O objetivo deste trabalho é apresentar, por um lado, uma leitura crítica de determinadas concepções fundantes das produções acadêmicas do pensamento decolonial, as ideias de paradigma outro e pensamento fronteiriço, assim como a forma em que a ideia de modernidade é por elas concebida. Com isso, procuramos advertir para uma tendência a um déficit decolonial na elaboração dessas concepções que possa incidir de forma enfraquecedora sobre o próprio projeto decolonial, que é a libertação. Por outro lado, partindo da crítica a tais contradições presentes no pensamento decolonial, procuramos argumentar sobre a potência decolonizadora em categorias forjadas nos pensamentos de intelectuais afrolatinoamericanas, a exemplo de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento; categorias, estas, que perfazem um caminho reflexivo e ativo, alternativo a determinadas proposições do pensamento decolonial e que merecem ser retomadas e (re)introduzidas de forma mais significativa nos debates sobre projetos intelectuais emancipatórios e libertadores da região. As reflexões aqui expostas se deram através de uma leitura comparada de autores inscritos na vocalização do “colonizado” e do tensionamento entre suas ideias e expressões epistêmicas. Feita uma breve crítica a determinadas vulnerabilidades presentes nas concepções de "paradigma outro" e "pensamento fronteiriço" introduzidas no pensamento decolonial por Walter Mignolo, procuramos evidenciar, através da discussão das categorias "amefricanidade" e "quilombo", forjadas respectivamente nos pensamentos das intelectuais afrolatinoamericanas Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, a necessidade de visibilizar a potência de ação política latente nas performances de resistência e sobrevivência dos sujeitos racializados e inseridos na complexa teia das opressões estruturais, atualizadas e orquestradas na contigência pela colonialidade do poder. Tento mostrar, neste trabalho, que estas categorias perfazem um caminho reflexivo e ativo, alternativo a proposições de autoctonia sectárias presentes no pensamento decolonial. Sugiro que as posturas epistêmicas de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento são reveladoras e instigadoras de processos de ações concretas, que podem enriquecer os caminhos teóricos, de politização e práticos da elaboração da ideia de libertação pelos projetos intelectuais emancipatórios e libertadores insurgentes na América Latina. Ou seja, acredito que, com as autoras acionadas neste texto, através da vocalização de suas perspectivas, de forma situada nas contingências engendradas e derivadas da lógica da colonialidade, podemos enxergar a ação prática de subversão, onde determinadas lentes sectárias do projeto decolonial se recusam ou negligenciam em exergar. Desta forma, partindo do princípio de que evidenciar a opressão é imprescindível, mas não o suficiente, o caminho que aqui tentei trilhar, sob o exemplo de Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento, é de contribuir com o descortinamento, valorização e reposicionamento teórico sobre as formas de resistência e luta dos sujeitos submetidos aos horrores do colonialismo e da colonialidade; formas, estas, geradoras de sistemas de autoridade e poderes que podem ser distintos do Estado. Esse é um passo fundamental para qualquer tentativa de visibilização, nessas ações, de alternativas possíveis de reordenamento civilizatório e estatal. Sobreviver e existir, num contexto de opressão extrema, de pontencial destrutivo não somente da subjetividade, mas dos próprios corpos, já são verbos que estão - para os sujeitos racializados e atacados cotidianamente pelos horrores da colonialidade nas suas mais diversas dimensões opressivas -, inexoravelmente no campo da ação. E essa sobrevivência e existência implicam também persistir em tratar da política considerando a inescapabilidade de suas formas pragmáticas. Por isso apostamos na conexão solidária das categorias de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento às formulações de Khatibi trazidas a esse texto através de Walsh, as quais se mostram muito mais próximas do sentido radical de luta fanoniana, por atribuir ao pensamento a possibilidade real de “descolonializar-se”, se transmutando em pensamento-ação, justamente por não abandonar a dimensão da estratégia, “uma estratégia sem sistema fechado”, que se assuma como “uma construção de um jogo do pensar e do político, que ganha terreno silenciosamente sobre seus desfalecimentos e seus sofrimentos” (apud Walsh, 2005, p. 22).