A apresentação proposta se baseia na dissertação de mestrado intitulada “Caboclos contra o progresso: Conflito ambiental na Guerra do Contestado” concluída em 2017 no CPDA/UFRRJ. Nela pesquisamos a Guerra do Contestado (1912-1916), um conflito de enormes proporções ocorrido no planalto Sul do Brasil, região majoritariamente formada pelo bioma da Floresta com Araucária, a partir do ponto de vista da história ambiental e da ecologia política. Buscando elementos que nos permita caracterizar a Guerra do Contestado como um conflito ambiental, desenvolvemos um olhar sobre a bibliografia já existente sobre o conflito e sobre um conjunto de fontes que pudesse extrair as noções de natureza de dois grupos principais de sujeitos envolvidos no conflito: as classes dominantes e os caboclos pobres do planalto.
A respeito das classes dominantes, pesquisamos as relações com a natureza e visão de natureza de um grupo de atores comprometidos com a ideologia do progresso, representados pelas elites agrárias locais identificadas com o projeto do Ruralismo e pelo holding controlado por Percival Farquhar, estadunidense ator do imperialismo na região, cujas principais empresas são a Companhia Estrada de Ferro Brazil Railway Company e sua subsidiária madeireira Southern Lumber and Colonization Company, sem contudo deixar de perceber que ambos atores estavam amparados no aparelho de Estado da Primeira República. Do segundo conjunto de atores, que chamamos caboclos do planalto Contestado, buscamos extrair ecologia a partir da análise do modo de vida caboclo em suas práticas econômicas e costumes, sua religiosidade e seu projeto político que aflorou durante o conflito.
Entendendo que as ações das classes dominantes alteraram sobremaneira o modo de vida dos sertanejos assim como os ecossistemas do planalto Contestado, procuramos desenvolver argumentos que podem sustentar a tese da Guerra do Contestado como um conflito ambiental. Para isso dispomos de algumas categorias importantes da ecologia política na atualidade, como conflito ambiental distributivo, segundo Joan Martinez Alier, a perspectiva da ecologia política da diferença, em conformidade com a visão apresentada por Arturo Escobar, da epistemologia política, como Enrique Leff, e das diferentes formas de valoração da natureza. Utilizamos tais categorias como inspirações para compreendermos as diferentes dimensões da cultura, da religiosidade, da política, da economia e saberes de um conflito pretérito, que no caso em tela, demonstrou-se um conflito ambiental, apesar desta perspectiva ser ignorada pela historiografia até então.
A revolta dos caboclos contra a República do Brasil, que chegou a construir uma proposta política alternativa, estava intimamente vinculada à defesa de seu modo de vida e estava relacionada a uma economia moral. Além dos motivos econômicos quantitativos, a revolta deu-se por ações respaldadas pelos costumes em comum, pela cultura e pela razão, convictos de seus “direitos” e da possibilidade da constituição de um “comunismo caboclo” baseado em práticas comunitárias e relações de maior reciprocidade com a natureza.
Configurou-se como um conflito ecológico distributivo, pois a revolta estava relacionada à efetiva expulsão de antigos posseiros e seu acesso a recursos. Do ponto de vista da valoração ecológica, os caboclos confrontaram uma dimensão mercadológica da natureza por parte das classes dominantes enquanto reivindicavam outra noção constituída por um sentimento de pertencimento, culturais e costumeiros, permeada dos valores religiosos do catolicismo caboclo inspirado nos ensinamentos do monge São João Maria. O enfrentamento político possuía um conteúdo epistêmico, pois em nome de postulados da ciência e da superioridade de seus conhecimentos no contexto da ideologia do positivismo, as forças do Estado e das milícias buscaram eliminar o modo de vida caboclo, constituído por sua vez de uma relação de reciprocidade com a natureza mediada por saberes próprios.
Propomos ao fim a existência de um ecologismo caboclo, um ecologismo dos pobres sertanejos da região do planalto do Contestado, como expressão da defesa da natureza e dos bens comuns daquelas populações envolvidas no conflito. Essa ideia está baseada nas noções gerais que levaram Alier a sustentar a leitura de um ecologismo dos pobres em muitos conflitos sociais com conteúdo ecológico, ao perceber que muitos conflitos camponeses do passado podem ser vistos retrospectivamente também como conflitos ambientais. A luta dos caboclos pela sobrevivência e pelo seus modos de vida continham nitidamente uma relação de dependência e de maior reciprocidade com a natureza. Desta forma, o direito a existir do caboclo também era uma questão ecológica, que se contrapunha ao avanço das madeireiras e outros empreendimentos sob a égide da ideologia do progresso sobre os rios, flora e fauna do bioma da Floresta com Araucária.