Nas últimas décadas ativistas de movimentos negros e indígenas foram elevados à condição de representantes de instituições estatais latino-americanas e, como consequência, uma maior participação na elaboração de políticas consideradas por muitos analistas como étnicas, principalmente quando levadas em consideração muito mais as populações indígenas que as negras. Para compreender esse fenômeno, pesquisadores argumentavam na seguinte direção: primeiro, o surgimento e crescimento de partidos indígenas em países da América Latina(Bolívia, Equador, Guatemala, Colômbia), desde a segunda metade dos anos noventa, e com maior visibilidade na primeira década do século XXI; segundo, uma maior influência de movimentos indígenas em determinados contextos; terceiro, uma combinação pelos partidos políticos de apelos populistas e étnicos, considerado até com a acepção da categoria etnopopulismo, compreendida como uma campanha e estratégia de governo em que partidos ou políticos combinam apelos populistas e étnicos ou mesmo políticas(Madrid, 2012, p.3s). Nessa visão etnopopulismo implicaria em exclusão ou inclusão. E pesquisadores tem feito essa divisão opondo o exemplo de políticas partidárias na América Latina (ditas inclusivas), ao contrário de partidos de direita que na Europa propuseram políticas de exclusão anti-imigratórias. Etnopopulismo envolveria tipos de apelos e políticas econômicas. E novamente países da América Latina foram assim exemplificados. Partidos indígenas empregaram o nacionalismo e o apelo de intervenção estatal que seriam características de um populismo tradicional, mas políticos como Alberto Fujimori (Peru) e Alejandro Toledo (Peru) combinaram apelo populista neoliberal e étnico.
Essa conceitualização é simplista e reveladora de anacronismo. A categoria populismo foi alçada para exemplificar políticas de governos latino-americanos, na segunda metade do século XX; e o acréscimo do etno demonstra uma espécie de categoria guarda-chuva que abriga um fenômeno antigo com uma nova roupagem – assunção de políticas para grupos e populações até então sub-representadas (antes, pobres, atualmente indígenas e negros). É como se a etnicidade desse um tom de continuidade e enfatizasse algo imutável ao longo das décadas nessas sociedades. A oposição inclusão versus exclusão nessas políticas chegaria ao ponto de incluir até partidos de direita europeus.
Diria, fruto de um wishful thinking de scholars americanos que nem intelectuais de esquerda conseguiram escapar. Estão presos a uma armadilha menos conceitual que política e deveras etnocêntrica. Afinal, como definir as políticas direcionadas para populações marginalizadas e subrepresentadas na esferal estatal?
Nessa uniformização não se vislumbram os diferentes processos ali existentes. Muito menos no período mais recente as estratégias de diferentes grupos ou seus representantes na elaboração e participação dessas políticas. Acrescentaria também à assunção de novas elites políticas nesse período aqui examinado. Sobram nessa literatura caracterizações e faltam dados e, portanto, argumentos plausíveis de me convencerem. Assim, uma nova dimensão se estabeleceu no Estado visto até então como opressor e excludente. Por certo um paradoxo. Deriva daí que o espaço institucional é um lócus de enfrentamentos, tensões e disputas.
Se observado pela presença de ativistas de movimentos sociais negros em representações estatais de países da América Latina (Colombia, Equador, Honduras, Guatemala), a reflexão tem sido via a ideologia do multiculturalismo, evocando mudanças em novas Constituições e elaboração de leis, as quais reconhecem a diversidade cultural, racial e étnica nesses países; bem como a cooptação de movimentos negros pelo Estado levando a uma maior visibilidade e participação no aparato do Estado (Rahier, 2012).
Ora, mais o que dizer quando nessas lutas inter e intra/interinstitucionais o reconhecimento de direitos passa a ser a tônica diária na burocracia estatal? Como os sujeitos não são marionetes de uma instituição absoluta (o Estado) há que compreender o modo como foram alçados à condição de representantes oficiais, o jogo jogado e o jogo que desejavam jogar, a forma como compreendiam suas ações, principalmente aquelas dirigidas ao espaço público.
Keck e Sikkink (1998, apud Sharma e Gupta, 2006) utilizaram a expressão «redes transnacionais» para descrever as afiliações transfronteiriças de grupos ativistas organizados em torno de questões locais como o ambiente e a violência contra as mulheres. Isso demonstra que há nessas ações tanto recursos quanto um potencial constantemente estimulado para as organizações envolvidas. A esse exemplo acrescentaria as comunidades indígenas e suas articulações no país, aí também inseridos antropólogos, desde os anos oitenta do século passado. Essas redes transcendem fronteiras, mesmo que as entidades envolvidas tenham muito mais uma visibilidade local na esfera pública, e que, aparentemente, a sua constituição se dê, aparentemente, em eventos pontuais. Daí se deduz que os eventos buscam tanto pressionar Estados-locais quanto instituições transnacionais que elaboram políticas públicas, como o BID e o Banco Mundial. E com o ativismo negro não seria diferente, vide o exemplo da conferência de Durban, África do Sul, em 2001. Ou mesmo a posterior realização de eventos como simpósios de temática negra envolvendo instituições oficiais brasileiras e representações do movimento social negro da Colômbia no período aqui analisado.
Penso ser necessária uma análise que compare essas experiências, mesmo que nessa tese não seja esse o objeto de análise, levando em conta a avaliação de sujeitos sobre as suas próprias experiências, e o que dele resultou como discurso oficial do Estado. Experiências vistas não como individuais, mas como práticas sociais resultantes de estratégias elaboradas coletivamente por sujeitos inseridos de movimentos sociais.