Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Eu não sou o seu negro e o racismo nos EUA

*Guilherme Santos



A pesquisa busca analisar como se dá a representação do racismo na obra Eu não sou o seu negro. O trabalho se debruça sobre o documentário, que tem como temática o pensador James Baldwin e sua visão sobre o racismo nos EUA; país em que, segundo Cornel West (1994), importante crítico norte-americano, o debate racial ainda é tratado de modo bastante reducionista, mantendo-se restrito às disputas entre liberais e conservadores, e não aprofundando o problema. Pessoas negras, dentro desta perspectiva, são vistas como “pessoas-problema” e não como cidadãos comuns norte-americanos que tem problemas. Ou seja, o debate transcende o âmbito econômico e social, e está relacionado com a incapacidade do Estado norte-americano de tratar os negros como parte efetiva da nação.

O documentário é diferente de outras formas de fazer cinema, como as diversas ficções. Entretanto, não há uma diferença absoluta entre o documentário e a ficção, e isto é motivo de debates no âmbito cinematográfico. Como Bill Nichols (2005) argumenta, os problemas de representação da realidade têm exigido cada vez mais criatividade e inventividade por parte dos documentaristas. Há um potencial importante no documentário que é chamar atenção para questões do mundo histórico que precisam ser levadas em conta.

Os negros, dentro da sociedade norte-americana, historicamente têm um estatuto de não-lugar, pois tiveram que conviver com as prisões, com as Leis de Jim Crow que fomentaram a segregação cada vez mais escancarada e violenta, com os assassinatos de líderes negros nas lutas pelos direitos civis, com as discriminações e violências diárias. Os negros dos EUA dentro desta perspectiva não são vistos como estadunidenses, mas como uma espécie de “estrangeiros” em solo americano, não dotados dos direitos que são inerentes aos cidadãos ordinários, inclusive o direito à vida e a uma existência digna.

O contexto do filme em grande parte centra-se nos anos 1960, que foram muito significativos para a luta pelos direitos civis e contra a segregação racial nos EUA. O cenário estava complicado, em grande medida por conta da violência policial. Existiram diversos casos que permitem exemplificar o contexto de segregação vivido pelos negros na época, como o caso de Dorothy Counts: uma menina de 15 anos que foi hostilizada por racistas e separatistas por ser a única negra a ir para a escola em Charlotte, Carolina do Norte. A intolerância e a violência contra negros não cessavam, exigindo ações por parte dos movimentos sociais. Diversos protestos ocorreram nessa época, como o boicote de negros aos ônibus de Montgomery, que ocorreu entre 1955 e 1956 sob a liderança de King. Porém, os assassinatos contra negros continuaram acontecendo: Medgar Evers, Malcolm X e o próprio King foram mortos e se tornaram mártires da luta antirracista.

A respeito da obra de arte, é necessário compreendê-la levando em consideração o tempo histórico em que ela está inserida, situando as condições materiais da sua produção e relacionando estes aspectos com as implicações estéticas da obra. De modo que, é utilizado, no processo de análise, a técnica de decupagem (do francês découpage) que diz respeito ao processo de decomposição das cenas e sua recomposição para a construção de uma interpretação. Para analisar um filme, é necessário determinado afastamento de uma circunstância comum em que se assistiria ao mesmo, entretanto, têm-se como meta ser fiel à obra, ao mesmo tempo gerando um caráter explicativo que é peculiar a cada analista. (CASETTI; DI CHIO, 1990)

O trabalho, dentro desta perspectiva, propõe uma abordagem interdisciplinar que envolve uma relação entre as ciências humanas, num debate racial, e a arte, em específico o cinema. Eu não sou o seu negro (2016), obra analisada, consiste num documentário do cineasta Raoul Peck, que produziu na sua carreira diversas obras que abordam temáticas sociais, dentre elas, o filme Abril Sangrento, do ano de 2005, que trata do drama de uma família que tenta sobreviver em meio ao genocídio que ocorreu em Ruanda.

Em Eu não sou o seu negro (2016), Peck utilizou o livro inacabado Remember this house (1979), do escritor James Baldwin, como roteiro do filme. A obra possui contribuições relevantes para a discussão do valor que as ‘vidas negras’ historicamente têm na sociedade estadunidense. Escritor e crítico estadunidense, James Baldwin foi autor de diversas obras, sendo a mais conhecida delas o romance Go tell it on the mountain (1953).

Baldwin ficou famoso também por conta dos seus debates e por levar questões, como a racial, para lugares historicamente restritos aos brancos na sociedade estadunidense, como a universidade. Ele se propõe a contar em Remember this house (1979) a história do racismo nos EUA trazendo as trajetórias de três líderes da luta antirracista que foram assassinados: Malcolm X, Martin Luther King e Medgar Evers. James Baldwin é o personagem central do documentário, contextualizando acontecimentos da época em que viveu como o Movimento dos Direitos Civis, os ataques sofridos por negros, e promove importantes debates, ele atua como uma testemunha de seu tempo histórico.





......................

* Santos
Centro de Estudos Afro-Orientais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH). Universidade Federal da Bahia (UFBA) - CEAO/UFBA. Salvador, Bahía, Brasil