A apresentação a ser feito no evento da CLACSO trata-se de uma abordagem acerca da investigação da dissertação de mestrado ainda em andamento pela pesquisadora Tainá Christine da Conceição Peixoto sob orientação do Doutor Josenilton Nunes Vieira.
Trata-se de um estudo sobre a formação política dos estudantes de Pedagogia a partir da análise dos Encontros Nacionais dos Estudantes de Pedagogia como espaço formativo do Movimento dos Estudantes de Pedagogia. Nosso interesse pela temática surge em um contexto da situação política nacional e internacional de grande efervescência da luta do povo pelos seus direitos. As greves operárias, as jornadas de junho de 2013, o avanço da luta camponesa, as lutas por libertação nacional no mundo são indicadores que entramos em um outro patamar da luta de classes - de uma elevação do caráter da luta e de um acirramento de todas as contradições antagônicas entre as classes sociais. E, como a educação não está apartada dessa situação surgem grandes levantamentos no Brasil na luta pelos direitos educacionais que sirvam ao povo, exemplos, greves, manifestações de professores, ocupações estudantis universitárias e secundaristas como forma de defesa de seus interesses para o ensino público.
Nesse contexto, a própria instituição que se insere o programa de pós-graduação da Universidade de Pernambuco viveu durante os meses de outubro a dezembro do ano de 2016, um acontecimento histórico. Pela primeira vez desencadeou-se uma greve de professores/as e uma ocupação estudantil por 70 dias, em que, os/as estudantes universitários/as estiveram à frente como protagonistas dessa luta. Esta realidade não estava apartada de um movimento nacional, na qual uma onda de ocupações estudantis desencadeada em diversas regiões do país criticava as políticas educacionais como: corte de verbas para a educação pública com a Proposta de Emenda Constitucional nº 55, a Reforma do Ensino do Médio, o fechamento de escolas, principalmente das periferias, a entrega das gestões escolares a organizações sociais (terceiro setor) e a policiais militares, privatização da pós-graduação em universidades públicas pelo Supremo Tribunal Federal.
É a partir desse cenário que temos nos debruçado a compreender a realidade particular dos estudantes de pedagogia brasileiro, tendo em vista que, nacionalmente, estudantes desse curso possuem uma tradição de engajamento frente não só das lutas em defesa do ensino como também dos direitos do povo em geral. Os estudantes de Pedagogia possuem sua própria organização e entidade estudantil, sendo reconhecidos no movimento estudantil brasileiro como o movimento de curso mais organizado. Desta forma, nossas indagações convergem para entender: Qual o papel do movimento estudantil de Pedagogia como agente de formação política na universidade? Em especial, como os estudantes de Pedagogia atuaram nas ações e movimentos de lutas coletivas diante desses levantamentos ocorridos no período 2016-2018 em defesa da Universidade Brasileira? Quais as implicações formativas da participação nesses movimentos estudantis? Qual é o papel do Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia para a organização dos estudantes de Pedagogia?
Para responder às perguntas formuladas constitui-se como objetivo geral compreender as implicações da participação dos estudantes de Pedagogia no Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia ocorrido no período de 2016-2018 para a formação política de novos pedagogos e pedagogas. Desdobrando-se como objetivos específicos: a) Mapear as produções teóricas decorrentes de estudos clássicos e de pesquisas empíricas, realizadas no período 2007 – 2016, a respeito da formação política de pedagogos e pedagogas construídas em seus cursos de graduação em Pedagogia; b) Analisar o papel do Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia como espaço de formação política de estudantes de pedagogia; c) Identificar os movimentos de lutas coletivas desencadeados pela participação no Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia no período 2016 – 2018 assim como o caráter das dimensões políticas revelado nas ações de seus protagonistas.
Os fundamentos metodológicos da pesquisa estão baseados nos pressupostos do materialismo histórico dialético porque nossa finalidade é desenvolver uma pesquisa crítica e engajada politicamente. Conforme afirma Frigotto (2001, p.79) sobre a definição da pesquisa em educação baseada no materialismo histórico dialético como “uma postura, um método investigativo e práxis cujo objetivo é de realizar um movimento de superação e transformação” da problemática apresentada.
