A presente pesquisa trata-se de um trabalho etnográfico que foi realizado no curso de Formação da Polícia Civil do Ceará na Academia de Segurança Pública (AESP). Como forma de nortear o trabalho busquei responder as perguntas formulados ao iniciar a pesquisa: De que forma o curso de formação contribui para formação identitária do policial? Qual a influência de professores que já são profissionais da segurança pública sobre essa formação identitária? Para responder essas perguntas e alcançar o objetivo da pesquisa, utilizei categorias da Análise do Discurso Crítica(interdiscursividade, ethos, modalidade, metáfora) que tem a característica de ser transdisciplinar, pois utiliza categorias da linguística e também da teoria social. Nesse trabalho foi utilizado a perspectiva de Fairclough e outros pesquisadores da Análise do Discurso Crítica (ADC). Em sua obra Discurso e mudança social, Fairclough(2001) traz as várias formas como o discurso é definido e trabalhado, para ele o discurso tem concepção tridimensional: texto, prática discursiva e prática social. De acordo com o livro citado Fairclough trabalha com três funções da linguagem: Identitária, relacional e ideacional. A função trabalhada nessa análise é a identitária que refere-se a como as identidades são organizadas no discurso. O discurso em sua dimensão social tem um aporte ideológico e político, quando se discursa, pode-se estar fazendo um ato político ou defendendo uma ideologia as vezes mesmo sem perceber. Agimos através do discurso e o discurso pode modificar o mundo social por isso os teóricos da ADC defendem uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social, pois o discurso pode ser e é moldado por meio do meio social do agente e o discurso produzido por este tem impactos sobre o grupo que está inserido. Para Magalhães (2010, p. 31) “as identidades são formadas na intertextualidade e na interdiscursividade existente na prática social”. Para analisar os discursos utilizamos primeiro a intertextualidade, pois os textos são constituídos por elementos ou ideias de outros textos (Fairclough, 2001). Essa intertextualidade pode ser manifesta “é o caso que se recorre explicitamente a outros textos específicos em um texto”. Nessa intertextualidade escolhe-se o que será citado do outro texto, assim como a organização desse texto. A intertextualidade em relação a pressuposições também é importante para o trabalho, pois trata-se de “proposições que são tomadas pelo(a) produtor(a) do texto como já estabelecidas ou dadas” (Fairclough, 2001, p. 155), e como veremos na análise teremos algumas pressuposições presentes no discurso da sala de aula. Outra categoria de muita importância é a interdiscursividade ou intertextualidade constitutiva que “é uma questão de como um tipo de discurso é constituído por meio de uma combinação de elementos de ordens de discurso” (idem, p. 152). Pode-se criar por meio da interdiscursividade quadros de análise, nessa pesquisa usamos apenas estilo e discurso. Esse discurso levará a outra categoria que pode ser trabalhada conjuntamente com a intertextualidade, a metáfora. O uso de metáforas no discurso “estruturam o modo como pensamos e o modo como agimos, e nossos sistemas de conhecimento e crença, de uma forma penetrante e fundamental”.(idem, p. 241). A escolha de metáforas no discurso é uma escolha significativa, principalmente aquelas que são naturalizadas ao ponto das pessoas não perceberem o quanto utilizam e mesmo quando percebem não consegue inutilizá-las. Se estamos falando de declarações feitas em sala de aula não há como deixar de lado a categoria modalidade, pois há uma importância em determinar se o produtor está ou não comprometido com o que diz, por meio dessa aproximação é possível perceber a influência que esse discurso terá para o receptor. Para Gadelha e Magalhães (2014, p. 119) “as escolhas da modalidade são significativas em termos de identificações, ações e relações sociais e das representações”. Por fim trabalhamos com Ethos, pois está ligado diretamente com a questão da identidade e também com a intertextualidade. É através da “projeção de ligações em determinadas direções intertextuais de preferência a outras” (Fairclough, 2001, p. 207) que percebe-se o ethos dos participantes. Não há como separar representação de identidade, pois é a partir da identidade do sujeito que ele construirá seu discurso e por meio do discurso sua identidade será formada. Magalhães (1996, p. 55)“as identidades são constituídas pela prática discursiva, ocupando