O estudo aqui sintetizado buscou analisar os limites e potencialidades da crítica epistemológica feminista pela revisão de modelos macroeconômicos em contexto de institucionalização do feminismo, visitando as contribuições da Economia Feminista ao estudo dos processos sociorreprodutivos e suas contradições e analisando suas influências sobre o receituário macroeconômico em tempos de crise capitalista. Para tal, traçou-se um panorama das principais contribuições feministas sobre gênero e patriarcado desde a segunda onda do feminismo, buscando-se traçar um referencial teórico para se pensar a ordem de gênero sobre a qual se sustenta o modo de produção capitalista e sua expansão global. A seguir, é feita uma revisão bibliográfica da crítica feminista à teoria econômica feitas pela Economia Feminista, elencando perguntas e bandeiras centrais que estruturam esse campo diverso e difuso. Ao final, é feita uma análise de um relatório do Grupo de Gênero do Banco Mundial para analisar a condição real e técnica da Economia Feminista, na tentativa de entender como se dá o transplante da teoria feminista, em suas origens revolucionárias e integradas à luta das mulheres trabalhadoras, ao instrumental teórico econômico.
Partindo da centralidade da reprodução material e simbólica do ser humano, a revisão da teoria feminista tem como principal guia as contribuições feministas a respeito do controle reprodutivo da mulher, levantando debates sobre a questão da reprodução familiar, do controle reprodutivo (e sobre os corpos) das mulheres e a questão da socialização da força de trabalho para o mercado são objetos particulares fundamentais que dão especificidade à forma como a mulher toma parte nos conflitos entre produção e reprodução dentro do sistema sociometabólico capitalista. Constroi-se um quadro de debates atravessado pelas discussões acerca: a) da historicidade do Patriarcado de Gayle Rubin (1993); b) a questão da consubstancialidade racismo-capitalismo-patriarcado, de Helleieth Saffioti (2009); c) da formulação do conceito de reprodução antroponômica, de Combes e Haicoult (1986). A partir daí se compreende a institucionalidade da exploração da mulher dentro de uma totalidade de relações patriarcais, capitalistas e racistas, em que a divisão entre esferas públicas e privada constitui as bases de controle sobre o corpo e o trabalho da mulher, nos campos mercantil e doméstico, sendo que o trabalho das mulheres, como assalariadas e reprodutoras cotidianas da vida, situa-as transversalmente entre esses espaços interdependentes que constituem a reprodução social.
Após esses levantamentos, é feita uma revisão sobre o campo da Economia Feminista, levando em consideração a classificação de Orozco (2005), entre: a) a Economia de Gênero, que não toma para si um campo de pesquisa autônomo, mas utiliza o recorte e a classificação de gênero em sua metodologia de pesquisa; b) Economia de Feminista da Conciliação, que utiliza os mesmos instrumentos metodológicos da economia mainstream para pesquisar questões específicas do campo, relativas aos motivos e dinâmicas da discriminação e exploração da mulher no mercado de trabalho e no campo doméstico; e c) A Economia Feminista da Ruptura, que não admite que o cânone teórico teria capacidade de absorver adequadamente os novos conceitos e sujeitos de pesquisa, especialmente no que tange a dicotomia mercado-masculinizado e lar-feminizado, evitando uma assimilação metodológica subordinada e dentro de uma compreensão ocidental do lar e do trabalho doméstico, incorrendo em vícios etnocêntricos (OROZCO, 2005 p.54). A revisão de tais corolários demonstra ainda dificuldade do campo em estruturar uma crítica Feminista à Economia Política, para além de realizar uma crítica aos métodos e aos princípios da economia neoclássica. Entretanto, há uma referência constante, presente em autoras como Antonella Picchio e Cristina Carrasco,sobre o papel das mulheres em mediar o conflito em que a transferência de valor para a acumulação capitalista inviabiliza o processo de reprodução da classe trabalhadora.
A análise do relatório do Banco Mundial revela uma abordagem da questão da mulher e do gênero em termos de diferença e diversidade, propondo um programa voltado ao reconhecimento desses elementos na teoria econômica até então homogeneizadora e sustentada sobre o pressuposto do homo oeconomicus. A base dessa agenda é a “análise de gênero”: longe de partir de uma leitura em termos de dominação-exploração oferecida pelas teoria do patriarcado moderno, que explora as origens e o fundamento sociometabólico das diferentes ordens de gênero e sua filogênese ao longo das relações capital-trabalho, a teoria traz o gênero como uma ordem da diferença que paira em cada sociedade, e busca mobilizar políticas para enquadrar tais configurações dentro da reconfiguração produtiva implementada pelos ajustes econômicos. Por mais de uma vez o relatório se refere à necessidade de se compreender as diferenças de gênero com o objetivo final de implementar as medidas para aprimorar a eficiência e competitividade desses mercados, deixando, portanto, de cumprir com a base mais fundamental de uma crítica feminista à economia: a subordinação das mulheres aos homens subjaz à subordinação da reprodução à acumulação capitalista. O “problema das mulheres” é abordado em termos de combate à pobreza, por dois motivos: a) As mulheres suportam as pressões geradas pela dissolução de recursos reprodutivos dos trabalhadores e b) As mulheres são mais propensas à pobreza e à miséria causadas nos processos de ajuste macroeconômico.
A ruptura da economia feminista acontece, portanto, em um contexto de relativo reconhecimento científico do feminismo, com o aprimoramento dos pressupostos e modelos macro e microeconômicos, e de institucionalização conflituosa dos frutos teóricos da luta das mulheres. Romper, portanto, com os imperativos que norteiam a análise econômica – como o paradigma da criação da vida como principal atividade do ser humano – no plano de uma institucionalização subordinada pode restringir o potencial da economia feminista a uma espécie de empirismo idealista, que se limita em oferecer instrumentos para analisar como são violadas as demandas sociorreprodutivas das sociedades. Embora essa seja uma fronteira política importante, que dá visibilidade às mulheres, é política e cientificamente limitada. É necessário, portanto, inscrever a economia política feminista em um movimento não subordinado de ocupação das instituições e, mais que isso, o alinhamento orgânico com os movimentos sociais feministas, construindo, portanto, um campo de práxis no qual o principal sujeito são as mulheres.
Portanto, a pesquisa corrobora para a compreensão de que o desafio da economia feminista é integrar sua análise em torno de uma crítica (aqui tomada como enquanto exame radical da realidade em sua totalidade) à economia política, partindo das relações intrínsecas entre capital, patriarcado e raça na garantia da reprodução geracional e, mais amplamente, antroponômica da mão-de-obra. As mais importantes contribuições da economia feminista ao campo da economia residem, portanto: a) na crítica à invisibilidade do trabalho de cuidado e a negação da importância da intersubjetividade contida no mesmo; b) Na visibilização de como esse trabalho concreto administra pressões geradas pela espoliação dos recursos voltados à reprodução capitalista dentro do conflito de classes capitalista – e de como o patriarcado confina as mulheres nesse papel; c) Na descrição de como o capitalismo molda as ordens de gênero em processos de acumulação primitiva, atingindo, portanto, de maneira específica mulheres de comunidades sobre as quais avança a fronteira da acumulação; d) Na sugestão de uma agenda de reversão das prioridades sociometabólicas.