Resumo
Como a imigração italiana em Campinas foi bastante volumosa, ela abrigou, em meio à massa impressionante de famílias drenadas para o colonato, também alguns elementos que já contavam ora com uma extração social mais favorável, ora com diplomas obtidos ainda na terra de origem, ou, então, que lograram uma rápida mobilidade, seja porque foram economicamente bem sucedidos, seja porque se casaram em famílias da oligarquia local. Integrantes dessa elite étnica, também chamados de “atravessadores de fronteiras”, estiveram diretamente envolvidos com o desenvolvimento de associações italianas em Campinas, sobretudo com a fundação do Circolo Italiani Uniti (1881). Argumentamos que a gênese desta associação, em particular, constitui uma forma de interação que tem diferentes motivações. Nesse sentido, ao tomar como base o método documental, isto é, a pesquisa e interpretação do primeiro livro de atas referente às Assembleias Gerais da entidade - o qual abarca o período de 1881 a 1891 -, objetivou-se discutir de que forma se deu essa sociação, bem como extrair os pressupostos (a priori) que balizaram a fundação do Circolo Italiani Uniti.
Palavras-chave: Circolo Italiani Uniti; Imigrantes italianos; Elite italiana; Associação; Campinas
Na segunda metade do século XIX, Campinas foi uma das localidades que mais se beneficiou com o desenvolvimento da cafeicultura. Não à toa, ganhou a alcunha de “capital agrícola” de São Paulo ao assumir a condição de principal produtora nacional de café. A prosperidade da cultura cafeeira passou a demandar crescente mão-de-obra para o seu cultivo. Como consequência, um novo contingente populacional adentrara no município: os imigrantes europeus. Estima-se que, entre 1880 e 1900, Campinas tenha recebido aproximadamente 11 mil estrangeiros, sendo cerca de 75% italianos. Conforme explica Truzzi (2016), a imensa maioria acumulava-se, sobretudo, nas zonas que eram servidas pelas ferrovias Paulista e Mogiana, ou seja, mais uma condição privilegiada de Campinas e que, sem dúvida, também lhe ajudou a se consolidar como um dos destinos mais procurados.
Apesar da impressionante massa de famílias drenadas para o colonato, cumpre frisar que, com frequência, muitos imigrantes optavam pela mudança para o ambiente urbano, especialmente após o final do ano agrícola, devido à vida difícil que eram obrigados a levar nas fazendas. Assim, os italianos se inseriram num mercado de trabalho urbano que, à época, se apresentava indefinido e com muitas profissões que foram se delineando justamente nas décadas de maior afluxo dos oriundos da península, permitindo-lhes ocupar espaços em grande parte vazios e prosperar em determinados setores. Sem contar, evidentemente, aqueles imigrantes que já vieram com certo capital, com diplomas obtidos ainda na terra de origem, ou, então, que conseguiram um bom casamento em meio à oligarquia local.
Foi inevitável a conformação de uma elite italiana em Campinas, cujos expoentes assumiram protagonismo no comércio, na pequena indústria e também em profissões liberais. São os denominados “atravessadores de fronteiras”, imigrantes que conquistaram, individualmente e de maneira precoce, uma inserção privilegiada na sociedade de destino (ALBA; NEE, 2003).
Mas isso não significa que a vida social urbana dos italianos no interior paulista tenha sido plenamente harmônica. Segundo Simmel (2005), a simples condição de ser estrangeiro já não remete necessariamente à construção de relações de proximidade com o grupo local. Por mais que estivesse em curso, pelo menos para uma fração da colônia, um processo de mobilidade social mais acentuado que no campo, o imigrante italiano não deixara de lidar com novos referenciais que o levava, a cada instante, à percepção de uma autoimagem desvalorizada, à sensação de que não era parte. Ou seja, ele não estava imune às agruras do cotidiano, aos rótulos de outsiders ou desviantes por parte da sociedade hospedeira.
O súbito desenraizamento, a carência de instituições e ausência de políticas sociais que pudessem amparar minimamente os imigrantes em termos econômicos, de saúde e educação para os filhos, a visão etnocêntrica dos brasileiros em relação a eles e a autopercepção dos italianos como os “outros” contribuíram para que os mesmos criassem comunidades de apoio, onde procuravam manter vivos os laços que os prendiam à pátria. Daí a concentração em determinadas áreas da cidade, o estímulo ao socorro mútuo, o apego ao idioma, à culinária, às danças, músicas, práticas de lazer, enfim, a tudo que pudesse alimentar o amor nostálgico pelo rincão distante.
