Este trabalho tem como objetivo identificar e analisar de que forma a Realidade Social Moderna e sua complexidade pode ser apresentada e discutida através do gênero cinematográfico Realismo Mágico, utilizando como estudo de caso o filme Sonhos do diretor Akira Kurosawa. Filme composto por oito curtas metragens que compõem um longa metragem rico de discussões sobre as condições e consequências da humanidade diante as mudanças tecnológicas e sociais proporcionadas pela Modernidade. Este trabalho parte da perspectiva que a sociologia pode realizar análise de filmes com intuito de pesquisa sociológica, sendo um tipo de ferramenta moderna que pode colaborar para melhor compreender questões que perpassam a sociedade. Podemos utilizar obras de arte para identificar, exemplificar e questionar situações que estejam latentes em determinada organização social. Desta maneira, compreender a complexidade que existe nas produções de representações da Sociedade na indústria Cinematográfica, assim como na elaboração de uma obra de arte na sociedade contemporânea, criada no mundo capitalista, envolvida na dinâmica do mercado merece atenção crítica sensível. Desta forma o caminho dessa pesquisa foi identificar e analisar algumas Representações de Questões da Sociedade Moderna no filme “Sonhos” produzido por Kurosawa em 1990. Ao localizar o filme sob o olhar sociológico, identificamos uma pergunta de partida que nos guiou no processo de análise do filme, sendo esta responsável pelo caminho de investigação sociológica sobre a obra cinematográfica: De que forma pode estar representas as questões relacionadas à Sociedade Moderna no Realismo Mágico do filme Sonhos?
Sobre a corrente do Realismo Mágico é importante salientar que inicialmente obteve disseminação massiva através da literatura, mais especificamente a literatura produzida na América Latina, tendo como percussor de grande alcance o escritor Gabriel Garcia Marquez a partir dos anos de 1960 de forma mais disseminada, tendo como característica principal a representação do mundo objetivo transfigurado no qual os acontecimentos mágicos são também narrados. (JAMESON, 1995.) O realismo mágico passa a ser entendido como um tipo de matéria prima narrativa derivada essencialmente da sociedade. No Brasil podemos fazer essa associação com o escritor Mario de Andrade, por exemplo, no livro Macunaíma de 1928, onde aborda questões especificas da sociedade brasileira, bem como expõe questões que tangenciam as experiências humanas subjetivas. Trata-se de filmes históricos, com coloração diferenciada e dinâmica de narrativa que foi de algum modo reduzida, concentrada ou simplificada. Essas características são necessariamente encontradas nos filmes que fazem uma abordagem mágica da realidade. A possibilidade do realismo mágico como um modo formal é constitutivamente dependente de um tipo de matéria-prima histórica no qual a disjunção está estruturalmente presente. O realismo mágico tem sido entendido como um tipo de obra representacional, a carga metafisica ou ideológica nestas narrativas aparecem no momento em que se exige que a pergunta sobre o acontecimento forneça uma resposta suplementar sobre o que é, de fato, a realidade ou o que é realidade em primeira e/ou ultima análise. E este desenvolvimento pode também ser visto como uma conquista de novos tipos de relação com a história e com o ser. (JAMESON, 1995, p 153). Utilizando como alicerce conceitual a interpretação proposta por Jameson sobre as características fundamentais do Realismo Mágico como uma nova forma narrativa e imagética de representação da historia social de maneira específica, nesta perspectiva, surgem algumas problemáticas que o próprio autor busca trabalhar e aprofundar em seu livro “As Marcas do Visível”. Uma delas é reorganização narrativa das histórias contadas nas películas atuais, que inovam por não necessitarem de uma sequência cronológica linear de narração, como foi comumente realizado nos filmes de períodos anteriores, por exemplo. Essas propriedades específicas segundo Jameson podem carregar implicações que resultam em relativizações ideológicas e são capazes de trazer consequências praticas de confusão e esvaziamento ideológico nas produções realistas mágicas no Cinema. Nesse sentido, algumas críticas deste processo consideram que essas características atingem diretamente discursões que tocam a ideologia e a enfraquecem, abordando-a de forma mais fluida e menos objetiva. Embora não seja suficiente mostrar uma diminuição sistemática na geração narrativa e projeção de sentidos diretos, para apontar um esvaziamento de sentido, não o tratamos como se isto fosse apenas uma questão de opção estética. Mas talvez uma forma ainda mais elaborada de construção múltipla de indicativos complexos que são vivenciados de forma mais orgânica e interligada na sociedade atual. Acrescentamos ainda à dinâmica da realidade mágica construída no Cinema a riqueza de imagens coloridas em alta resolução, com coloração diferenciada que prendem os telespectadores de forma quase inerte diante a captação das imagens, cores, sons, diálogos que podem parecer desconexos e histórias que misturam fatos realistas com imaginação e utopia. Contudo, tendemos a indicar que esta dinâmica não está diretamente ligada ao declínio da narrativa ou desvalorização do enredo, bem como, dos componentes ideológicos que estarão sempre presentes em quaisquer criações artísticas que invariavelmente surgem de um lugar e carrega consigo elementos de criação do universo e da época na qual foi produzida.
