Para compreender e teorizar o hibridismo proposto entre a mídia e música, resultado que busco em um trabalho maior e mais complexo na dissertação, é produtivo, primeiramente, tecermos um contexto mais amplo ao qual esses meios se inserem: a cultura. O conceito e a definição de cultura foi sendo discutida e (re)formulada, ao longo do tempo, sobretudo pelas ciências sociais. Neste artigo procuro elucidar sobre o cenário dos movimentos culturais dentro do contexto da globalização aproximando as intenções de mudanças que estouraram a partir dos anos 1960 e os movimentos atuais, ou seja, um balanço das mudanças que essa década trouxe, que são fundamentais para se entender o mundo social contemporâneo.
A questão cultural ganhou visibilidade, em torno da globalização, nos últimos tempos frente às mais diversas e crescentes exposições que se travam nos mais diferentes âmbitos da composição social, que incluem o governo, a academia, a sociedade civil, as iniciativas públicas e privadas, etc. Relaciona-se assim o fenômeno da globalização às questões culturais, a formação de novas identidades e a crescente expansão das sociedades contemporâneas.
Apontando fatores históricos, políticos e culturais que acabaram por suscitar, no contexto da época, em uma recusa aos valores em voga, uma descrença nas instituições, ampla oposição à indústria cultural, favorecendo a perspectiva de uma revolução comportamental e a politização de outras esferas da existência humana; apresenta-se uma análise interpretativa das mudanças da década de 60 e suas consequências fundamentais para a concepção do conceito de cultura e suas práticas, com destaque no elemento cultural e no ator social, na politização do cotidiano e na ênfase no processo de formação de novas identidades coletivas, essenciais para a compreensão da sociabilidade contemporânea.
Desapontando a partir da ascensão desenfreada das inovações tecnológicas e suas consequências para a expansão dos meios de comunicação e para a informática, assim como para o próprio sistema capitalista, o processo de globalização, é caracterizado como a nova era do capitalismo na contemporaneidade, através de seus aspectos de natureza estética e sociocultural, que expressam todas as profundas modificações que se sucederam na esfera da cultura, nas tendências científicas, econômicas, artísticas, sociais e filosóficas, a partir dos anos 50, com o final da Segunda Guerra Mundial, até os dias atuais.
A globalização, que atinge em cheio todos os países em suas mais variadas formas de comportamento, está produzindo um novo tipo de sujeito, que se desenvolve convivendo com a intercomunicação econômica e com a avalanche de informações que é injetada a todo o momento na sociedade por diversas vias (Fischer, 1996). Esse momento é vivido de forma intensa, principalmente, pelo mundo ocidental, caracterizado pela velocidade, descartabilidade e o consumo. Nesse cenário, os meios de comunicação desempenham um papel de relevância fundamental. Vive-se, em companhia da mídia, da informática e da eletrônica, que constituem cenários e modos de “ser e relacionar-se” cada vez mais virtuais.
Desta maneira, essa condição sócio-histórico-cultural e estética que prevalece na contemporaneidade, concebida pela globalização, vêm provocando o surgimento de novos valores, onde "a cultura é invocada para resolver problemas que anteriormente eram da competência das áreas econômica e política" (Yúdice, 2006:13).
Ainda não delineada em sua totalidade por sua tamanha complexidade, essa profunda mudança é o que gera as discussões sobre o papel e a legitimação da globalização e da indústria cultural, e onde se encaixa esse novo homem e sua capacidade de discernimento. Vivemos o tempo das grandes viradas, frutos, que ainda colhemos, das grandes heranças advindas dos movimentos culturais dos anos de 1960.
Caracterizada pelo fortalecimento das ideias libertárias, a década de 1960, representou um avanço dos movimentos de esquerda, nos países do ocidente, tanto no plano político quanto no ideológico, no período do pós-guerra. Movimentos culturais, liderados por jovens no auge de sua rebeldia, iniciaram em diferentes lugares do mundo, originando-se nos Estados Unidos, com o intuito de um enfrentamento à ordem social vigente.