Este trabalho é parte da minha pesquisa de doutorado que se dedica a analisar os trinta e cinco anos do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) no oeste de Santa Catarina. Sua atuação se teu num contexto de conquistas de direitos de extrema importância para os trabalhadores e trabalhadoras rurais que permaneceram por décadas completamente alijados do acesso à cidadania. Contudo, aqui nosso objetivo é refletir sobre a perspectiva feminista apontada a partir da organização das mulheres camponesas na região oeste do estado de Santa Catarina. Tal perspectiva – hoje apresentada como feminismo camponês – é fruto de uma longa trajetória de organização inscrita no processo de lutas sociais no campo brasileiro. Cabe pontuar que tais lutas envolveram múltiplas formas de resistência silenciadas e invisibilizadas por referenciais teóricos que privilegiam os métodos de organização de classe dos trabalhadores urbanos. Dito isto, trazemos à análise o conceito de formas cotidianas de resistência na medida em que este nos permite observar o léxico político presente nas ações das mulheres antes mesmo destes figurarem nos espaços reconhecidamente políticos onde a dimensão coletiva já se torna evidente. A observância desse itinerário de mobilização e engajamento na luta política nos levou ao objeto deste trabalho, qual seja o de apontar como se deu historicamente a aproximação entre feminismo e movimento camponês no Brasil a partir da análise deste estudo de caso. Consideramos aqui que a aproximação entre o feminismo – compreendido em seu sentido lato – e o movimento camponês no Brasil não é imediata nem simples e requer um olhar crítico acerca da relação campo-cidade no que concerne à teoria sociológica que privilegia a cidade enquanto lócus privilegiado da mudança social. Logo, a prática política e as estratégias de resistência das camponesas aparecem neste trabalho como uma forma de apontar a necessidade desta revisão. O lugar do campesinato é parte de um debate clássico na Sociologia Política. Não obstante, se relega ao campesinato um lugar secundário na conformação da modernidade. No caso brasileiro, esse aspecto já foi fartamente analisado por fases distintas da Sociologia Brasileira. Contudo, nos interessa aqui especialmente o recorte dado por José de Souza Martins ao apontar a relação entre os movimentos camponeses, os movimentos dos trabalhadores na cidade e a preponderância do segundo sobre o primeiro. O protagonismo do movimento operário é sempre norteador do debate acerca da necessária modernização econômica e política do Brasil e, assim, a ação política do campesinato é sempre “fora de lugar”, dado que dele não se espera qualquer protagonismo. O que se torna evidente, ressalta o autor, é a posição sempre tutelada num longo processo de construção de sua representação política. Uma discussão mais recente permite traçar conexão entre a crítica efetuada por Martins e a crítica ao olhar eurocêntrico que reproduz estereótipos ao analisar o protagonismo dos movimentos sociais rurais, indígenas, negros e de mulheres. Esse “olha de baixo”, “das franjas” ou simplesmente “periférico” tem gerado importantes questionamentos e um novo aporte teórico acerca dos processos sociais no âmbito da América Latina. É necessário travar a discussão acerca da dominação masculina, mobilizando o debate conceitual a fim de conectar à condição subordinada da mulher rural no Brasil - em específico nas condições sociais e históricas do oeste catarinense – aos macro processos sociais no tocante a luta por direitos. Esta se inscreve num longo processo, específico da modernidade, de luta por igualdade e direitos onde feminismo e movimentos camponeses se aproximam. Tais lutas compõem a linha norteadora para a nossa reflexão acerca da reprodução das estruturas de dominação contemporâneas. As teoria decolonais tem apontado para uma perspectiva crítica do feminismo eurocêntrico, expondo os problemas advindos de sua tradução no cotidiano das mulheres africanas, asiáticas e latinoamericanas. O feminismo periférico ou decolonial tem colocado importantes interrogações e a necessidade de outro olhar para as resistências forjadas por essas mulheres, muitas vezes distantes das esferas institucionais e das formas “clássicas” de organização como sindicatos, partidos, etc. Nesse sentido, tais teorias possuem em comum o esforço de revisão epistemológica acerca dos processos de mudança social. A compreensão sobre as formas de dominação das mulheres e suas resistências tem sido objeto de amplo debate na Sociologia Contemporânea. Decerto, nos referimos a um longo processo desencadeado ainda no século XVIII, mas que tem tomado outra dimensão a partir da crescente revisão de teorias clássicas e suas lacunas a esse respeito, da articulação entre questões antes trabalhadas de forma segmentada e do aparecimento de novos aportes teóricos oriundos da Sociologia desenvolvida em países periféricos. Os caminhos pelos quais a produção de conhecimento acerca das relações de poder desiguais entre homens e mulheres tem obedecido a uma dinâmica que merece sempre ser exposta na medida em que entrecruzam elementos das esferas política e cultural tais como, por exemplo, tradições intelectuais, a própria estrutura acadêmica que se mostra mais porosa a determinados temas a despeito de outros, as transformações nas configurações das disputas políticas que encerram ou inauguram períodos e nos impelem a rever nossos instrumentos de análise e a criar outros tantos. No que se refere às relações sociais de sexo temos hoje como evidente que toda teoria social carrega consigo uma concepção acerca destas, dado que são transversais à totalidade das categorias pelas quais apreendemos e concebemos a condição do humano. Dito isto, corroboramos aqui a perspectiva de Andrey Cordeiro Ferreira (2013), segundo a qual os estudos da resistência e da dominação política devem ser parte de um esforço de descolonização teórica compreendendo os limites que determinadas matrizes e categorias impuseram à Sociologia e à Antropologia desenvolvida em países periféricos.
Partimos do pressuposto de que a política é um fenômeno múltiplo e assumir uma perspectiva meramente normativa nos leva a muitos limites. Pretendemos analisar o histórico de mobilização e organização das camponesas apontando para a importância de se compreender as consequências da reprodução de determinados postulados sobre o campesinato acerca da sua ação É imprescindível a sua localização num processo de longa duração que envolve um histórico de conflitos que articula classe social, raça e gênero. Compreender o campesinato e as relações de gênero impõe uma perspectiva “de baixo para cima” e temos acordo com as perspectivas teóricas que tem avançado nesta direção entendendo que a multiplicidade de experiências não gera necessariamente fragmentação e, ao contrário, é capaz de erigir uma teoria que abarque a mudança social a partir exatamente dessa diversidade, prescindindo da obrigatoriedade em se estabelecer qualquer elemento de ordem, hierarquia e autoridade reificando assim uma visão eurocêntrica. Do contrário, nossa seletividade não será o resultado de uma opção teórico-metodológica na construção de um objeto de pesquisa e sim um canal de reprodução de teorias que reforçam o colonialismo.