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Resumen de ponencia
A dimensão educativa das organizações juvenis: Política e formação política na atuação dos coletivos estudantis em uma universidade do interior de Minas Gerais, Brasil.

*Luís Groppo



Apresentam-se resultados da pesquisa “A dimensão educativa das organizações juvenis”, desenvolvida entre 2016 e 2018, tanto em aspectos teóricos quanto empíricos. Nos teóricos, reavalia a bibliografia sobre socialização política, subjetivação política e formação política. Nos empíricos, sistematiza resultados da pesquisa sobre organizações juvenis atuantes em uma universidade do interior do estado de Minas Gerais.
O principal objetivo da pesquisa é analisar a formação social e política no interior de coletivos juvenis atuantes na universidade, por meio de processos educativos não formais e informais, enfatizando as práticas e os sentidos desta formação. Diversos têm sido os coletivos pesquisados: organizações políticas, entidades estudantis oficiais (como Diretório Central Estudantil e Centros Acadêmicos), coletivos culturais e grupos religiosos. Estes coletivos juvenis, atuantes nos espaços informais ou não formais da instituição universitária, têm se mostrado como relevantes instrumentos de formação política das/dos jovens. Inclusive estudantes que não pertencem a coletivos, inicialmente as/os “não-organizadas”/”não-organizados”, podem se envolver em eventos promovidos pelos coletivos, tais como assembleias, protestos, palestras, debates, atividades culturais, cartazes, panfletos, ocupações, greve. Eventos, em geral, não vinculados a atividades formais organizadas pelos docentes. Em ação coletiva realizada na universidade, no 2º semestre de 2016, quando ela foi ocupada pelas/pelos estudantes, em protesto contra medidas regressivas do governo federal, as/os “não-organizadas”/ “não organizados” metamorfosearam-se em “Independentes”. A formação política ensejada pelas organizações juvenis, certamente, foi importante para essa transformação.
Estas atividades formativas distanciam-se de modelos tradicionais preconizados pelos estudos clássicos da socialização política. Nestes modelos, a socialização política é um processo guiado por instituições comandadas por adultos (família e escola), que tem como tarefa a internalização dos valores básicos que orientam o funcionamento do espaço público das instituições políticas formais (Estado, partidos, sindicatos etc.). Mais interessante tem sido o uso, para a análise, da noção de subjetivação política, baseada em Jacques Rancière. Ela ajuda a compreender os processos de autoeducação ou coeducação protagonizados no cotidiano dos coletivos juvenis, ou em momentos excepcionais, como a ocupação do espaço da universidade. Processos e ações que buscam impactar a realidade imediata, para além de mero ensaio ou preparação para a cidadania apenas na idade adulta. A noção de subjetivação política ajuda a compreender a emergência, no espaço público, de sujeitos e pautas supostamente relegadas ao mundo privado, repolitizando questões como a permanência na universidade, sexualidade, relações de gênero e relações étnico-raciais.
A noção de subjetivação política tende a focar processos microssociais e individuais e a tratar de questões da psicologia social. Certamente, são foco e questões de enorme relevância, cuja aplicação aos temas da educação tem muito a oferecer. Entretanto, a pesquisa aqui trazida sobre as organizações juvenis tem uma preocupação central provavelmente mais modesta, a saber, a descrição e a compreensão de processos educativos ou de formação política pelos coletivos juvenis, os quais tendem a ser invisibilizados pela universidade (do ponto de vista da educação formal) e pelas análises (do ponto de vista da pesquisa educacional). Processos que as próprias organizações juvenis tendem a ofuscar em favor de outros temas, como as análises de conjuntura. Ao que parece, os próprios coletivos dos estudantes parecem pouco conscientes acerca da penetração e da inventividade de suas estratégias formativas e do impacto que podem ter nos jovens que atingem. Essas são importantes justificativas para a pesquisa “A dimensão educativa das organizações juvenis”
A ação coletiva de ocupação da universidade, em 2016, e a atuação de dois coletivos juvenis – um grupo evangélico e um grupo que oferecia um cursinho popular - foram foco de maiores análises até o momento.
