Ao se identificar como um jovem periférico, uma jovem lésbica, um jovem rural, uma jovem indígena, ou como um(a) jovem do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), da Associação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, do Levante Popular da Juventude, do Movimento Brasil Livre (MBL), do movimento estudantil ou de um partido político são acionadas experiências, vivências elementos de suas condições econômicas e sociais de vida, sexualidade, referências territoriais, raça, etnia, mas, também leituras da sociedade, formas de pertencimento e de atuação em uma dinâmica de interseccionalidade (Stolke, V. 2006; Brah,A. 2006). As identidades, na perspectiva de Avtar Brah (2006) são “inscritas através de experiências culturalmente construídas em relações sociais.” (:371) são construções coletivas vivenciadas por meio de experiências individuais. Thompson (1987) nos apresenta identidade como um processo histórico construído em um fazer-se pela experiência coletiva formando, num devir da vivência, a consciência de classe do operariado inglês, antes mesmo de se tornar a maioria dos trabalhadores na Inglaterra do séc. XIX. O que é acionado por pessoas que se identificam como jovens e, ainda, o que as mobiliza para se identificarem politicamente num sentido de ação e intervenção no Brasil do século XXI? O sentimento de rápidas mudanças e de persistências culturais que vivenciamos no século XXI, nos instiga a analisar o que aproxima as pessoas e as põe em movimento na disputa por idéias e rumos da sociedade. O debate sobre a categoria juventude torna-se central na medida em que as muitas concepções que se entrecruzam definem olhares, estigmas, pertencimentos, inclusões e exclusões sociais e, a atuação do poder público. Mas trata-se também de uma categoria que contribui para pensarmos identidade como processo de construção social e política. A partir dos anos 2000 observamos no Brasil uma presença importante da juventude como categoria de identificação política em movimentos sociais, em espaços de representação nacional e de diálogo com instâncias governamentais de formulação de políticas públicas. A categoria pode ser lida como uma identidade coletiva (Brah, A., 2006) formada por múltiplas experiências. Poderíamos afirmar que temos uma unidade geracional como conceituou Karl Manheim (1993) na medida em que apesar das diferenças há uma identificação social e política que aciona essa categoria (Castro, E.G., 2016). Nesse cenário, as juventudes, como definiu Regina Novaes (2012) disputam, também, suas possibilidades de viver e ver reconhecido a sua diversidade sexual, bem como romper com opressões e desigualdades de gênero, étnicos e raciais, e territoriais. Ou seja, formas de vivenciar seus múltiplos entendimentos de juventude sem desqualificações nos espaços de decisão. Mas outras questões mobilizam as representações sociais e políticas da juventude nessa história recente do Brasil. Desde 2003 o Brasil e outros países da América do Sul vivenciam mudanças políticas e disputa contínua de projetos políticos para a Região. A juventude esteve presente de muitas formas nesse cenário. No Brasil os governos Lula (2003- 2006/2007-2010) e Dilma (2011-2014/2015-) deram visibilidade ao tema juventude com a criação de marcos regulatórios, e institucionalizando sua representação, bem como criando órgãos de formulação e execução de políticas públicos no Governo Federal. Esta experiência de atuação do Estado ocorre em meio a um pujante debate acadêmico e, principalmente, à intensa articulação da juventude a partir de identidades, formas organizativas e de representação social. O que observamos foi uma categoria acionada como identidade política. O processo de fazer-se juventude como ator político é recente, intenso e complexo uma vez que a identidade é acionada em formas organizativas e representativas diversas. Os e as jovens estão articulados no Brasil há décadas em partidos políticos de diferentes matizes, pastorais da igreja católica, movimentos sociais e em organizações estudantis (Foracchi, M.M.,1972; Mische,A.,1997), mas não necessariamente identificados sob a categoria juventude. Mais recentemente percebemos uma presença mais evidente do uso da categoria juventude como identificador organizativo em movimentos sociais com agendas amplas e em organizações estritamente de juventude, e, ainda, com múltipla atuação que reflete a sua interseccionalidade (classe, gênero, raça/etnia, sexualidade, territorialidade). O período marcado pela institucionalização das políticas públicas de juventude a partir de 2005 com a criação da Secretaria Nacional da Juventude e do Conselho Nacional de Juventude marca, também, um processo de reconhecimento com a definição de agendas e disputa de recursos e direitos, na perspectiva proposta por Nancy Fraser (2001). Assim observamos uma configuração das formações de identidade em diálogo e disputa com o denominado campo, na perspectiva Bourdiana (1989) das políticas públicas de juventude. No entanto, nesse