade em geral. A partir dos grafos das redes sócio institucionais presentes nos planos, é possível identificar atores que ficam à margem na política para as mulheres, ainda que os principais objetivos necessitem deles para se concretizarem. A área da Educação é um exemplo, verifica-se que essa área está conectada à rede de maneira frágil, apresentando poucas conexões mesmo com seus pares, ficando próxima à margem dos grafos, ou seja, na margem da rede, esse quadro se agrava a medida que está ainda menos articulada nos grafos dos níveis estadual e municipal. Também no estudo realizado no território a presença da área de Educação não foi identificada. A área de Assistência Social é outro exemplo, no grafo do governo federal esta participa da política com conexões frágeis no plano, mas nos grafos dos níveis estadual e municipal aparece fortalecida. Ocorre que essa é a área que “acolhe” administrativamente ou tecnicamente os órgãos que assumem a política para as mulheres nos dois níveis, não representando necessariamente uma articulação forte para efetivação dos planos e, consequentemente, da política para as mulheres. Outra importante constatação a partir da análise dos grafos é a presença marcante do Sistema Judiciário e da Segurança Pública. Essa presença materializa-se com o mesmo peso no território. Esse é um dado positivo, mas ao analisar-se como este cluster atua no território, observa-se que a sua participação na rede dá-se com o mesmo perfil com que tradicionalmente sempre executou as ações nessa área, estando bastante distante das prerrogativas nas políticas para as mulheres. Para além do grafo das redes, a reconstituição destas a partir dos atores que estão no nível local, permitiu conhecer os grupos que se formam, as relações entre os nós e também os fluxos existentes na rede. No território evidenciou-se o dinamismo e a complexidade implicados nos serviços de atendimento às mulheres que sofrem violência, são as trocas entre os atores que determinam no modo como a assistência às mulheres acontece no dia a dia da rede. Essas redes são carregadas de conteúdo, valores, saberes, sentimentos, poder e conhecimentos, sendo possível, mediante o referencial de redes sociais, aceder à compreensão desses aspectos qualitativos das relações. Por meio da aproximação com a rede no nível local, é possível identificar em que medida os objetivos propostos nos planos estão sendo executados e quais os impeditivos para que esses sejam concretizados. Identificou-se que o nível local atua principalmente no atendimento à violência contra as mulheres, sendo a violência doméstica aquela que tem maior atenção. Observa-se que existem falhas nas conexões da rede, pois os atores que exercem o papel de gestão no nível estadual não atuam para o pleno funcionamento da política, gerando ou deixando acontecer, por exemplo, falhas na atuação dos órgãos de segurança, principalmente das delegacias, que reproduzem a violência contra as mulheres. Já no município, as falhas ficam evidentes quando os serviços não são reorganizados de modo a dar suporte às mulheres que sofrem violência doméstica. Apesar de existirem dificuldades para a rede funcionar plenamente, é possível afirmar que a política pública deflagrada no nível federal consegue mobilizar no nível local atores que antes não estavam sensíveis aos direitos e necessidades das mulheres e hoje propõem novos arranjos para que a assistência seja melhor estruturada. Com o conhecimento dos objetivos, diretrizes, metas e atores da política para as mulheres e com a clareza de que esta se materializa no nível local por meio de uma rede de relações interpessoais, compreendida aqui como uma rede de trocas, símbolos e pactos, sendo estes conteúdos determinantes na organização dos serviços e no modo como se dá o cuidado, pode-se afirmar que o referencial teórico de redes sociais proporciona instrumentos para pensar as políticas públicas locais tanto em sua formulação quanto em seu planejamento e implementação. Os resultados da pesquisa realizada mostram as (des) continuidades entre os diferentes níveis de planejamento da política, assim como as (des) articulações entre os atores que atuam no território, revelando a estrutura dos modelos de intervenção desenhados para a efetivação das políticas públicas para mulheres. A partir dos grafos das redes presentes nos planos, identificam-se setores e serviços que estão vinculados de forma frágil à política e o reflexo dessas fragilidades estão presentes também na execução dos serviços no território. A política pública para as mulheres, analisada sob esta perspectiva, encontra-se ainda distante de preencher todas as lacunas para dar respostas efetivas à violência, pois perde a sua potência à medida que as fissuras existentes entre os atores e os níveis governamentais se tornam frequentes e maiores. A análise a partir do referencial de redes sociais já no planejamento da política, permite identificar os atores que devem protagonizar ações e assumir um papel de liderança e disseminação dos valores e missão da política, possibilita também realizar a avaliação qualitativa do desenvolvimento das ações no território, permitindo que estas sejam redirecionadas de acordo com as fragilidades identificadas.