Em 2014, segundo Roque (2014), diretor da Anistia Internacional no país, o Brasil obteve um dos índices mais altos de homicídios no mundo. O relatório aponta que se cultiva, entre a população, a ideia de um país pacífico, mas convive-se com números de homicídios que superam conflitos armados, com cerca de 56 mil vítimas de homicídios por ano, sendo a maior parte dessas vítimas jovens pobres, negros, moradores das periferias urbanas.
Diante dessa realidade, me senti motivada, em primeiro lugar, a entender quais as representações que a mídia impressa goiana constrói ou reforça sobre os jovens, enfocando especialmente o caso do Jornal Daqui. Também tive o desejo de compreender, ainda, como esses jovens se veem representados nesses mesmos enunciados.
Escolhi o Daqui por dois motivos: o primeiro é que o diário é um importante veículo formador de opinião em Goiás, possuindo, atualmente, a maior tiragem de jornais impressos do Estado e a 5ª maior tiragem de impressos no Brasil, segundo a Associação Nacional de Jornais , ficando atrás somente do Super Notícia, O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Para se ter um índice de comparação, em Goiás, enquanto o Daqui está em 5º lugar no ranking nacional, com tiragem de 153.761 exemplares, o jornal O Popular, segundo com maior circulação do Estado, aparece em 47º lugar no ranking nacional, com tiragem de 17.685 exemplares.
O segundo motivo de escolha está vinculado ao perfil editorial da publicação. Conforme anunciado na página virtual da Organização Jaime Câmara (2014), o Daqui é voltado para o público “C e D” da capital goiana e região metropolitana e possui uma linguagem mais “acessível” para este público, “mostrando o que de mais importante acontece de forma simples e dinâmica”. A delimitação de um perfil de leitor, que também contempla os jovens moradores das periferias de Goiânia, com idade entre 14 a 29 anos, foi também outro fator que me instigou.
A intenção foi investigar as representações sociais de jovens de Goiânia sobre os discursos midiáticos hegemônicos, envolvendo a temática da criminalidade e da violência, a respeito de si. O estudo das representações sociais sobre a violência entre os jovens ganhou espaço nos últimos anos por meio da Teoria das Representações Sociais. Contudo, a recepção de jovens sobre as representações sociais em diversos produtos midiáticos é objeto de poucos estudos, como argumenta Sá (1998). Fruto da própria invisibilidade, estudada por Soares (2004), as representações sociais produzidas por jovens sobre os diferentes discursos envolvendo a temática da criminalidade não tiveram eco suficiente na academia. Resta a lacuna de compreender os discursos produzidos por estes jovens, a partir do processo de negociação de sentidos com os discursos midiáticos. Segundo Pais (1990), é importante entender as representações sobre os jovens, analisando se eles compartilham os mesmos significados, se o fazem de forma parecida ou a razão pela qual compartilham ou não determinados significados. Groppo (2015) afirma que é preciso considerar a capacidade de autonomia das juventudes. No contexto das teorias pós-críticas da juventude, apontadas pelo autor, aparece a noção de subjetivação, com influência de Foucault (1984) e outros. Tal corrente teórica, também adotada nessa pesquisa, afirma que os sujeitos ora são configurados em consonância com os modelos regulatórios, ora são resistentes aos mesmos. Tal discurso valoriza a diversidade das juventudes, reconhecendo a importância da construção social do indivíduo.
A pesquisa está organizada da seguinte forma: no primeiro momento, tenta-se discutir algumas definições do que seja a violência, entendendo que ela é um fenômeno social que se relaciona com aspectos objetivos e subjetivos. Em seguida, discute-se sobre o medo e o sentimento de insegurança nas cidades; a realidade da violência em Goiás e algumas reflexões conceituais sobre o que é ser jovem na sociedade contemporânea.
Em seguida, além de apresentar a teoria das representações sociais, são feitas reflexões sobre a mídia e seu papel na constituição de tais representações, consolidando-se como um dos principais instrumentos de formação de opinião pública. Inicia-se, ainda, a discussão sobre como os jovens são representados na mídia brasileira.
Na sequência, são analisadas, comparativamente, as notícias publicadas no jornal Daqui em três meses de 2010 e de 2014, utilizando o aporte teórico das representações sociais. Pode-se perceber que, desde 2010, o Daqui faz uma forte ligação entre juventude, pobreza e o perigo em seu discurso. Em 2014, tal representação foi deslocada para a explicação do aumento da violência em Goiânia e em Goiás como consequência do envolvimento de jovens com o uso e com o tráfico de drogas.
Ao final, são feitas reflexões a partir das transcrições dos grupos focais realizados com jovens de diferentes estratos sociais da grande Goiânia e região metropolitana: classes média, alta e baixa (Colégio Medicina; Colégio Fractal e Região Noroeste); buscando verificar quais as representações que eles constroem sobre o discurso midiático a respeito de si. Pode-se perceber que jovens não assimilaram o conteúdo midiático sem criticá-lo. Apesar de os jovens das diferentes classes sociais vivenciarem a violência de formas distintas em seu cotidiano, eles foram unânimes ao afirmar que a mídia não é imparcial ou neutra ao retratar a sua realidade.