mesmo período, e mais especificamente a partir dos anos 2011-2013 vivenciamos mobilizações de massa internacionais e nacionais com forte presença da juventude. No cenário internacional mobilizações como a dos Indignados da Puerta del Sol (Espanha), Geração `Rasca (Portugal), ocupação da praça Syntagma (Grécia) marcadas pela crise social iniciada em 2008. Na América Latina, no Chile tivemos as reivindicações de educação pública e gratuita. Nos EUA a ocupação de Wall Street e em muitos estados teve como foco denúncias dos bancos e corporações. Uma marca presente foi o uso da internet como forma de mobilização agregada a mobilização de massa em espaços públicos e a agenda anti-neoliberal. Ou ainda a derrubada de ditaduras como na Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen. (Harvey, D. 2012). No Brasil observamos um fenômeno que se aproxima das agendas anti-capitalistas, mas, também, por mais políticas públicas nas chamadas Jornadas de Junho (Gohn, M.G.M. 2016). No entanto, podemos pontuar uma mudança de configuração ao longo das Jornadas de Junho, com a pauta da corrupção, fortemente acionada pela mídia, que se tornará pauta permanente de mobilização até o Impeachment da presidenta Dilma. Nesse artigo apresentaremos os resultados parciais de uma pesquisa em andamento: em um primeiro momento recuperaremos o debate juventude como categoria, representação, participação política e políticas públicas na história recente do Brasil; em seguida apresentaremos um primeiro mapeamento das organizações de juventude; e finalizaremos com as perspectivas de análise em curso.
Considerações finais
O Brasil experimentou nos últimos 15 anos um encontro de grande relevância para a compreensão das questões que importam a juventude. Observamos uma ruptura com o conceito usualmente definidor de juventude até os fins da década de 1990: “jovem em situação de risco”, que associava fortemente a juventude brasileira à delinquência e como categoria social ameaçada. De 2000 a 2017 a juventude brasileira se organizou nos campos e nas cidades em movimentos sociais, organizações culturais e religiosas, redes e muitas outras formas de expressar como se vêem, como se identificam e quais são suas agendas políticas. Esse processe esteve intensamente imbricado com o debate efervescente na academia em que a diversidade e a condição de sujeitos de direitos emerge como qualificador da juventude (Novaes, R. R. 2012). Afirmo que nesse contexto tivemos avanços e limitações. Partindo da análise da categoria juventude podemos afirmar que como categoria social a juventude passa a ser reconhecida em sua diversidade e não mais a partir de um olhar exclusivamente metropolitano e com foco na condição de risco. A categoria juventude sujeito de direitos assume um importante papel na disputa pela apropriação social da categoria e permite a ampliação do reconhecimento da juventude tanto para a formulação e aprovação de aparatos legais como o Estatuto da Juventude, quanto na priorização de verbas federais e estruturação institucional no âmbito do Estado, tanto em nível federal, quanto estadual e municipal. (Ribeiro, E. 2016). No processo de consolidação do campo das políticas públicas de juventude destacam-se como importantes avanços: a apropriação do debate juventude e políticas públicas por parte de indivíduos/coletivos inseridos em diferentes espaços da sociedade; a apropriação do debate e de capacidade de formulação, por uma parcela cada vez maior da juventude organizada e que se organizou a partir dessa conjuntura; a penetração no senso comum desse debate ainda que fortemente disputado e mediado por outros atores como a mídia. Contudo, ainda vivemos fragilidades na consolidação dessas conquistas. Isso torna-se mais evidente com o desmonte das políticas públicas de juventude e em especial da participação social como método de governo promovidos pós-golpe, já nos primeiros meses do Governo Temer. Se a juventude negra e a violência inconteste sofrida pelos jovens, negros e especialmente das periferias urbanas, finalmente foi priorizada, um olhar sobre as ações para a juventude rural, juventude LGBTTQ, jovens mulheres, juventude indígena – dentre outras formas identiárias – demonstram que a apropriação de suas demandas e agendas pelo Estado, mesmo por governos democráticos e populares ainda esteve distante. Analisar as configurações recentes das identidades políticas da juventude pode ainda contribuir para um aprofundamento teórico-metodológico de análise de representações sociais e os sentidos e significados das formas de mobilização política. Mais ainda, poderá nos ajudar a ler o momento atual no Brasil e na Região. Essa perspectiva de análise como construção de campos progressistas e conservadores, e suas configurações, nos quais se articulam movimentos de juventude de diferentes matizes, construindo consensos, vivenciando conflitos, ordenando e negociando suas agendas e expressando sua atuação em repertórios de ação, pode ser uma importante agenda de pesquisa.