Imprevisibilidades amiúdes: manifestação política, juventude e estética no movimento de ocupações de escolas secundárias no Brasil contemporâneo
A proposta deste trabalho é apresentar, em linhas gerais, a pesquisa ainda em andamento, sobre manifestação política, juventude e a estética do movimento de ocupações das escolas secundárias no Brasil contemporâneo. Pesquisa desenvolvida, conjuntamente, pelos Laboratório de Estudo da Cidade E Cultura - LECC e o Observatório de História, Educação e Cultura - HECO . Entende-se que pensar os movimentos políticos no Brasil contemporâneo e o papel que a juventude vem assumindo requer, antes de mais nada, uma reflexão sobre os acontecimentos que marcaram a cena política e social do país no ano de 2013, sem, no entanto, querer intuir que exista um processo histórico em curso. Pretende-se, muito mais, operar numa lógica de descontinuidade e desapego às inúmeras investidas democráticas após 1988. Uma ruptura ao “pacto social” estabelecido a partir da estabilização econômica com o Governo Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real (1994), continuado, na versão das políticas de inserção social, com os governos Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Roussef (2010-2016).
Dito isto, este trabalho de pesquisa busca refletir sobre a potência política “em estado latente” que o alargamento da democracia trouxe à cena pública, na última década. Nunca fomos tão democráticos como nunca duvidamos tanto da democracia enquanto sistema político representativo. Nunca fomos tão afetados e afetamos tanto a estrutura política baseada no voto. Trata-se de uma forma peculiar de ambiguidade política. Ou como sugere Jacques Rancière (2014), fruto mais de um movimento de dissenso do que de consenso.
Para tanto, o pano de fundo para tais reflexões será as ações políticas de ocupação dos espaços públicos, como as escolas de ensino secundário, organizados e orquestrados pelos jovens estudantes desde 2014 - com ênfase para 2016/2017 -, dinâmicas que têm se tornado uma forma efetiva de manifestação dos jovens no cenário público. Performance, estética política, novas tecnologias, dissenso, enunciados e enunciadores serão expressões tomadas como objetos de análises para entender e, em alguma medida, apontar para mudanças na forma de atuação que a juventude atual vem realizando na sociedade civil e nos espaços e debates públicos e políticos. Ou seja, em que sentido é possível perceber a inscrição na cena pública de uma estética política revigorada com os atos de ocupação de prédios públicos (principalmente escolas públicas), tendo jovens como sujeitos principais e qual a consonância dessa estética política com os eventos ocorridos em 2013, conhecidos como “Jornadas de Junho” (Braga, 2015)?
Entendemos que se dá na conjuntura, sobretudo desde 2013, um complexo processo de hibridização de novos sentimentos políticos e novas partilhas de sentidos (a experiência como Erfahrung) - tendo aqui E.P. Thompson (1981; 2011) e Walter Benjamin (1987; 2012) como lastro – com velhas morfologias da luta, mais à esquerda ou mais à esquerda do espectro político, cujas sínteses dialéticas permanecem em disputa num Brasil de 2018 que parece não ter forças suficientes para chegar às eleições de outubro, sob uma polarização obtusa e um arrefecimento de ódios que mimetizam os discursos das redes sociais, cada vez menos enredadas.
Compreendemos a experiência como elaboração complexa e coletiva de sentidos, representando a marca mais significativa no trato que intentamos realizar dos processos recentes de ocupação de espaços públicos no país. As ruas heterogêneas de Junho, ainda um ponto cego para muitos analistas e teorias; as escolas, que trouxeram à cena política jovens que parecem uma massa não pensante de hormônios desregulados e alienações; os espaços tomados por movimentos, como o MTST (cada vez mais vilipendiado política e midiaticamente), aqueles lugares que só se tornam visíveis quando escandaliza¬dos.
Temos como uma preocupação central as Ocupações, deixadas de lado na maioria de nossas ponderações acadêmicas e diagnósticos político-sociais. Notar a falta do que temos esque¬cido significa resgatar talvez a experiência mais incisiva como criação de sentidos coletivos e de partilha da política. As lutas no capitalismo tardio não podem ser sintetizadas em uma única esfera tam¬pouco em uma só espacialidade/temporalidade. Todavia, há que se focalizar nos acon¬tecimentos e experiências mais capazes do curto-circuito nas formas éticas, estéticas e políticas da hegemonia enquanto equilíbrio instável.
Por fim, sabendo que ocupações não duram para sempre” , esta pesquisa busca entender e analisar, num sentido da construção política, o que se produz para “o dia seguinte, ou seja, o que esses jovens em seus atos de ocupação e manifestação podem indicar como novas formas de vivenciar a política em um ambiente democrático? Ao fim e ao cabo, tais interrogações dirigem-se à formulação de uma hipótese que se pretende construir ao longo do percurso desta pesquisa (que ainda tentará mapear os processos ocorridos entre 2016 e 2018 no país, com a derrubada do governo Dilma e a escalada do conservadorismo de vários matizes): mesmo com o risco de um fetichismo político, de transformar manifestações e ocupações em entretenimento, em mercadoria –esvaziada de conteúdo e impotente ao movimento emancipatório - o que temos é uma abertura à uma forma revigorada de se pensar a democracia, uma abertura que demonstra tanto uma estética intuitiva quanto uma ação pedagógica e criativa por parte de um campo que podemos chamar de esquerda, pelo menos até aqui.
Referências
BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Obras escolhidas v. 1). São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 197-221.
___. Experiência e pobreza. In: O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012. p. 83-90.
___. Experiência e pobreza. In: O anjo da história. 1.ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012b. p. 83-90.
___. Para a crítica da violência. In: Escritos sobre mito e linguagem (1915- 1921). 2.ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2013. p. 121-156.
BRAGA, Ruy. Os sentidos de Junho. Blog Junho, 2015. Disponível em: . Acesso em: dez. 2017.
THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
___. A formação da classe operária inglesa, 1: a árvore da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
ŽIŽEK, Slavoj. Acontecimento: uma viagem filosófica através de um conceito. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.