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Resumen de ponencia
Religião, meio ambiente e o fim do mundo

*Renan William Santos



“Qual será o fim do mundo?”. Eis uma pergunta com muitos sentidos. Começando pela ambiguidade da palavra “fim”: pode-se referir ao “alvo”, para “onde” o mundo deve ir, seu “destino”, seu “sentido”; ao mesmo tempo, pode-se referir ao “como”, de que “maneira” o mundo vai acabar. Finalidade e final. É em torno dessas duas noções quase unas que diversas instituições e seus especialistas digladiaram-se ao longo do tempo para se estabelecerem como os legítimos profetas do apocalipse. Esse artigo visa refletir sociologicamente sobre os novos aspectos das imagens modernas do fim do mundo, principalmente a partir dos movimentos ambientalistas, e, de forma secundária, a partir de outras doutrinas políticas, científicas ou econômicas que também procuram discorrer sobre o fim do mundo.
Atualmente os indivíduos escolhem livremente não só entre crenças e práticas das diferentes religiões, mas entre crenças e práticas semelhantes do campo secular. É o caso da escatologia. O indivíduo não precisa mais, necessariamente, ao converter-se, adotar para si a expectativa religiosa do que deve acontecer no fim dos tempos. Nem as práticas que correspondem a essa expectativa. Ele pode simplesmente rejeitá-las em nome de outras narrativas, originárias de outras religiões, ou do campo secular. É aí que entram os apocalipses modernos e seus desencantados personagens escatológicos.
Hoje é possível encontrar, em qualquer canto, as exortações ambientalistas pela salvação do planeta. “Salve o mundo!, ajude o planeta!, recicle seu lixo, vá de bicicleta, feche a torneira ao escovar os dentes, plante uma árvore, use sacolas retornáveis, consuma produtos ecologicamente corretos, regule o tempo do banho no chuveiro, o número de descargas sanitárias, a quantidade de detergente usada para lavar louça, a quantidade de pasta de dente, de shampoo e condicionador, escolha melhor o tipo de tecido das roupas, o tipo de transporte, o tipo de combustível, o tipo de lâmpada, a fonte da madeira dos móveis, a origem da madeira das folhas de papel.... uma lista quase infindável, que demanda uma conduta ecológica extremamente metódica no cotidiano de qualquer um que se converta à causa verde.
Hoje, torna-se quase uma afronta moral – que obviamente, é bom deixar claro, não deixa de ter um fundamento objetivo –, largar uma torneira aberta enquanto se faz outra coisa, cortar uma árvore centenária sadia para construir um prédio, queimar pneus velhos por não ter onde guardá-los etc. Não nos sentimos simplesmente desperdiçando bens escassos e preciosos para a humanidade, como a água potável, a biodiversidade e o ar puro, mas sim que estamos agredindo o planeta, causando-lhe mal. Quão envergonhados não nos sentiríamos, caso apanhados fazendo tais coisas?
E a responsabilidade de se evitar o apocalipse ambiental prega-se como universal. Não há espaço para clivagens de países, de etnias e nem de gerações. E aqueles que não aceitam a mensagem ambientalista não são considerados simplesmente céticos. Eles recebem uma carga moral negativa, tal qual a que repousa sobre ateus no olhar de muitos religiosos: são vistos como pessoas más, pois sua descrença teria consequências negativas para todos ao redor, afinal, é a própria Terra, um bem de todos, que eles estariam agredindo.
À primeira vista, poderíamos pensar que as ideias sobre o fim do mundo seriam um último refúgio das especulações mágicas, místicas etc., e uma das poucas competências que ainda seriam de hegemonia religiosa. Mas não. Pipocam por aí, nos dias de hoje, os mais diversos tipos de quadros apocalípticos cientificizados. Mesmo que muitas vezes a fundamentação dita científica seja errônea do ponto de vista técnico, o que importa para se constatar o avanço do desencantamento do mundo é assunção do princípio de que sejam quais forem as possíveis causas do fim do mundo, por trás delas não haverá poderes misteriosos imponderáveis interferindo. Ainda, trata-se também do avanço da secularização, pois é o temor frente a concretização desses quadros seculares que orienta os agentes quando o assunto é o fim do mundo, e não mais o medo religiosamente inculcado de que, por exemplo, a decadência moral dos homens possa gerar um dilúvio ou o aparecimento de dragões de sete cabeças. As religiões vêm perdendo arbítrio também nesse domínio.
“Ilusórias e desviantes” são “as tentativas de previsão do fim do mundo”, disse certa vez o Papa João Paulo II (1998). E continuava: Cristo “nos assegurou que o fim não acontecerá antes que a Sua obra salvífica tenha alcançado uma dimensão universal através do anúncio do Evangelho”. Mas essa serena tranquilidade de que o encerramento dos dias só dependeria dos desígnios divinos parece não estar mais presente também na própria Igreja. Afinal, na última encíclica do Papa Francisco, Laudato Si (2015), já é patente a preocupação ambientalista frente ao “urgente desafio de proteger a nossa casa comum”, pois “se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes”. Conforme admite também o arcebispo emérito de Milão: “as ameaças ecológicas estão tomando o lugar das fantasias do passado e sua cientificidade as torna ainda mais apavorantes” (Martini, 2012: 20).
As fontes das narrativas apocalípticas estão, hoje, portanto, brotando dos mais diversos campos, principalmente dessa fonte secular e secularizante que é o saber científico. Se as nascentes religiosas ainda não secaram, o próprio fato de ter água vindo de todos os cantos para também correr nesse leito já diminui, em muito, a força daquele canal sobrenatural que corria tranquilo e sozinho por debaixo da ponte. Seja como for, é para o aqui e agora que as previsões do fim do mundo nos alertam. É preciso mudar de postura, de atitudes, de convicções – tudo para ontem, nos dizem! Paradoxalmente, aderir ao ambientalismo, por exemplo, implica mudar hábitos arraigados, rever valores, como parecia acontecer antes tão somente na conversão religiosa. E toda essa mudança não é demandada pelo capricho ou ditame de qualquer entidade sobrenatural, mas pela nossa própria sobrevivência “profana” e “profanadora”.




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* Santos
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo FFLCH/USP. São Paulo, Brasil