O ponto de partida do materialismo dialético, entendido como a base filosófica do marxismo, ou ainda, a filosofia marxista, é a existência da realidade objetiva e a convicção de que é possível conhecê-la, diferentemente de concepções anteriores que negam a existência da realidade material ou em alguns casos, em que se admite sua existência, nega-se, com isso, a possibilidade de conhecê-la. Para a filosofia marxista, a realidade objetiva é composta pelos fenômenos da natureza, bem como as relações sociais entre homens, ou seja, a sociedade e, inclusive, o pensamento. Para Triviños, “o pesquisador que segue uma linha teórica baseada no materialismo dialético deve ter presente em seu estudo uma concepção dialética da realidade natural e social e do pensamento, a materialidade dos fenômenos e que estes são possíveis de conhecer” (TRIVIÑOS, 1987, p. 73).
Partindo desse ponto de vista, ao pretender analisar a formação política dos estudantes de pedagogia, há um esforço empreendido na análise para estabelecer as leis fundamentais que estão implicadas num movimento entre parte-todo, não de maneira mecanicista, abstrata, idealista e unilateral, como é característica dos métodos de análise metafísicos de todos os matizes, mas buscando compreender as contradições existentes e revelando os enlaces da luta de classes no seio da categoria educacional. Desta forma, definimos como categoria de análises a) os sistemas de ensino de brasileiro como instrumento ideológico estatal para aplicação de uma linha específica para educação nos países do Terceiro Mundo; nessa relação entre o geral e o particular, nos detivemos em compreender a universidade como um mero aparelho reprodutor do estado ou uma verdadeira trincheira da luta de classes e, por último, analisar a formação política dos estudantes de pedagogia tendo o movimento estudantil, especificamente, o Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia como lócus investigativo por ser principal agente dessa formação.
As fontes e registros documentais e audiovisuais compõem o arcabouço dos instrumentos de pesquisa contribuindo para remontar as memórias registradas. São os documentos, os materiais da Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia do período de 2016 a 2018 como a) carta da ExNEPe aos estudantes e pedagogos de todo o Brasil; b) Cartilha de Estudos; c) Estatuto Atual da ExNEPe; d) Plano de Luta dos Estudantes de Pedagogia 2017.2-2018; e) Balanço do 37º ENEPe produzido em vídeo; f) vídeo sobre a vitoriosa histórica jornada, dentre outros.
Nossos resultados parciais com vistas na realização da revisão de literatura realizada entre o período de 2007 a 2017 em 3 bancos de dados apontam:
Evidências que as produções científicas tem concentração a nível de mestrado em relação às teses de doutorado produzidas e que há uma expansão em relação as teses a partir do período de 2013, momento em que há grande efervescência nas lutas populares desde os anos 2000 no Brasil.
Em relação ao interesse nas áreas de Pesquisa, constata-se no Banco de Teses e Dissertações que 37,5% da temática geral corresponde a análise na formação política na formação inicial retificando um quadro de escassez deste campo de pesquisa revelado nos anos anteriores por Cortiano e Romanovski (2007). No que condiz as produções no espaço da Universidade a formação política está compreendida para além da sala de aula como a extensão universitária e o próprio movimento estudantil se destaca como elemento fundante deste processo.
Na Revista Brasileira de Educação não encontramos artigos científicos no mesmo período sobre a formação política e no Grupo de Trabalho 3 da Associação Nacional de Pesquisadores em Educação (ANPED) sobre movimentos sociais, não foram encontrando trabalhos diretamente vinculado ao movimento estudantil. Todavia, do levantamento feito sobre o curso de Pedagogia, verificamos que as pesquisas têm demonstrado, que os movimentos sociais, principalmente, os movimentos do campo têm se articulado para disputar tanto as escolas como as universidades em torno dos interesses de povos que estão em luta em maior parte pelos camponeses do MST quanto os indígenas. Nas universidades, a disputa se dá em torno da concepção de formação de professores para atuação, nestes casos, nos espaços não formais, movimentos populares e escolas do campo.