A ocupação da universidade foi uma ação inspirada pelas ocupações de estudantes secundaristas, incluindo sua tática organizativa (assembleias, comissões, atividades formativas etc.), baseada nas experiências dos Pinguins chilenos e secundaristas da Argentina. Foi uma longa ocupação, de quase dois meses, em que, nos seus momentos de maior efervescência, construiu relações intergeracionais muito interessantes, não apenas entre estudantes da educação superior e secundaristas, mas também entre estudantes e geração adulta – já que, além da ocupação estudantil, houve uma greve docente e do corpo técnico da universidade. Os coletivos juvenis ligados a partidos políticos, principalmente o que coordenava o Diretório Central Estudantil, participaram da ação ao lado de uma grande maioria composta por estudantes “independentes”, que deram o tom desta ação coletiva, a despeito das diferentes táticas dos coletivos e das diretivas de suas coordenações adultas. As ocupações estudantis foram um inesperado processo autoformativo, tanto no aprendizado em comum da política como ação coletiva, quanto nas práticas de gestão da ocupação e, enfim, nas atividades educativas alternativas criadas no dia-a-dia do movimento, com “aulões”, oficinas, rodas de conversa, cine-debates etc.
Quanto ao grupo evangélico, assim como foi feito com a ocupação, ele foi investigado por meio de observação participante e entrevistas. Buscou-se conhecer suas práticas formativas, sua contribuição para a inserção das/dos jovens na vida universitária, os sentidos que atribui à filiação religiosa na universidade e as suas relações políticas. Por meio dos dados empíricos, em cotejo com bibliografia sobre juventude, religião e universidade no Brasil atual, foi possível concluir que a religião é uma importante forma de socialização e sociabilidade para as/os estudantes da Educação Superior, além de ter relevantes efeitos na relação das/dos jovens evangélicas/evangélicos com a esfera pública e na sua participação política. Diferentemente do que suporia uma leitura mais superficial acerca do evangelismo, o grupo evangélico na universidade se dedica pouco à conversão de novas/novos fiéis. O grupo serve principalmente como refúgio para continuar a cultivar a identidade religiosa prévia. Para elas/eles, bem como para muitas/muitos que participam de modo pontual dos encontros bíblicos, o grupo serve como uma adequação entre a identidade religiosa e a nova identidade universitária. Isso ajuda a explicar o uso de linguagem e argumentação lógico-racional nos encontros, bem como a presença de temas que aproximam a cultura religiosa da cultura acadêmica, ensinando, por exemplo, a como se portar diante das rotinas acadêmicas.
Outro grupo pesquisado está ligado a uma Rede de cursinhos populares. Essa Rede, assim como outros sujeitos do campo dos cursinhos populares no Brasil, projeta lutas sociais pelos direitos à educação, contesta os limites da democratização da Educação Superior, fomenta cursinhos populares em que busca combinar o desejo individual do acesso à universidade com projetos coletivos de transformação social e promove a formação de docentes para os cursinhos, que mantém vivas as práticas pedagógicas alternativas que marcam a Rede. Em relação ao coletivo investigado na universidade do Sul de Minas Gerais, as observações sobre as suas práticas pedagógicas, assim como os relatos colhidos nas entrevistas, revelam que o maior mérito desse coletivo foi o seu grande poder de formação de educadoras/educadores. Revela-se uma nova dimensão da autoformação das/dos estudantes da Universidade, a saber, a de professoras/professores. As/os estudantes, em porção considerável, vieram se autoformando na docência pelo cultivo das práticas pedagógicas próprias do cursinho popular, bem como tiveram aprendizados sobre a gestão educacional por meio do exercício da coordenação.
Como visto, a pesquisa “A dimensão educativa das organizações juvenis” tem encontrado resultados relevantes acerca dos processos formativos – em especial, autoformativos e co-formativos – que os diferentes coletivos têm construído ou recriado. Processos que incidem, por vezes inesperadamente, em aspectos como a política institucional, a participação em ações coletivas, a formação docente e até mesmo a religiosidade. A pesquisa continua a fazer investigações empíricas sobre outros coletivos: o Diretório Central Estudantil, um Centro Acadêmico, um grupo cultural e três coletivos ligados a partidos políticos. Também, tem refletido sobre o momento pós-ocupação, quando se esperava um aquecimento das ações políticas na universidade – algo que não se confirmou. Com a análise desses outros dados, esperam-se resultados mais aprofundados e que auxiliem na compreensão desta importante dimensão formativa da universidade, que é gerida pelo próprio corpo discente.




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* Groppo
Universidade Federal de Alfenas UNIFAl-MG. ALFENAS, Brasil