Após a eleição presidencial de Dilma Roussef em 26 de outubro de 2014, que obteve 54,5 milhões de votos (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2014) iniciou-se uma série de manifestações contrárias ao governo eleito questionando, inclusive, a própria legalidade das eleições presidenciais. Protestos ocorridos na Avenida Paulista em São Paulo no dia 05 de dezembro de 2014 organizado pelo movimento Vem Pra Rua com apoio do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), demonstram que parte da população brasileira estava insatisfeita com o resultado das urnas.
Em 2015 aconteceram novas manifestações contrárias ao governo, desta vez com maior expressividade e que foram noticiadas pelos grandes veículos de comunicação. Os manifestantes se unificavam em torno da pauta de combate à corrupção incentivados, sobretudo, por conta da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara dos Deputados sobre a Petrobrás, que investigava o superfaturamento e práticas ilícitas na construção de refinarias no Brasil. Por conseguinte, em 15 de março de 2015 ocorreram protestos massivos nas principais capitais do país. Os participantes traziam faixas e cartazes contra a presidente Dilma e o Partido dos Trabalhadores (PT), e pediam o fim da corrupção e investigações mais sérias dos escândalos na Petrobras.
Percebe-se, portanto, que o impeachment foi marcado por um processo intenso de discussão e manifestação de opiniões, onde os meios de comunicação nacional ocuparam papel central na cobertura deste debate. Ao longo de todo o processo, pode-se perceber a divulgação de matérias que cobriam desde as manifestações contrárias ao governo Dilma e favoráveis à sua cassação, como a publicada pelo jornal Folha de S.Paulo no dia 13 de março de 2016, bem como, artigos de opinião que analisavam a crise do governo e apontavam a corrupção como o grande mal nacional a ser combatido, tomando como exemplo a publicação do Estado de S.Paulo do dia 22 de junho de 2016.
Embora a mídia tenha atuado, neste caso, como um instrumento importante na produção e disseminação de informações, o que pode ser facilmente percebido ao analisar a quantidade de matérias produzidas sobre o impeachment e temas afins (corrupção, crise política, etc.), seu papel não se resumiu apenas a este caráter. A literatura (WEBER, 1910; THOMPSOM, 1990; MIGUEL 2002; MIGUEL 2003) chama atenção para o fato de que os meios de comunicação possuem nas sociedades modernas, um papel central na construção do debate público e na disseminação de valores simbólicos, bem como, exercem influência significativa sobre os processos políticos e na conformação dos padrões sociais e das relações de poder.
Considerando-se que hoje a comunicação publica esta, em certa medida, dominada pela forma de comunicação mediada (FRANCISQUINI, 2014), percebe-se que os meios de comunicação de massa assumem um papel central no processo discursivo mencionado por Habermas. A partir da noção de esfera pública, que cumpre o papel de mediar a relação entre Estado e sociedade civil, Habermas argumenta que é através da dinâmica da comunicação que a vontade coletiva é processada, e é a partir desta que são deliberadas e processadas as questões que entrarão na agenda política (HABERMAS, 2008). O autor argumenta que por serem os responsáveis por mediar o processo de comunicação nas sociedades contemporâneas, os media se constituem como uma fonte de poder, pois são estes que mobilizam as questões e informações relevantes que irão compor a agenda política (HABERMAS, 2008).
Dialogando com esta ideia, em que a comunicação mediada aparece como elemento central na construção da consciência e da opinião pública, e que ressalta que a agenda política é condicionada e construída a partir das questões que são colocadas em pauta pelos meios de comunicação, o presente trabalho tem como objetivo analisar a cobertura da grande mídia brasileira acerca do impeachment da presidente Dilma. A ideia é mapear o debate público na mídia impressa brasileira durante o período de 17 de abril de 2016, data em que foi protocolado o impeachment na Câmara dos deputados, a 31 de agosto de 2016, data da aprovação do impeachment no Senado brasileiro. Para tanto, serão analisados os editoriais publicados pelos principais veículos de comunicação impressa do Brasil, os jornais Estado de S. Paulo, O Globo e Folha de S. Paulo. Desta forma, pretende-se analisar o processo discursivo sobre o impeachment da presidente Dilma, buscando-se mapear quais as interpretações e avaliações sobre o tema foram veiculadas pelos jornais.