De acordo com Adorno e Horkheimer (2008) o Cinema nasce com características comuns da época em que surge e que permanecem contidas nas películas produzidas. Essas características são autodestrutivas do próprio gênero artístico, carregado de cultura ideológica, deste modo, só a arte que pudesse se distanciar da indústria cultural dominante conseguiria ser instrumento de emancipação ideológica e social. O cinema enquanto um meio nascido sob a experiência da reprodução industrial estaria subordinado às leis da reprodução capitalista e como tal, seria organizado, constituindo-se como uma ferramenta da cultura ideológica que detenha os meios de criação e reprodução. Porem, outros teóricos também marxistas, apontaram diferentes caminhos tomados pela sétima arte, ainda que esta seja desenvolvida em um contexto capitalista, como Lukács (1982) e Benjamin (1994) que identificaram o cinema como um espaço de criação envolvido em contradições profundas, mas com capacidade relevante de contribuição para a emancipação ideológica e social.
A variedade de olhares divergentes dentro da sociologia sobre a influência ideológica contida no cinema, bem como da sua capacidade de representação da realidade social combina com o contexto vivido pela estética que caracteriza e adjetiva as interpretações sobre as formas conceituais possivelmente distintas que o gênero cinematográfico Realismo Magico carrega. De forma semelhante à crítica que o cinema sofre em relação ao possível posicionamento ideológico que carrega, ou não, e suas características especificas, o gênero cinematográfico denominado Realismo Mágico também compartilha de contradição parecida, relacionado às características básicas que o define e que podem diferir em conceitos epistemológicos sobre o gênero cinematográfico citado.
Esse plano de fundo diverso explicitado acima, nos serve para buscar compreender melhor o contexto que o arquétipo do mundo cinematográfico goza nas Ciências Sociais. Levando em consideração a realidade múltipla que a representação fílmica pode carregar referente à representação da realidade ideológica ou não, a partir de uma reconstrução fictícia, no caso, mágica que ainda carrega um elo de conexão sócio histórico com a Realidade Social Moderna. Olhares complementares nos ajudam a compreender de forma mais completa e panorâmica a Sétima Arte que nesse trabalho traz um bagagem de representação cultural vibrante através do filme escolhido, nos envolve em situações e angustias da realidade cultural no Pós Guerra, representada no filme, a partir do olhar do diretor de nacionalidade japonesa, que nesse período foi acometido por um processo progressivo de cegueira. Produz o filme a parir de sonhos que ele mesmo afirma ter vivido enquanto dormia e que a posteriori teve como resultado oito curtas metragens que formaram o longa metragem Dreams /Sonhos (1990). Este filme apresenta uma abordagem da condição Sócio Histórica do País de origem de Kurosawa, Japão, bem como discute questões centrais da sociedade moderna que abarca o desenvolvimento dos países orientais e ocidentais através de uma abordagem onírica que contém discussões objetivas, que misturam a subjetividade das relações sociais e a objetividade dos problemas modernos que a sociedade enfrenta. Ao apontar esse plano de fundo múltiplo facetado tenho como objetivo situar a complexidade de interpretações que a análise cinematográfica esta inserida, a partir dos olhares de algumas perspectivas sociológicas. Ao compreender a dinâmica que existe na produção cinematográfica e no gênero cinematográfico Realismo Magico podemos adentrar de forma mais consciente e mais sensível para análise do filme. Este trabalho, portanto, se justifica na tentativa de compreender as condições e consequências da Sociedade Moderna, através do objeto fílmico produzido por ela mesma. Elaborado seu enredo através do Realismo Mágico, gênero que tem suas raízes na América Latina, conhecido pelo seu posicionamento critico diante a realidade que se insere.