Para nosso propósito de discutir o movimento associativo dos imigrantes italianos em Campinas, o Circolo Italiani Uniti, criado em 17 de abril de 1881, constitui um caso emblemático, não só pelo fato de ainda se manter em funcionamento - agora chamado Hospital Casa de Saúde Campinas -, mas também em função de uma parte razoável de dados e informações correspondentes ao mesmo ter sido preservada.
A entidade fora fundada justamente por integrantes de uma “burguesia imigrante”, isto é, por indivíduos que, graças ao sucesso econômico, à posse do título de doutor ou mediante um bom casamento, passaram a exercer certo papel de liderança em meio à extensa colônia italiana radicada em Campinas. Entre os idealizadores da associação encontra-se o engenheiro Samuele Malfatti, nascido em Lucca. Expulso da Universidade de Pisa devido a perseguições políticas, o jovem conseguiu obter seu diploma em Bolonha e logo migrou para a Argentina, onde trabalhou na construção de ferrovias. Em meados de 1880, transferiu-se para Campinas, casando-se com Eleonora Elisabeth Krug, filha de um engenheiro alemão ali radicado, Guilherme Krug, fato que ajudou Samuele a consolidar-se no ramo da construção civil. Vale mencionar ainda as iniciativas de Attilio Bucci, dono de um dos principais estabelecimentos comerciais da cidade, a Casa Bucci, vendendo perfumes, chapéus e artigos de costura, bem como do senhor Rocco de Marco, que desembarcou em solo campineiro no início da década de 1860 para mascatear. Em 1866, obteve uma licença da Câmara Municipal para montar seu comércio varejista de alimentos. O negócio cresceu e o comércio transformou-se em atacadista. Rocco, então, diversificou suas atividades, inaugurando uma casa de câmbio que efetuava remessas de valores para sua terra natal. Outra figura importante é o médico Ernesto Lancia, nascido em Novara, e eleito primeiro presidente do Circolo. Filho de Giuseppe Ernesto Lancia, ex-ministro da Suprema Corte da Itália, casou-se com Antonia Coelho de Arruda Botelho, de tradicional parentela de cafeicultores.
O Circolo Italiani Uniti representava uma instância de articulação e valorização da identidade italiana. Embora se trate de uma pesquisa em curso, a qual se apoia, até o momento, no primeiro livro de atas referente às Assembleias Gerais da entidade – o qual abarca o período de 1881 a 1891 -, é possível identificar, de maneira preliminar, que, além do enfrentamento da carência de políticas sociais que pudessem satisfazer os interesses e necessidades dos imigrantes, havia o desejo de reconhecimento do grupo na nova sociedade. Aprovado na assembleia de 10 de julho de 1881, página 9, o artigo 1º do estatuto indica que a associação seria voltada para a “recreação e divertimento lícito e honesto”, e ao “socorro mútuo”. Ou seja, parece-nos plausível apontar que, dentre os pressupostos (a priori) mais explícitos de sua gênese, encontram-se o interesse por um espaço de sociabilização e lazer, bem como a preocupação com o oferecimento de auxílios aos compatriotas que necessitassem. Porém, para além dessas motivações visíveis, argumentamos que havia mais do que o simples propósito de fomentar a solidariedade étnica e a arregimentação da colônia. As palavras proferidas por Samuele Malfatti, na assembleia de 21 de junho de 1883, parecem denotar, ainda, o anseio de uma “burguesia imigrante” em adquirir um reconhecimento que extrapolasse o interior da colônia, isto é, o desejo de afirmar sua legitimidade também em meio à sociedade hospedeira: “[...] os italianos sentiam a necessidade [...] de um centro [...], na [...] intenção de mostrar à nação que [...] nos acolhe, que somos dignos de representar no estrangeiro um dos países mais civilizados do mundo, a nossa querida Itália” (p. 50).
REFERÊNCIAS
ALBA, Richard; NEE, Victor. Remaking the american mainstream: assimilation and comtemporary immigration. Cambridge: Harvard University Press, 2003.
CIRCOLO ITALIANI UNITI. Livro de atas das Assembleias Gerais, 17/04/1881-12/04/1891. Campinas, 21 jun. 1883, p. 50.
______. Livro de atas das Assembleias Gerais, 17/04/1881-12/04/1891. Campinas, 10 jul. 1881, p. 9.
SIMMEL, Georg. O estrangeiro. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, João Pessoa, v. 4, n. 12, p. 265-271, dez. 2005.
TRUZZI, Oswaldo. Italianidade no interior paulista: percursos e descaminhos de uma identidade étnica (1880-1950). São Paulo: Editora Unesp, 2016.