determinadas posições sociais. São representadas por vozes institucionalizadas que se inscrevem no texto”. Identidade que segundo Castells (2004, p. 22) é entendida como “o processo desconstrução de significado com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais interrelacionados, o(s) qual(ais) prevavelece(m) sobre outras fontes de significado”. Para Hall (2004) essa identidade é construída ao longo do tempo e está sempre em processo de formação por meio de processos inconscientes. Não se pode dizer, portanto, que a identidade é construída apenas por meio do discurso, é necessário perceber que o discurso está entre os processos de formação da identidade. Os textos analisados nessa pesquisa foram obtidos por meio de uma pesquisa de trabalho monográfico realizada dentro do curso de formação da polícia civil do Ceará dos meses de janeiro a maio de 2016 na Academia Estadual de Segurança Pública (AESP). Foi realizada uma etnografia que segundo Uriarte(2012, p. 5)consiste “num mergulho profundo e prolongado na vida cotidiana desses Outros que queremos apreender e compreender”. Tive acesso ao campo de pesquisa a partir da minha aprovação no concurso realizado em 2014 para o cargo de escrivã da polícia civil. Participei do curso de formação como aluna e também como pesquisadora. O curso de formação acontecia das 07:00 às 17:30 de segunda a sexta com aulas de quatro disciplinas por dia, cada disciplina com duas hora-aula. Ao todo foram ministradas 24 disciplinas, além de seminários, visitas técnicas e estágio operacional. Os professores dessas disciplinas, como dito anteriormente, são policiais da polícia militar e da polícia civil. São escolhidos por meio de seleção que acontece a partir do envio do currículo e em alguns casos por meio de troca de favores de funcionários da academia. A quantidade de alunos varia entre 35 e 40 alunos divididos de acordo com cada cargo (inspetor, escrivão e delegado) e por ordem alfabética. Os discursos que analisados foram retirados de momentos de sala de aula e por questões éticas de pesquisa os professores produtores desses discursos não serão identificados, por isso eles serão referidos como professor e uma numeração. Foram quatro meses de observação participante que renderam um grande material de trabalho(anotações, diário de campo, entrevistas). O que foi utilizado nesse trabalho foram as falas de cinco professores em sala de aula, mais especificamente a fala que expressa o que eles pensam sobre o que é ser policial e qual o papel deste na sociedade. Como a análise buscou perceber a construção da identidade policial por meio do discurso a fala dos professores tem uma grande importância nesse processo de formação, pois eles além de serem professores também são profissionais veteranos das instituições de segurança pública do estado, tanto da polícia civil quanto da polícia militar. A opinião e ponto de vista desses profissionais possuem um peso e influência sobre aqueles que estão entrando na instituição, os alunos da AESP. Para trabalhar os discursos produzidos pelos professores do curso de formação da polícia civil foram utilizados, conforme descrito em tópico anterior, categorias de análise da análise do discurso crítica: intertextualidade e interdiscursividade, ethos, modalidade e metáfora. Esses operadores analíticos foram escolhidos, pois se aproximam mais da ideia trabalhada na pesquisa, a construção da identidade por meio do discurso.
REFERÊNCIAS
CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2004. Cap. 1, seção “A construção da identidade”, p. 22 a 28.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Coord. trad., rev., prefácio à ed. bras. I. Magalhães. Brasília: Ed. UNB, 2001.
GADELHA, N. ;MAGALHAES, I. Um estudo etnográfico-discursivo do parto de mulheres de baixa renda. In: Mônica Santos de Souza Melo; Cristiane Cataldi dos Santos Paes; Maria Carmen Aires Gomes. (Org.). Estudos discursivos em foco: novas perspectivas. 1ed.Viçosa, MG: UFV, 2014, v. 1, p. 100-133.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
MAGALHÃES, Izabel. Discursos e identidades – exotismo e domínio violento. Cadernos de Linguagem e Sociedade, n. 11, v. 1, 2010.
___________________. Introdução: a análise de discurso crítica. D.E.L.T.A., vol. 21(especial): 1-9, 2005.
___________________. Linguagem e identidade em contextos institucionais e comunitários. Cadernos de Linguagm e Sociedade, n. 2, v. 1, 1996.
URIARTE, Urpi Montoya. O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe, vol. 11, 2012.